O Universo e seu contemplador, em “Sonetos de beira-mar e elegias do espaço imaginário”.
Em admiranda tessitura, sentimos o universal ser apalpado em “Sonetos de beira-mar e elegias do espaço imaginário”, de Arthur Eduardo Benevides. Ao ler o livro, parece-nos que o mar se abeira, e estamos submetidos ao seu infinito, ao marulho que ecoa, ao abismo de seu fundo que entontece. O coração se torna ora pequenino, fincando a areia, ora marinheiro. O mar é o espelho do universo. O universo é nosso espelho. E o homem, à beira-mar, é o contemplador.
Fluem, abundam as palavras. São solenes, quase palacianas. São eufônicas, e se agrupam elegiacamente, ou em sonetos que conseguem ser maiores que o cerceio da forma. A fórmula prototípica, singelamente alça certa liberdade graciosa, através de epítetos cromáticos e cheios de significação metafísica. O livro todo se sente como um brado ao eterno, ciente do antitético, do absurdo, despertando sensações acima das explicações, que só poderíamos nominar musicais, acompanhando experimentações que antanho Hölderlin e Rilke fizeram. Faz-se, destarte, uma poesia sensível e estética, cheia de ecos, com fundura de visionário, que perpassa os temas universais, humanamente escutados e cantados, num grácil transbordamento dos excessos.
É sobremodo o universal que o poeta abrange, é a busca do éter, da aceitação da substância. É a convivência do chão desolado e dos cumes. Do tédio terrestre e do mar que convida, muita vez, às vãs navegações. O poeta está condenado a cantar. E Benevides o faz, e com requinte. Sobretudo, no livro escutamos o mundo que ressoa. O poeta está lá, para auscultar que tudo canta, em melopéia redentora, e ao verso, com o aprumo do cinzel, cabe a escravidão de comunicar. As mãos do verso podem ser plumas que voam e assim alcançam o eterno, até tombar. Mas voam. E nos aquecem como o candelabro, e nos alimentam como as côdeas de pão. Solfejam os seus poemas, abertos ao lied e ao réquiem.
O livro inteiro é sobremodo precipitação. Como espectador, o homem se talha, sofre e se embevece. A poesia, parte adâmica, no que tange à inspiração, parte repetição, ante as influências anteriores, tem a função de consolo, de ponte, de entendimento. Ora extasiado, ora ressabiado com a vida, Benevides porta o elemento dramático contra o insólito e a violência da natureza. É essa a tarefa do artista (ou quiçá maldição): escravizar-se de sua sensibilidade, transportá-la. A natureza sugere e ele transpõe do modo extremo como lhe chega. Modela-se a dor, nesse caso em versos portentosos, de eloqüência febril e arguta, num nítido pendor para o belo.
Dá-se a leitura com prazer. A morte vem como abre-alas, diáfana e assustadiça. São eles, os mortos, que soluçam gemebundos, e nos trazem sua luz mortiça, com súplices mãos. A morte circunda o poeta. Essa certeza da imolação da vida se verte no verso, em profuso élan. O tom é lúgubre, adrede costurado, cheio de ritmo, com hialinas imagens. Os mortos, e sua inevitável morte, nos sondam sempre com sua vaga presença, numa consubstanciação da dor, diluídos na versificação castiça do autor. Mais que a temeridade, Benevides os escuta, talvez já vexado pelas suas cãs, e os sente na sua elevação triste, famélicos de luz. Os poemas são os retratos dos quais jamais debandaram. E os mortos cantam, mormente, o seu desejo de vida. O artífice trabalha o ouvido atencioso, e traz a luz o fato de que a vida é tamanha que até os mortos querem viver. Mas tudo morre. O tempo devora seus filhos.
Sobretudo, canta-se o tempo. É dele o maior poder de ressonância. Pesam as estações, o homem é vergastado pelas passagens, pela idéia de finito. Volve-se o olhar do autor para o porvir, para a morte que espreita irrequieta. Segundo o poeta, “tudo termina. É o dia escurecendo”. Ao homem que espia o mar, por vezes, o eterno se faz breve. O tempo, para os mortos de Benevides, é maior que a própria morte, e se cadencia nos seres vaporosos como um tempo interior. É mister deixar que ressoe, o tempo, e que a alquimia da palavra o transpareça, como diz o autor, no poema metalingüístico: “Mas se faço do amor meu guitarreio. É das dores do tempo, nunca alheio que crio a voz do verso sua essência”. Sentimentos e metáforas se jungem para mostrar que tudo se matiza com o poente, e que desde o nascedouro somos peregrinos imersos no tempo aprendendo sobre um outono que há de nos ceifar. A vida é uma travessia. O poema é a sua ponte, é o entendimento, é a premência do confessar. O poema é o que se cala no homem ao mar, é o canto que ecoa na ânsia de nele se precipitar. O poema é a irmanação com seus marulhos e abismos. E diante da metáfora do mar, Benevides em versos de inefável beleza se precipita em seu mistério, desde a esperança do barco ao seu naufrágio. E chora o coração marinheiro.
Mas também no mar há o desejo. Somos feitos dele, do desejo, e também ele em sua potestade é a parte mais doce da cantilena. Tudo nos impele à travessia. Lança-se a sorte, e o amor pelo vicejar que acompanha todo o desejo é a lufada de ar fresco. Eros e Thanatos se abraçam e se debatem. A vida clama, malgrado todas suas dolências. E a memória do autor trabalha loquaz, nas ânsias que os versos sonoros lhe tragam o bom augúrio. Empossado da lira, ele deixe que a vida ecoe e resplandeça mesmo na cantata dos mortos, que tanto ainda querem viver. E enquanto a palavra sangra e palpita, a poesia alcança o divino, na indulgência do coração amoroso que nos faz lembrar que a primavera sempre nos salva, não importa o quanto morramos. E na dolente compreensão que seus versos apontam, Benevides se expurga, fazendo reverberar no seu poema também a salvação, através de uma alva, de uma tâmara, de um colo fêmeo em que se busca a resignação. Os poemas de Benevides, apesar do torrencial desespero, fazem as pazes com o mundo, como se pode demonstrar na última estrofe de seu Soneto Triste “Entretanto o amor prossegue. É como um rio caudaloso a correr em pleno estio”.
E eis a experiência estética universal do autor, que em suas deambulações, portando seu cello, contempla o universo, amparado pelas palavras nascidas do entendimento que o ilumina, e que não deixa de ser dolente, que todo conhecimento é um doer.
(fiz em maio de 2008)