Vexando-me


10/07/2010


Dos candeeiros

 

Dos candeeiros

 

Encanta o lusco-fusco. Torna as tardes mornas. Faz do rosto luminoso. Atravessa com vagar as janelas. Tateia a carne, e mais além. Permite que meus olhos vão a longe, que percorram outras luzes.

São como um beijo quando o dia começa. Principalmente, parece que partem de adoráveis mãos.

Os dias parecem imorredouros. Permeiam as três graças.Mas, que dó. Todos os candeeiros cansam e por fim morrem.

Um candeeiro acaba de apagar.

E há de reacender, em outras mãos, em outro lugar.

Escrito por A menina do lado às 15h43
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12/03/2010


Hetaira das penelas

Minha cozinha é meu lupanar. De fogos lusco-fusco. De pimentões vermelhos como gretas, de açafrão abençoando como pão ázimo.

Escrito por A menina do lado às 23h38
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31/07/2009


O que ordena o amor

O amor tem me dado caminhos que ignoro. Muito ele nos obriga. Tenho dado as mãos a ele. Conheço as mãos do amor com o coração de uma criança.Parecem-me enormes, sem fim. As mãos são etéreas como uma canção que às vezes murmura impotente.

É temerário não seguir o amor.Sigo-o num alado segredo. Ele ousa.

Há um calor que me protege e que me lança. E há o frio verdadeiro das noites, das mãos que arroxeiam sóse da boca onde mordem as feridas secretas, e não o beijo.

No frio eu preciso mais que do amor, um cobertor. E o único companheiro real é o frio, o velho frio, cavaleiro cavalgando pelas janelas. Que hei de aprender a domar, com mãos vencedoras.

Não posso esquecer que já conheci o valor daqueles que peregrinam pelo vento através do manto das domadoras de serpentes.

Escrito por A menina do lado às 22h21
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Das Serpentines

Quando criança, apreciava-lhes a capacidade asada. Ainda acho que conseguem voar.Emergeriam de qualquer lugar. Quando eu via as seguidoras de Loie Fuller dançar, eu aprendi que os ventos podem ter nome.

Acho que elas ainda sabem planar. Acho que ainda as seguiria.

Eu descobri que ainda sei voar. Todo vôo é "Labour of love".

Escrito por A menina do lado às 22h11
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24/04/2009


Dos olhos e das chuvas

 

 

Mais uma vez o momento das velhas paisagens. E dos olhos novos, com o velho no fundo. As chuvas caem. Os homens choram. As águas molham, aquiescem.Águas tão fáceis.São os olhos velhos? O que sei é que acompanham a envergadura das coisas, e com elas meus olhos caem, de joelhos. As chuvas para mim, para ti. As chuvas para os lírios, avisando-lhes o tempo de viçar. A chuva que se entorna sobre os lírios doentes, quando é passada a hora da colheita.

Não importa quantos homens sob quantas chuvas.As águas têm descido. Ruflam, convidam pata  a velha arte de tombar.Cá onde são profusas as águas, lá, dificilmente uma mão a apeia. Lá, há de ceder a força das águas. Cá, um turbilhão. As chuvas caem, enquanto isso, no meu rosto, moldadas em minha face.E em cada olho que se adensou com a chuva da altura do céu, há a queda turva duma esperança baça.

 

E tudo se dissolve.

Escrito por A menina do lado às 21h36
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21/09/2008


Quero ver, ter novamente entre os dedos

A sarça dançante dos teus cabelos

Os olhos de pouso

Os olhos abertos, contando do que vem de muito longe

As mãos, cansadas mãos de Midas

Pelo calor vencidas

Pobres asas penadas, procurando as minhas

Tuas dores já tão anoitecidas

De tanto contemplar os dias, sem os entender

O gosto do vinho da tua boca

Réstia do veneno de que se não morreu

E sobretudo, a tua vontade acho que já velha de dançar

Imitar as chamas, tão imperfeitas

Queimar

Aquela tua velha arte de quem rocia

A minha noite que te espera

Recendendo a tua mirra

Tua face, ao vento

Branqueja minha vida

Parece que Deus pousou em teus cabelos

Escrito por A menina do lado às 10h44
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O dia esteve tão claro

De tal abrilhantada verdura

Dum tão cortante fervor

Que se ofendeu meu coração

Hoje, obsequioso da carestia

Desdenhando os polens, amando as latrinas

Uma fome de noite, de nela ser rainha

De pintar o sol de azeviche

Rebaixar a face, ao entardecer

Enfureci

Há coisas, coisas de morte, que pulsam

Coisas que o sol ainda não aquiesceu

Que só à noite pertencem

Que só ao breu se sustém, e se mostram

Coisas da carne, sublime verdade

Que o sol, cego manto do lume

Com seu branco olhar  ainda não pereceu

Escrito por A menina do lado às 10h43
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Pousei no teu rosto

Vinquei tua testa

E nos teus olhos me fiz um desespero tão úmido

Que choveram também os meus

Numa agonia tão lenta

Falamo-nos e as palavras tiveram um quê de brisa

E se renderam a um mar

Ao mar, nos deixamos talvez levar

Ao amor do viço das folhas

Tentamos talvez rouba-lo, ao apanha-las

E ao menos ela, a natureza, estava nua

Nua e tão amável

Que por uns instantes, não se dói

 E nossas mãos, já não sei o que procuram

Ao que obedecem

Talvez se estendam, vãs

Talvez se juntem

No fogo arrefecido que nos estremece

Escrito por A menina do lado às 10h43
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Se pudesse

Tomaria o tempo pelos cabelos

Deixa-lo ao pó em que nasce

E se quebranta

Faze-lo alinhado ao chão

Aos musgos, às réstias

Na contemplação ferida de suas setas

Do seu norte nenhum

Só a morte de certeza severa

Fazer o tempo

Ter amor ao cabresto

A prisão de ter tão perto

O alhures

Das alvíssaras do lugar algum

Dar ao tempo

As quatro folhas

Do trevo rasgado

Abrir-lhe o ventre

Em que se revolvem ventos

Traze-lo a minha cabana

Erguida em braçadas

Minhas braçadas

À cabana que amo

Ao topázio que luta contra o amarelado

Atirar-lhe a face

As palavras que não terão valor nenhum

O possuiria com toda ânsia das virilhas

E lhe mostraria o gerânio à janela, em agonia

Levá-lo-ia às  ruas em que se perdeu a memória

O feriria com o punhal

Que lhe faria derramar

Tão-só o nosso sangue comum

Escrito por A menina do lado às 10h41
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Não canso de olhar pra trás

São mesmas, as figueiras

Os mesmos, os quadros de santa ceia

A língua cansou-se nalgum porto em que não se foi bem ancorado

Não foi pródiga a partida

Ficou o amor por cartas(especialmente as seladas)

A comoção das plantas que soçobram ao calor das janelas

E suas tímidas, mas tão amáveis raízes

Ficou o gosto de tocar a areia que trouxe ao calcanhar

Além da procura, amiúde, por canários engaiolados

E sua triste arte de poisar

A saudade das mãos que regaram e as que me ataram com algum nó que me vexa

Sinto na cabeça a mágoa do cabelo que enbranqueceu

De tanto que quis a paz que não veio

Talvez por isso essa ânsia de água, todos o dias

A eleição do lavor por amado

O lavor que leva embora uma coisa, e traz outra de ocaso irreparável.

E deito com o escuro dos quartos, e lhes aguardo os soluços

Da velha estada da memória

Que não consola

Que este frio que não traz sequer agoiro não era melhor que aquele sol que enfastiava

Ao calor, eu me volvo

Não canso de olhar pra trás

 

Escrito por A menina do lado às 10h41
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E agora

Só a boca está um pouco mais gasta

Um pouco mais

Um quinhão de beijos

Pouco pagos

Beijos que custaram talvez a alma

E o branco dos cabelos

Talvez agora um tanto mais disforme

Um tanto mais amarga

Que toca o amor ao ventre

Com mão nefasta

Pousaram as horas

De repente

Sobre o olho que envelheceu

Talvez agora um pouco mais do sensabor

Do céu agora tão escuro

Um pouco mais da pujança do vil

Um pouco mais de praga na raiz

Da árvore que não fincou

Não há mais o corpo

Talvez um pouco de pó meu ficou em teu peito

Ali, pela blusa

Que tu expulsaste num gesto

Um pó abjeto

Cobrindo o livro que não se leu

 

Escrito por A menina do lado às 10h39
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O Universo e seu contemplador, em “Sonetos de beira-mar e elegias do espaço imaginário”.

 

 

Em admiranda tessitura, sentimos o universal ser apalpado em “Sonetos de beira-mar e elegias do espaço imaginário”, de Arthur Eduardo Benevides. Ao ler o livro, parece-nos que o mar se abeira, e estamos submetidos ao seu infinito, ao marulho que ecoa, ao abismo de seu fundo que entontece. O coração se torna ora pequenino, fincando a areia, ora marinheiro. O mar é o espelho do universo. O universo é nosso espelho. E o homem, à beira-mar, é o contemplador.

Fluem, abundam as palavras. São solenes, quase palacianas. São eufônicas, e se agrupam elegiacamente, ou em sonetos que conseguem ser maiores que o cerceio da forma.  A fórmula prototípica, singelamente alça certa liberdade graciosa, através de epítetos cromáticos e cheios de significação metafísica. O livro todo se sente como um brado ao eterno, ciente do antitético, do absurdo, despertando sensações acima das explicações, que só poderíamos nominar musicais, acompanhando experimentações que antanho Hölderlin e Rilke fizeram. Faz-se, destarte, uma poesia sensível e estética, cheia de ecos, com fundura de visionário, que perpassa os temas universais, humanamente escutados e cantados, num grácil transbordamento dos excessos. 

É sobremodo o universal que o poeta abrange, é a busca do éter, da aceitação da substância. É a convivência do chão desolado e dos cumes. Do tédio terrestre e do mar que convida, muita vez, às vãs navegações. O poeta está condenado a cantar. E Benevides o faz, e com requinte.  Sobretudo, no livro escutamos o mundo que ressoa. O poeta está lá, para auscultar que tudo canta, em melopéia redentora, e ao verso, com o aprumo do cinzel, cabe a escravidão de comunicar. As mãos do verso podem ser plumas que voam e assim alcançam o eterno, até tombar. Mas voam. E nos aquecem como o candelabro, e nos alimentam como as côdeas de pão. Solfejam os seus poemas, abertos ao lied e ao réquiem.

O livro inteiro é sobremodo precipitação. Como espectador, o homem se talha, sofre e se embevece. A poesia, parte adâmica, no que tange à inspiração, parte repetição, ante as influências anteriores, tem a função de consolo, de ponte, de entendimento. Ora extasiado, ora ressabiado com a vida, Benevides porta o elemento dramático contra o insólito e a violência da natureza. É essa a tarefa do artista (ou quiçá maldição): escravizar-se de sua sensibilidade, transportá-la. A natureza sugere e ele transpõe do modo extremo como lhe chega. Modela-se a dor, nesse caso em versos portentosos, de eloqüência febril e arguta, num nítido pendor para o belo.

Dá-se a leitura com prazer. A morte vem como abre-alas, diáfana e assustadiça. São eles, os mortos, que soluçam gemebundos, e nos trazem sua luz mortiça, com súplices mãos. A morte circunda o poeta. Essa certeza da imolação da vida se verte no verso, em profuso élan. O tom é lúgubre, adrede costurado, cheio de ritmo, com hialinas imagens. Os mortos, e sua inevitável morte, nos sondam sempre com sua vaga presença, numa consubstanciação da dor, diluídos na versificação castiça do autor. Mais que a temeridade, Benevides os escuta, talvez já vexado pelas suas cãs, e os sente na sua elevação triste, famélicos de luz. Os poemas são os retratos dos quais jamais debandaram. E os mortos cantam, mormente, o seu desejo de vida. O artífice trabalha o ouvido atencioso, e traz a luz o fato de que a vida é tamanha que até os mortos querem viver. Mas tudo morre. O tempo devora seus filhos.

Sobretudo, canta-se o tempo. É dele o maior poder de ressonância. Pesam as estações, o homem é vergastado pelas passagens, pela idéia de finito. Volve-se o olhar do autor para o porvir, para a morte que espreita irrequieta. Segundo o poeta, “tudo termina. É o dia escurecendo”. Ao homem que espia o mar, por vezes, o eterno se faz breve. O tempo, para os mortos de Benevides, é maior que a própria morte, e se cadencia nos seres vaporosos como um tempo interior. É mister deixar que ressoe, o tempo, e que a alquimia da palavra o transpareça, como diz o autor, no poema metalingüístico: “Mas se faço do amor meu guitarreio. É das dores do tempo, nunca alheio que crio a voz do verso sua essência”. Sentimentos e metáforas se jungem para mostrar que tudo se matiza com o poente, e que desde o nascedouro somos peregrinos imersos no tempo aprendendo sobre um outono que há de nos ceifar. A vida é uma travessia. O poema é a sua ponte, é o entendimento, é a premência do confessar. O poema é o que se cala no homem ao mar, é o canto que ecoa na ânsia de nele se precipitar. O poema é a irmanação com seus marulhos e abismos. E diante da metáfora do mar, Benevides em versos de inefável beleza se precipita em seu mistério, desde a esperança do barco ao seu naufrágio. E chora o coração marinheiro.

Mas também no mar há o desejo. Somos feitos dele, do desejo, e também ele em sua potestade é a parte mais doce da cantilena. Tudo nos impele à travessia. Lança-se a sorte, e o amor pelo vicejar que acompanha todo o desejo é a lufada de ar fresco. Eros e Thanatos se abraçam e se debatem. A vida clama, malgrado todas suas dolências. E a memória do autor trabalha loquaz, nas ânsias que os versos sonoros lhe tragam o bom augúrio. Empossado da lira, ele deixe que a vida ecoe e resplandeça mesmo na cantata dos mortos, que tanto ainda querem viver.  E enquanto a palavra sangra e palpita, a poesia alcança o divino, na indulgência do coração amoroso que nos faz lembrar que a primavera sempre nos salva, não importa o quanto morramos. E na dolente compreensão que seus versos apontam, Benevides se expurga, fazendo reverberar no seu poema também a salvação, através de uma alva, de uma tâmara, de um colo fêmeo em que se busca a resignação. Os poemas de Benevides, apesar do torrencial desespero, fazem as pazes com o mundo, como se pode demonstrar na última estrofe de seu Soneto Triste “Entretanto o amor prossegue. É como um rio caudaloso a correr em pleno estio”.

E eis a experiência estética universal do autor, que em suas deambulações, portando seu cello, contempla o universo, amparado pelas palavras nascidas do entendimento que o ilumina, e que não deixa de ser dolente, que todo conhecimento é um doer.

 (fiz em maio de 2008)

Escrito por A menina do lado às 10h31
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19/09/2008


Eu vim dum mundo de morosidades. De lentidão de calçadas, da urdidura das rugas de sol. Vim dum mundo cadenciado por baloiços de rede. E de espera por frutas maduras, olhando o tempo confiadamente. Vim dum mundo que pouco queria mudar, e que se alentava com banhos de cuia. Águas frias de pote. Aprendi nele que as mulheres se cicatrizam de seus filhos e de seus homens com arruda. Que as febres passam com rezadeiras. Que as chuvas são tão raras que são como curas, como festas esparsas.

Vim dum mundo onde se bebem os mortos, quando o coração já endurecido demais pra comportar tantas tristezas. Vim dum mundo em que se gargalha em cada esquina, um riso do tamanho de uma aflição. Sou de onde não se foge do sol, e o sol de nenhum se amerceia. E somos todos um sol de solidão, que se agiganta.

Não sei quando o meu mundo se chocou com o teu. Se numa tarde qualquer os ventos se cruzaram, ao relento. E eu senti o teu mundo em que se quer demais, e não se tem. Onde há tantos montes tão sós. Sólidos desamparos, como mãos aos céus. Desatadas. Esse mundo que te embalou. Deu essa sombra, essa ruga em tua testa, essa envergadura e o temor de te-la. Nesse mundo em que há tanta pressa. A pressa nos teus sapatos furados, nos teus bolsos sem vinténs, nos teus óculos quebrados em que a vida também se quebrou. E tu tremias nos banhos de frialdade, esses banhos que te gelaram o coração. Viestes dum mundo em que o alimento enfastia,  de fartura de repetição. Eu vim dum mundo de carestia, de contentamento. E não sei o que é pior. Se o desejo do mar, ou o fato de já ter afogado nele.

Viestes dum mundo triste de putas de calçada, onde tu pagas por um pouco de amor. Trazes o desdém do teu mundo nos teus olhos. Eu trago a crença no mundo nos meus.

Nada sabemos sobre nossos mundos. Só sabemos que neles permanecemos, sós.

Escrito por A menina do lado às 22h54
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08/09/2008


Dizem que a vida é tecelã imprevisível.

Toda hora é ponto de partida. Não importa o quanto eu não suporte o verão.

Toda hora é abandono. Cinicamente. Não importa a temeridade do frio.

As nuvens se encontram, se desencontram. Causam relâmpagos de efeitos vários. E todo choque não dura.

Não importa. Mudam as catedrais e os heróis. Onde estão os heróis e os monumentos dos meus 11 anos?

A Deus ou a Satã ou à nulidade de todas coisas, perde-se um tanto da carne, da alma. Mesmo assim continuam imperiosas e belas de se fazer medo.

E a viagem continua, sem piedade. E sofremos como os danados, pois é o preço de tanto procissão. E a fome permanecerá, sem remédio, em remissão.

Para horas como essa, nada me parece mais válido do que sabedoria canhestra de gente que foi, e de algum modo, permaneceu. Devo seguir a mesma trilha. Sentir a mesma ausência de coisa inominada.

E olhando sempre as vitrinas e as janelas, por que não?

Tão simples, tão abertas. Cheias de promessa e repetição.

Eis o preço irreparável de toda permanência e de toda condição.

E é tão habitual, que não deve doer. Mas sempre dói, e em segredo.

 

Escrito por A menina do lado às 20h28
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Esta noite não dormi mais contigo. A vida foi feroz como a borboleta matinal que veio ruflar e nos acordou.

 Os ventos foram ledos, e tantos eram seus beijos, os seus alentos. Tantas mãos de mãe têm o vento. E como revolveram a terra, a terra de vinhas e sofrimentos que cuidamos com beijos. Como foi embora o sabor, o pomar, e as raízes que se tocavam em conhecimento.

Bem cedo veio o norte. E a terra abriu seu ventre enorme, e te amparou. E o mar cantou o seu verbo, com pérolas tão fundas, nas mais duras conchas em que quiseste sangrar, apear com a mão, provar da salmoura.

E nem sei nadar. E senti ao lado da cama toda aquela liquidez. Todo o repasto do mundo e sua fome e seu fogo que eu não poderia suster sem queimar.

Não estavas na cama, e vi-te ir embora. Cheio de águas, e em chamas.

Tinhas um colar de pérolas em teu pescoço. E reluzias. E o clarão me cegou.

E não dormi mais contigo. Nem as ondas te devolveram. Ou pude te guardar num candeeiro qualquer.

A cama está desguarnecida, descarnada da tua subterrânea turgidez q aprendo a desentranhar quando agora ouço as tempestades

E sei que longe relampejas, em outros céus.

E este céu de sono agora é uma água salobra. Um céu de lividez

Mas permanecem todos os céus. Como a mesma fome e o mesmo Deus

E da insônia faz-se a urdidura do sono de adeus

 

 

Escrito por A menina do lado às 20h13
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