Vexando-me


03/01/2006


O tempo devora seus filhos

Estava a escrever algo. Longo, irrecuperável. Essas cousas. E eis que perco tudo. Aí que pensamos que o último segundo é mesmo irresgatável e isso nos faz ser como uma canção nauseabunda. “Ad nauseam”. Gosto desse termo. Pior que gostava do que escrevia. Às vezes gosto. Às vezes simpatizo. Mas sequer rememoro do que se tratava.
Dizia eu ser ano bom, ano do senhor. Não poderei reproduzir. Já é outro o momento. E creio que seja esse momento já apático e desfigurado.Mais do que outro.
Mas eu dizia que as banalizadas sementes do vir-a-ser são realmente já desgastadas. E que no meio de tudo isso, dessa sensação outonal, desejo senão a nulificação, esse termo, essa coisa nominada parida por oposição de algo: O tudo. Mas eu dizia simpatizar com imanências.E com imperativos categóricos. E moços cujas carnes não foram bem-vindas e que, não sei porque, seus nomes vêm a mim numa tarde sem refresco.Como almejados musgos, desses que comovem e exasperam.

Falava eu de eterno retorno? Da tristeza de ser mera repetição de dores várias e de ter nas veias milênios de impudicícias e torturas e curiosidades? É perigoso carregar no olhar sensações milenares. E não ser mais que uma repetição. E reverberar, e me dobrar como sinos, incontinenti.Que o nulo é condição sine qua non do que é tudo.
Pudera não ser retrato repetido! Viver novamente, novamente, novamente....Falar novamente, bestialmente. Entorpecer-me de tanto sentir. E lamentar tais sensações, desgraçadamente.
Eu falava do sabor do tempo? Desse poder misterioso, o de dulcificar? Que o tempo nos ensina a degustar, a saborear? Que amo o que é acérrimo tanto aquilo que é doce?Que estou com dó das palavras irremediavelmente perdidas? Que me chegam agora dó daquilo q é irremediavelmente perdido? Oh, que experiência paupérrima.
Dizia que já não sei do que me poupar e o que alimentar?
Mas o que dizia eu sobre os mistérios? Os mistérios....agostinianos? As imprecações e o sabor daquilo que é mudo... As certas coisas que não se dizem?O ato meditabundo do mistério. Eu falava que isso me intrigava.E mitigava como sol; Eu falava de meu ar meditabundo e distraído. Não do meu, acho. Dos outros milenares que moram em mim.
Falava eu das multidões que se tocavam, meditabundas?Tb?
Que voltei devagarzinho, não sei pra donde? E que o mundo possa me ser por vezes prenda a ser descoberta?
Almadiçoava o fato de ser tudo texto? De ser tudo leitura? De eu ser senão o olhar que me é pousado? De não me saber dizer e por isso dar de ombros, sem sossego?Disseram-me “Tu és aquela que sabe contar”. Amaldiçoaram-me. Sou aquela que sabe contar. Antes eu não fosse uma exposição. Antes não me derramasse. Antes o silêncio me bastasse. Antes me coubessem as coisas. E não transbordassem sem veracúndia. Antes fosse algo que se pudesse reter! E conter! Antes não fossem as idéias filhas e eu não injetasse, em desarmonia, mensagens de anunciação. Antes houvesse harmonia entre céu e terra. Antes pudesse eu ser verdade contida. Antes os olhos não fossem livros. E as sensações sarças.Antes não se solfejasse nomes e não houvesse linguagem.
Entre as multidões inquietas agora desejo placidez de águas que não são mais navegadas.
E , ah!Antes fosse eu segredo que não se ressoa e se perde entre horas tantas não observadas. Como disse uma vez, o que mata um jardim é o olhar de indiferença sobre ele. Mas sempre ele, o olhar, pouso que inquere. Pouso que desnuda. E lê. Caráter de individuo. A única coisa que apazigua o só é o olhar. Não é à toa o amor ao olho de Deus. Que é só a ânsia do olhar que ama. Olhar amantissimo. Ou mesmo que pune severamente.Oh! Pudera não ser coisa a ser olhada, encarecida! Pudesse ser nada! Pudesse não ser condição sine qua non do tudo! Pudesse haver mistérios que não se sondassem!Mas as coisas retornam e faz-se o mistério da anunciação.E vou, passo a passo, até me dissolver em qualquer foz. Olhando e sendo olhada. E cansada de máximas.Gosto, porém, das falências do nominar...Mas palavras são filhos pródigos. E Enquanto não durmo sem essa possibilidade- a de acordar, sangro desesperada feito hemorragia.

Escrito por A menina do lado às 00h02
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Da passagem das horas

Chove.Como o milagre para os ressequidos. Como as lágrimas dos céus. Como as santas que choram. Seres humanos desolados enxergam bênçãos e frutos e esquecem de esterilidades. Há trevos de quatro folhas. Ao longe, o perfume de lentilhas com curry.Fogos explodem, benfazejos. As horas passam como tortura. Chover pra mim é um erro agora. Dá-me vontade de perambular. Dá-me ânsia de cheiros e uma náusea de lembranças. Confabulo com o ar. As árvores me segredam. Esqueço-me. E envelheço.
É doce pisar com os pés descalços na terra. Ter saudades do não vivido. Tatear o nada. Sentir as emoções mudas.O olor de terra úmida que comove.Oh, sensação ocre e telúrica.Caminhar, a esmo.
O sol está indo dormir. E não gosto de contemplá-lo. As estrelas são como olhos. E me desesperam. Como os olhos de Deus.
O relicário que trago em meus olhos...É meu, ninguém tira. Contemplo com os olhos vagos.São os meus pedaços.
Há uma serenata cá dentro de mim. Sem voz.
Acho que quero dançar uma valsa com alguém nesse momento.. Por desejar aquela troca de olhares, por desejar o mergulho nas profundezas inescrutáveis da íris alheia, o doce e desejável naufrágio. O amor ardendo no peito.

Escrito por A menina do lado às 00h01
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Dos intervalos

Vou-me carregada pelos instintos...Pra donde não sei.
Fujo das responsabilidades. E os chuveiros me dão vontade de cantar.Ar inclemente e indócil. Pronta pra ser cultuada.
Instintos são abismos deliciosos. Ah! Esses admiráveis inferninhos!
Penso que não sei exercitar meu ar nigérrimo mais.
A apatia é algo disforme. Um Leviatã.
E Deus me fulmina, rs. Meu esporte predileto é escapar do olhar divino.
Mesuras, mesuras...
Meu humor ora subtil, empolado. Ora chato como uma mulherzinha. Ora possante como um Mustang vermelho, desses que fazem Lucélia Santos gritar "Negro, negro" com voz pujante.
E acho que ando com sodades de meus cadernos empoados.
Rs...Sentimentos ditam, por vezes. Os desastres saem. Só qdo abandonamos o estado etílico que os provocou que entendemos.
Como sou levemente autólatra...Eu me castigo.Qdo me apaixono, fico obtusa. Tão-somente obtusa.
Sou um ser humano bestialmente insatisfeito...Se vc padece da mesma bênção-maldição....
Padeço infernalmente.
Perco-me.
Percamo-nos.
Conosco nos desaviemos.
Mas minha risada sardônica não me abandona.Pelo prazer de ser ridícula, quizá, quizá.
Acho que é a marvada pinga nos atrapaiando.E eu nem tchuns. Nem neres de neres.
Posso olhar o mar e ficar bancando uma portuguesa em dias aziagos, esperando D. Sebastião voltar das dores de Alcácer-Quibir e blá blá blá.
E cansei de não gostar de caranguejo.
às vezes a decadência pode ser terna.
Salaam aleikun

Escrito por A menina do lado às 23h29
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Dos arroubos

Coragem, desatino? Confissão, burrice?
Não podemos saber.
Bom mesmo é obedecer à alma.Porque uma coisa é certa: Não se pode arcar com cobardia.É a pior das misérias: a íntima.
E fico aqui me desmanchando. Querendo sabe o sol o quê.
Voz minha, tão minha.Voz que desejo.E junto a isso esperar. Desejar. Esquecer. Enterrar. E os nãos. E os senões.
Rebentar para mi, rociada de minha passionalidade.
Descasos. Sonhos malogrados.O desejado, o cobiçado, o não realizado.

Que o tempo se amerceei de mi.
Escrever é o murchar da agonia?
A tal da chave do meu segredo.
Meus olhos negros continuam nublados e irresolutos.
Os filhos tão estimados qto natimortos...
A coisa grandiosa da vida, além de meu próprio peito.As graças de doer. O doer solitariamente. Que ele não vira um chafurdar.
Acho que é próprio de minha alma chorar quando é justo chorar.
O que foi, o porvir, tudo dói.
A vida como possibilidade...Mesmo feridos pelos anos, pelas mágoas, pelo cansaço, por rancores.E aquilo que nos toca mortalmente.
A carne é bem-vinda...

Escrito por A menina do lado às 23h27
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Dos perigos

às vezes pareço ser feita de constantes abortos. E ter a perenidade daquilo que se desfaz.
Esse papo de contradições é um pé no saco.
Folgo muito de me ver. E de ver. E de aspirar todas as frescas. E ouvir os ventos. São de uma sonoridade terna.E penso que escrever é interior como um latido. Como o pulso que cortei num momento de extrema dor. E parece que o desejo de morte é pari passu com o desejo de cessar a dor.
A madrugada ganha sabor. O sabor da agonia de seu fim, vai ver.Um semi-breu. Uma possibilidade de amor. Uma perdição. Uma canção vulgar. Perguntas simples.
Gosto dessa frase "é próximo da morte". Pq é uma sensação única.
Eu sou uma afirmação leviana.
Um coisa assim, mal-rematada.
E degusto um vinho solitariamente.Doses de dor. Até d'amor.
Desdenhar o possivel, amar o impossivel.Ser qualquer coisa de volúvel e insatisfeita.O sublime e o grotesco. A luxúria, a ternura. A calmaria, a tormenta.Coisas que desesperam. Coisas que trazem em si o desassosego.
Sempre me ocorrem poemas e suspiros d'alma.
Quero com palpitações.Insondável, instigante e provocativa.Universo vasto, inexplorado, fascinante.
Ser perigoso.Como faca. Acachapante.O lirismo. O apuro. A graça vocabular. E o que é mais intenso.
Manchar de vida o espelho. Quebrar os espelhos. Comove. Isso me comove.
Ele diz "é um pecado não morrer de amor por vc"
"Você sempre me deixa emudecido"
Tomar banho de chuva, com lirismo dos clowns de shakespeare.Lirismo dos bêbados.Dois bêbedos líricos e pungentes.
Falar bobice. Falar coisas graves.
E penso que noite de domingo é pra ser ganha.Extravagâncias e perdições.
E acusam-me de alma invulgar que não pode dar respostas...Ter um leviatã revolto e indomável a se debater furiosamente nas mais recônditas entranhas do ser... Às vezes faz-se necessário dar de comer, ainda que a duras penas psíquicas e emocionais, alguma coisa a ele, a fim de aplacar sua voracidade e apaziguá-lo... Mas tudo são lenitivos transitórios...
Vagueio em minhas inquietações.Mas desconfio da natureza débil de seu ser.
Sou ungida de vago. E conflituosa. E errante. Não sei o que fazer. Estou à deriva.
Eu tenho sede de areia.
Bem, pela contemplação artística, desfrutamos de fugazes períodos de paz de espírito e apaziguamento das agruras mil suscitadas pela Vonttade e seu querer errático, despropositado... Ouvia há pouco o Concerto Nº 3 de Rachmaninov para piano e orquestra...cheguei até a acalentar um pensamento doce em meu íntimo de que valia a pena ter inrompido na existência, apenas pelo deleite frugal de trechos daquela obra... Mas assim como Schopenhauer diria, a salvação definitiva está apenas na nulificação...
Suponho que eu ande a me salvar.
Vai ver é por despeito que escrevo. ou por absrudo.Para mi, tão-somente. Sou mãe zelosa de meus filhos. Quero-os só para mi. Hediondo filho, desdobramentos de minhas feridas narcíseas em flor.
Eu acho que me revolto. Não sei o que quero dessa palavra "amor"
Eu acho que sou feita de desejo e não há pecado maior do que o desejar.
Amor é palavra pra ser escrita na areia.
E que alma ígnea será mistério a ser contemplado?Despertar a mórbida curiosidade.

Escrito por A menina do lado às 23h27
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Das perdições

  É nefasto não haver simplesmente o que dizer. Tudo o que é comezinho torna-se o substancial. E sinto a epiderme tão dolorosa quanto a fome. E acho a saciedade a coisa mais metafísica que possa haver.
Nesses instante penso sobre a inteligência. E acho-a uma coisa tão pífia quanto todo o constructo civilizado.
Penso que gosto de George Abdo e as coisas se destroem. E gosto dessa palavra "coisas". Para tudo o que é indefinido. Gosto de indefinições e dessa id´´eia de todo que a palavra coisa engloba.
Penso que não há nada mais chato que começo, meio e fim.
Prefiro ser escrava do mistério e dizer, cansada e me sentindo "coisa" a palavra "coisa".
Entedio-me.
Digo pra ele que quero vivenciar de novo certos momentos. E é vero. Que quase desmaiei passeando pelo centro da cidade. O aglomerado de pessoas me causando tanto silêncio e afeição que mal suportei.ah, eu quis desmaiar por causa de um cão passeando sob o sol.Da vez que cutucava com uma chave uma tomada, e nem levei choque, rs. Queria viver isso de novo.

Escrito por A menina do lado às 23h23
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Das totalidades

 

Não há rosas sem espinhos.
Não há alegria que não seja triste.
Vou caminhando, enumerando os momentos de sorte.

Escrito por A menina do lado às 23h21
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Grazie

Ao poluto e ao impoluto que eu possa ter volvido meus olhos para mi. Saudades do olhar meditabundo e de risos absurdos. Ser minha. Olha virado para dentro.
Vou-me, avesso das coisas. Hora de almoçar.
Dor com pão dói menos. Alegria com pão é mais alta.

Escrito por A menina do lado às 23h18
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O imortal soluço

Gosto daquilo que é antigo. Gosto daquilo que tanto viveu quanto desbotou. Gosto de fotos vivas e mortas. Gosto de cemitérios que são vivos e mortos. Gosto dessa união fantástica de vida e morte. Fico profundamente comovida.
"Os mortos de sobrecasaca". E penso sobre o imortal soluço. Eu soluçarei para sempre, creio. A imagem, o resquício não deixa que se vá. As coisas choram. A alma soluça.

Escrito por A menina do lado às 23h16
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Dos factos

É obsceno o esquecimento, mas acho que muitas vezes fui terminantemente esquecida e esqueci. E muitas vezes fui lembrada com desgosto.
Eu não gosto de ser uma ferida.
Não é o ego que dói o esquecimento. É a sensação de ter passado a vida em branca nuvem, como diz Francisco Otaviano. É um desrepeito pelo que se sentiu e viu. Mas acho que o mundo é feito de desrespeito e vileza muita vez e o esquecimento é algo que se estende imenso.
De todo modo, não há nada demais no ego."O mundo que me rodeia é apenas um pormenor no meu narcisismo".

Escrito por A menina do lado às 23h15
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Mas ainda escrevo....

Escrevo e escrevo porque, maldição, escrever é contemplar-se. Se não escrevo é porque às vezes as felicidades cegam ou às vezes as tristezas emudecem tanto as paixões quanto as palavras. Nessas horas a alma grita e isso basta. Porque todo gritar entorpece.
Força é confessar.
De todo modo, sempre dizemos. O que acho triste mesmo smepre é o esquecimento e a incapacidade de olhar. Tenho dito, e sempre, que o esquecimento é obsceno.
Será que é feio o meu desejo de às vezes querer me bastar? Não ser inteira. Ser metade. Pq nunca, nunca se é inteiro. Aamr é tão-somente desejo e desespero. Amar é tentativa de alcance que nos sossega. E faz com que doudamente arfemos, rs.O ser humano não nasceu pra ser só, mesmo. Malgrado esteja mesmo condenado a ser só. Ai, porca miséria! Rs. E ando assaz risonha...Mesmo que ontem tenha chorado copiosamente(com esse clichê e tudo)
Ai, ai....esses meus botões inclementes e esse meu ar falastrão! Cá comigo.... Mas qual meu destino, ser “feliz e ajustada”? Um tanto quanto soporífero. Mas não é belo que, mesmo ao chão, eu passe a gostar de chão. Só não quero esse ar coitado em mim, esse ar desprovido de belezas. Esse ar de predisposição ao malogro, entende? Mas que não é justo, não é. Caramba, phoderam a minha vida...rs. Mas, enfim? Que fazer? Manter a sanidade, a dignidade?
Apesar da vontade de gritar, me rasgar ou sumir, ser pequena e pequena, tenho feito o que deve ser feito. Mas até quando?
Enquanto isso, suspiro e masco chicletes, embirgando-me de cafés e delirando de amor e olhando olhando mesmo as augas(que nem no galego) poluídas.
Agradeço, porém, de ainda poder ler Trakl. Temo não ter tempo para isso. Ir-me acabando, sob o sol de Satã, com os pardos, rs

Escrito por A menina do lado às 23h15
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Simplesmente

O tanto que li, os tantos termos...E Bachelard, e Céline, e Freud, e Reich,  e Turguéniev, e Marcuse,e Nietzsche, e Marx, e Cioran, e Heidegger, e Adorno, e Dostoievsky, e Lacan e mesmo os anos lentos da quitandeira...Tudo o que posso dizer: que esplendorosa a sensação de que temos um coração.
E que construimos. E que temos mãos. Mãos e instinto e coração.
Gosto da razão e coração que se debelam e avivam continuamente. Gosto do desespero inominavel que construimos. Das contradições mais insoluveis. Que se debatem e vigoram e se destroem.

Escrito por A menina do lado às 23h13
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Dos fantasmas

Doem as coisas que são separdas. Pior que essa separação é genuína e adâmica. Tb eu tenho um nó na garganta que é feito de dois amores e de culpa e isso é tão pequeno. É quase uma loucura. às vezes acho que desejo fundamente enlouquecer. E só enlouquece quem quer.
Mas dói o que é separado...E inconsolável eu lhes digo que já vi tanta beleza, e que sei sobre os dedos da miséria, e que dei tudo em meu corpo, e que nele muito recebi. Todo o prazer e toda a tristeza que um corpo pode receber e dar. Minha alma foi já habituada às mais ternas calmarias e agonizou em vissicitudes e em naus naufragadas. Mas o principal é que é tolo e estéril dizer sobre isso. O fundamental é que isso é silêncio e desarranjo. São palavras palavras palavras que se perdem.
Tenho imenso dó das palavras. Elas doem imenso. Perdidas e vagas e sempre solitárias. Sempre únicas e separadas a dormitar e a violentar os únicos corações.
Eu ontem chorei com violência é fato. E sorri com mesma violência. Ainda gosto de ventos e de chuvas e de pessoas e de conversas e de tolos e de amados e de gênios.
Mas ver é falar. Escrever é olhar e foi-me dado essa coisa que às vezes esconjuro: o dom de olhar. Tão pasmado e agônico quanto o dom de falar.
Falar com olhos e falar por símbolos.
 Aa desistência é coisa feia. É triste como o bolor.
Dói-me todo o esquecimento e só me resta esse transe soluçado.
Muita vez, talvez....
Se sou estátua, o que me alarma é que mesmo atrás de minha frialdade meu coração nunca é feito de pedra. Se pareço pedra é por maldade. É por maldade que sou. É por cansaço. É pelo tédio de viver. E não há nada mais derramado e intenso do que aquilo que nos torna pedra.
É pela vida que anseio, é por amor que clamo, é por detsruições que choro, é com cansaço e alegria que me reconstruo. É por torpor que me repito. Incansavelmente.
E que não me acordem do sonho. E que não me venham com suas "verdades sobre a vida"

E depois de fazer-me outra, e passear pela minha multidão, ser eu, eu outra vez. Eu ao espelho. Verdade lida.

Escrito por A menina do lado às 23h11
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Do abandono, da morte e da amável clausura

Ontem me disseram que havia reticências em minha vida e que mágoas cegam e causam vendavais e que ódio era próximo d'amor e que um dia aquele a quem certa feita ingenua e cruel e calorosamente dei a minha mão e confiei a minha alma(mas que mesmo assim fui sempre solidão) voltaria com o desespero dos enamorados e curado dos assombros de sua idade e que tanta crueldade era amor adoecido e coisa e tal.Nem respirar pude.
Sei que os seres se repetem mas gosto de pensar que não. Gosto de verificar, porém com muita dor, sobre a morte e aquilo que agonizou. Beijo as lembranças boas. Beijo a falta de ódio em mim(Não sei alimentar esse sentimento que queimaria mais a mim que ao odiado) e sei de quanto ódio pode haver no amor. Mas há mortes e destruição e lamento os amores detsruídos.Já o disse.
às vezes as coisas boas doem e sangram e o que dói é que se tornou feio, lamentavelmente, e não é justo sequer que haja saudades. Isso dói: Não poder ter saudades. Que as coisas se tornaram feias e engavetpaveis.
Em algumas palavras e atos há a dor da perda de sentido e lamento e me digo "por que se tornou feio e sangrado"?
E penso no que há agoura. E o que há agoura é feio e temível e digno de esquecimento.
A morte se faz. Ela é triste, mas não há jeito.
E guardo nos meus olhos as dores de milênios. As dores repetidas. As dores, porém, sem igual. Do que me faz mais distinta e mais comum.Guardo nos olhos as folhas verdes da esperança, assim como há neles rosas brancas e frescas violetas. Olhos que pedem amor.
E de minha morte rebentou depois vida e o que aquele me deu de bom está perdido e eu choro que já não possa dizer "Foi bom" , impoluta. Porque seres humanos são impossíveis. E o que foi bom está poluído. Foi-se. Morreu. E que entendam que a morte se faz.Sobram-me coisas mais agoura. Coisas tão mais e tão belas.
Tudo o que quero pensar é na reconstrução e nas sensações novas de felicidade. Gosto das minhas sensações que não são reperadas nem olhadas às vezes. Gosto de tudo o que escrevo na areia e gosto também dos olhos significantes. Sejam os meus ou os outros.
Ás vezes minha casa é vazia como minha alma e de minha antes mais alta negritude(de humor) desce-me a questão dos sexos dos anjos e sou então a melancolia e escrevo com agilidade servil. Escrava da minha alma chorosa.
Não posso me envergonhar dos momentos de força. Nem dos de debilidade. Eu gosto do que sou feita. Gosto de minhas multidões. Gosto do terror que elas causam. Causo terror. Causo desejo. Causo doença. Causo amor. Causo afastamento. Mas deixo marcas. Gosto disso: minhas variantes deixam marcas.
E depois de todo esse complexo podem me dizer, olhando-me na face: tu és simples.
Mas agora quero enumerar os momentos de sorte, para que não seja tão cruel a minha clausura. Clausura em que sou liberta. Vivo na clausura pq tudo é solidão e desejo de um. Mas na sangria da clausura de ser só, passeio liberta. Como um passarinho.
E canto. Canto as almas que descem. Mas também eu não sei de mortes? Se sei de amar com desespero também não sei sobre a viuvez? Se sou coberta tb não sei sobre ser nua?
Rs...E lendo tudo isso, penso "menina, com efeito, estás repetitiva".
Eu acho que a recuperação é uma massa amorfa e repetitiva em que tenho que fazer despedidas e tenho que falar de agonias e sou essa fortaleza frágil e essas repetições todas e blá blá blá que não aguento mais, rs
Acho que sinto falta de minha acidez, de meu humor violento e de minha verve tragicômica. Ando por demais mulheriznha.E com escrita feita de "e".... Não à toa fiz esse blogue.
E receio que se assombrem demais quando cantar minhas outras facetas. As mais cruéis talvez. Ou as mais criativas.
Dou-lhes agora meu negror e as fosforência de uma alma apaixonada.
Sou mulher.
Mas, que engraçado, às vezes sou tão homem...rs

Escrito por A menina do lado às 23h08
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Da simplicidade

Gostava dizer "símplice" que sempre preocupada fui com eufonia. E penso que às vezes há perigos tanto nas complexidades quanto nas simplificações. Minha luita sempre foi pra tornar as coisas mais simples, creio, por ter sempre gostado delas complicadas demais. Como diz uma amiga, pra quê simplificar se posso complicar? Mas às vezes é belo e bom e necessário fazer-me simples. E perceber que o caminho do simples só advém de muita complexidade. Depois de muito caos chega-se às vezes à verdade do simples. E o mistério profuso de todo o simples. E as sensações são numerosas e simples. E dá-nos vontade de acarinhá-las.
Eu acho que desejo acarinhar certos seres, acariciar-lhes suas dores e desejos.

Vou-me desfeita em dor, coração partido. Mas são feias as desistências.
Se eu pudesse me purificar disso. Se houve lavor ou consolo.
É tão complexo, e se tornou tão simples.Que descoberta fagueira. Se pudesse afagar essa descoberta, se pudesse afagar, acariciar a dor dos seres...

Amor há de ser a palavra escrita na areia. E ninguém a lerá.

Escrito por A menina do lado às 23h07
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Das contradições

Choro por todos os amores destruídos. E sou uma posição fetal e inércia e medo. Mas não há rosas sem espinhos. E hoje não entendi isso. E fiz uma coisa feia. E cantou o meu "bom coração" contra todo o egoísmo, e fez essa coisa feia, e fez-se toda a possibilidade, até a da renúncia. Não sei de quem. Renúncia é mais obsceno que esquecimento.
São feias as renúncias. E quanta dor há na abnegação! É-se ainda mais sangrado na dor que se dissimula.
Corrói como os anos.E aguardo os outonos da vida, enquanto sou verão e me firo.Ainda sou verão, que fazer? E me firo.

Meu perigo é o suportar isso. Mas não quero fazer no rosto de alguém uma amargura.
 
Não há rosas sem espinhos.Se pudesse se dividir as pétalas tanto quanto os espinhos!

Escrito por A menina do lado às 22h59
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La vie en rose

A vida é assunto para a criadagem, a vida é assunto para ser discutido na cozinha, sobremaneira.
Enquanto isso, leio Céline na fila do SUS.

Escrito por A menina do lado às 22h58
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Paisagens e brevidades

Cedo descobri que as coisas são sempre as mesmas. Cedo descobri que só o olhar nunca é o mesmo. E que a graça toda de viver está na individuação.
Cedo descobri sobre as repetições...Que pouco me importava paz ou guerra. Que já se fazia sólido o meu redemoinho e que tudo o mais adivinha dele.E sobre isso pude suspirar. Pude lançar olhares cansados ou ternos ou regelados. Olhares temivelmente superiores. Pude lançar meu olhar ardido e elevado sobre o que passou. Pude olhar para longos desertos caminhados, com suspiros. Pude suportar todas as dores. Pude sobrevivê-las sem esquecê-las. Pude esperar D. Sebastião sabendo que apenas a idéia de amar era amável. Não o esperar. Pude conhecer o sublime da abstração. Que a abstração torna tudo o que é palpável alegre. Pude fazer das chuvas belas como lágrimas de anjos. Amáveis como a concupscência dos deuses. Pude encher-me de pássaros e cães lazarentos. Pude escrever na areia a palavra "amor". Pude me perder nos verões e depois placida e dolorosamente me fazer outoniça.Viver a saudade de todos os outonos.Quiçá, misturas estações.
Pude enfim saber de brevidades. E de fins. Meu mundo assustava-se como uma criança. Pude ver a imensa fragilidade de tudo quanto havia. E na força descomunal e infindável que sustentava toda aquela fragilidade,pude notar meus quadris sustentando o mundo.
Pude olhar e fechar os olhos para não ver mais. Pude reabri-los e conviver.

Escrito por A menina do lado às 22h58
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Irmãos coeternos

Entre ser margem e ser barco as horas me contam sobre o cansaço. Tenho vontades de descansar num regaço para pensar que quero ser inteira.
"Como Castor e Pólux", ele uma vez me disse.
Eu acho que há imensa dor no divórcio do corpo e da alma. Há imensa dor e imensa graça em não ser jamais gêmea.

Escrito por A menina do lado às 22h57
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Conhecidos

Como é raro todo o tocar. Em mim habitam as multidões.E são todas irmãs e unas e solitárias.Mas multidões. E legiões estrangeiras. E tudo contradiz. Impõe-se a distância, e penso em cousas sublimes.Penso no sublime tocar. O tocar que aplaca as multidões. O tocar que é sublime como tudo aquilo que pode ser unificado.
Extasio-me ante o calor.E penso no um. Na força delicada de todo um.
Do ligeiro tocar.
Deixo-os, multidão que quer ser rara. Que quer ser um.
Aspiro o cheiro da felicidade secreta. Essa felicidade misteriosa: a da união. A do outro ser profunda e ternamente conhecido. Por inexatos momentos. E os abismos.
Vou-me vontade de um. Vou-me gula de um.

Escrito por A menina do lado às 22h56
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Madame Bovary C'est moi

Quem eu sou?
Oh...Eu e minhas variantes...Eu e minhas faces...Eu e os comigos de mim... Sou uma fêmea que foi abandonada, mas sem fúrias. Sou uma fêmea revoltada . Sou uma fêmea resignada. Sou uma fêmea de ceroulas, muito macha.Sou uma fêmea que foi achada e cortejada. Uma que fez escolhas certas e erradas. Uma fêmea que não suporta maniqueísmos.
Eu sou uma legião...
Eu sou aquela que não sabe que porra será essa de “charme intelectual”. Eu sou a que diz: Não venham me cobrar charme intelectual. Eu sou a que ganho glamour ante ao espelho, face desbotada. Olhos negros se derramando. Borro de paixão o espelho. Quebro espelhos. Eu sou a que toma o banho, impoluta. Eu sou o amor. Eu sou a tristeza. Eu sou uma chaga mal-curada. Trago no olhar as doenças venéreas. Trago no corpo as metafísicas. Sou a fêmea rastejante. A de riso sardônico, quando tendo por único consolo o frio chão. Eu sou a dona das divinas tetas. Eu sou feita de indolências. Eu curo feridas de morte. Eu beijo minhas próprias lepras. É por egoísmo, é por sadismo que me tomo de dó por outrem. Eu me ilumino pra depois, de repente, apagar-me...Eu faço esbórnias atpe me fatigar. Até chorar por homens e mulheres. Eu sou um olhar de Virgem Maria. Eu trago morte às parturientes. Eu recolho cestas com crianças nos rios. Eu faço (me benzo), obscena. Eu dialogo com botões...Mas às vezes, quero que se passe adiante. Eu sou um coração numa árvore, atravessado por uma flecha. Eu sou uma inscriação na areia. Eu sou uma mulherzinha, esperando o que não vem. Eu sou o jardim que morreu um pouco quando não o olharam. Eu sou um boneco de posto.Eu converso com pedantes combalidos. Eu sou pó. Eu sou basáltica. Eu sou o onduloso mar. Eu sou o deserto que vence. Estou amorrendo. Eu vivencio as dores mais abjetas. Eu sou um grito silencioso. Uma lépida gazela. Eu sou a menina Cris. Eu guardo as pessoas em caixinhas. Eu suspiro tanto quanto respiro...Sou uma adjetivadora de mão cheia, uma moça pouco prendada...Aliás adjectivadora. Adoro arcaísmos.Eu brinco coas palavras, e choro por camafeus, frores na lapela, camafeus jogados ao mar...Sou uma pobre moça do campo. Uma ceifeira que canta. Uma beduína paciente. Uma alentejana que se consola com o mar infinito. Eu sou a que caiu no mar. Eu sou Dulcinéia, eu sou Penélope, eu sou Zinaída. Eu assumo o sono, a menoridade, a grandeza, a altivez, a decadência. Eu desejo que todos beijem, patéticos, os meus pés. Eu desejo o chão do abandono. Apraz-me a doença tanto quanto a saúde. Tanto a razão quanto a pulsão. Gosto de céus e infernos. Tardes ardentes, musas pálidas e cloróticas. Eu sou uma ausência. Eu sou uma coisa sem nome. Eu sou o tori do Donato. Eu sou uma menina de uma inocência perversa. Sou um efebo.Eu destruo com risos. Eu sou risonha com tragicidade. Eu sou tragicômica. Eu sou uma noviça rebelde. Um amor desesperançado. Trago comigo a morte e a vida. Eu falo de coisas cruentas e vontade de potência. Eu falo sobre o tempo e sobre o tricô. Eu sou uma incógnita. Eu sou...Crislane. Não sou um patoi de borracha. Tenho tesão por livros. Mas apraz-me trepadas. Prazeres mundanos. Dores de toda ordem. Doenças. Celeumas. Esbórnias. Passar uma primeira boa imagem não importa. Não me importa. Sou tanto nihilista quando pedante. Tanto tudo qto nada. Eu quero cantar como Dulce Pontes. Rimando fados com fardos. Acho o sbt um canal legal. É preciso saber a quem se deve fazer o mal. Sou uma madalena contente. Uma madalena apedrejada. Uma madalena arrependida. Eu sou uma beata perdida. Eu sou santa Teresa ensandecida. Sou Bernardete Soubirous em histeria. Eu o orgasmo que Santa Clara jamais teve. Eu faço listas como as de Sei Shonagon. Eu phodo sentidos. Com ph. Eu doto e tiro sentidos. Eu tenho ápices, mas tb égides... É preciso malícia.Malícia pra lidar. E, no fundo, não tenho quaisquer pretensões. Eu só tenho fome, fome de viver. Só dou-me bem com as porradas. Spo vejo flor nos estrumes...Só tenho noção de tragicomicidade de tudo, só banco a hiperbórea, só não me culpo por menoridades. sabe, qdo bebemos, parece que uma genialidade nos toca...Nem sempre. Ás vezes estamos tão-somente bêbedos...E eu me lembro de uma outtra face, a mais cruel: a da minha infância. A inocente face do terror. Sou a virgem nua. São líricas-trágicas as partes virginais de mim. Ora pareço ter 5 anos, ora pareço ter 50, ser velha e devastada...Ora virgnial, ora a tal libertina. Mal-comidas me dão medo, e tudo o que a infelicidade pode fazer a uma pessoa. Não quero ser amarga. Não quero ser um monstro de ressentimento. Mas sou agridoce. Quero rir de desgosto. Quero chorar por vingança. Quero verter o mais sentido pranto...Afogar-me numa praia. Confundir-me com nuvens passageiras. Eu e minha solitária mão. Mas escerver é solidão. o único amigo é o papel. Madeira, matéria morta. Os pênis são...preenchimentos? Sou uma castrada? Uma pobliqua machadiana? Uma mulher pintada em aquarela? Ah, os penses me dão vontade de chorar...Eles choram...Vida. Dou-me. Dar. Dando, para a vida. E me calo por causa das partes virginais. Mas já fui muito surrada pela vida. Muito sovada por homens. E só cantada po mulheres. O ato de sovar um pão, é erótico.Ainda preciso me descobrir promíscua.. Mas o que desejo é completude. Eu desjeo o meu amante.Eu fico sem ar. Eu quase desmaio. Amor por todos os poros,amor que se espalha. Mas posso lhes ser totalmente sincera? Sabe quando toda a verve se vai, como um corpo que cai? Mas aí me lembro que posso ser adorável quando vulnerável. Vida com extravagâncias e moderações. Eu a quero Que sou contraditória já que civilizada. Uma maldita. Não sei enumerar o que é feio. O que é perigoso. Eu me perco com controle. Eu me eprco com calculo. Eu faço jus ao proibido.

E me esqueço dos amantes ingratos....

Escrito por A menina do lado às 22h56
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Dessangramento

Dessangramento

Essa febre que não me abandona
Essa vontade de ir ter com tudo o que é cortante no caminho
Essa vontade de se entregar às entranhas quentes da terra
Essa vontade de se fazer montanha no deserto
E voar com o vento
Esfarelar
Essa vontade de ser pedra silenciosa
Sugerindo dor cruenta só de olhar
Essa mania terrível de se sentir coisa leve e pesarosa
Qualquer coisa vistosa que se suspenda no ar
Qualquer coisa tolerável
Essa vontade besta besta de diminuir e crescer, diminuir e crescer
Essa vontade invulgar de dormir para sempre, debilmente
Só de pensar no dia que virá
Essa sensação dormente
Esse coeterno pulsar
Embalando e cortando
Esse desejo de morrer que é tão belo
O desejo de tudo ser de novo tolerável
No dia que amanhecerá
Esse desejo que seja ao menos tolerável
Entre o ir e o ficar

Escrito por A menina do lado às 22h55
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ego

"Perguntarás quem sou?! -
ao suor, que te unta,
à dor que os queixos te arrebenta,
aos trismos da epilepsia horrenda,
e nos abismos ninguém responderá tua pergunta."

Escrito por A menina do lado às 22h39
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Objetos

Como as pessoas são enfadonhas. Só suas projeções e idealizações me animam. As criações feitas ao acaso me animam, porém. Elas são maiores que os seus próprios criadores. São feitas em momentos de inspiração. Quando a vida e sua cadência é simplesmente superada. Eu prefiro estar aqui a estar em certas companhias tão pouco humanas. Tão carne, osso e pires. Pires, meu Deus. Embora esses pires me façam por vezes tanta falta.
Ah, a incompletude, sempre. Em riscos solenes, vivos sobre o viver. Vulgares. Tudo é vulgaridade. E inconcretude. A iconcretude é um drama. Música, só a música me remete a imensidão da inconcretude./
Não quero hoje denegrir a vida.
Eu sou trsite.
Quero ser triste.

Escrito por A menina do lado às 22h39
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Mulé

Meu momento mulherzinha. Vontade tola da nominação e descrição. Mas meu momento mulherzinha é feito de cenas cinematográficas. De lágrimas lentas sem espectadores. É feita de braços lassos e vazios. De noites insones. De dores tão verdadeiras quanto fingidas. De canções que não consolam como o único embalo. De um recostar de leve na porta, e ir por ela descendo, em agonia. É feito de porções lacrimosas. De choros por acúmulos, de choros de agonia, de choros quando não suportamos mais. Feito de olhares lânguidos para o nada. Olhar o nada, e dizer tudo. O olhar, antes da palavra. É feito de pele cansada de esperar. De pele que envelhece. De coração mudo. Dor muda na noite. Dor que travesseiro não cura. Dor que não podemos dormir pra ver se passa. Dor em que se trai. Trair a si mesma, no esporte mais perigoso que há. Que trair a outrem, parece, é mais fácil. Dor de ausência de amor. O nada, o nada resplandecendo como uma certeza que cala. Dor que não se pode amarfanhar com a mão, ou mesmo engavetar. Dor sem importância nenhuma. Meu momento mulherzinha já sabe que é um fim em si mesmo. Que nem a solidão dos fados é amiga. Que as noites vinolentas não serão afagos n’alma alguma.. Nossa alma, algures. Nalgum lugar eleveado. O elevado lugar do nada. E a espera da superação. E a sede de areia. E a vontade de amar pungente como a água no deserto. E as visões dos mares revoltos, incontroláveis, altercando-se em águas calmas, paradas até chegar o sono. O mar que se esvai, o deserto que vence.
Meu momento mulherzinha é feito de esperas amargas de um amor que não vem. De amor que não há. Espera de amar. Vontades demais de amar que cegam. De passionalidade risível, porque, dizem, toda demonstração de amor é ridícula.
Meu momento mulherzinha faz tudo recender ao amado que não vem. As estrelas são um castiçal alumiando tudo, o céu é o manto acarinhando, fazendo esquecer a aridez do deserto.
O mar que se esvai, o deserto que vence.

Escrito por A menina do lado às 22h36
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Tempus fugit

Dessas manhãs que não se adjetiva, em que todo nome se perde. Que todo nome parece a coisa mais insólita desse mundo. Manhã em que nos perdemos, numa imensidão inominável. A tal profusão lírica? Mas nem uma sinfonia de Brahms diz sobre aquilo. Bem,mas tentando (porque é imperioso tentar, desde tempos ancestrais que nos emendam até aqui, oh mundo enfadonhamente hodierno),eis que falo sobre: É uma manhã que nos esmaga num ônibus qualquer. A manhã do tamanho de Deus. Deus?Um nome que se diz sem sentir qualquer sabor. Um Deus degustável? Um Deus que se sinta na boca como o sol que me encontra na janela. Deus terá sabor? Não se sabe. Sem sabor de Deus, sem rumo dado por Deus.Perdida, na manhã também perdida. Gentes. Rostos sem nome. Todos indescritíveis. Nesses momentos em que tudo isso é como um soco no estômago, percebo que sou escritora. Não sei se de profissão. Mas não conseguir dizer- porque escrever é só tentar dizer. De todos os modos, vem a verdade irremediável, mas também intragável: Menina (ainda menina enquanto não envelhece o coração),você é uma escritora. Escritora, enfadonhamente escritora. Ter de conviver com isso a vida toda, como um fardo tanto belo quanto intolerável. A atividade por vezes tão ingrata...Mas que também nos deixa num estado de graça. Eu, escritora. Nos poros, na pele, na acidez estomacal. Ah, sim! Meu estômago revira. A competência lingüística, o dom nato. A cobrança de ser boa num mundo demasiado maniqueísta. Antes do repasse de informações, de experiências, sensações; antes de ser boa, afinal, o que é ser boa?
Fico lembrando...Quando mesmo? O professor, aquele objetivador da escrita (e objetivar sentimento adianta?) diferençando crônica de conto, perscrutando as possíveis etapas da escrita, tirando-me da letargia de todos os dias, vindo-me com a pergunta capciosa: Menina, você escreve? Si, si, respondo apocopadamente. Escrever? Pois é. E ele continua, impávido: Hum... E o que você faz quando te vem uma idéia, uma inspiração? Quais as etapas da construção do seu texto?Bem, chega minha hora de responder...Penso e penso.Minha vontade é de dizer isso: é que a coisa vem e me puxa pelos cabelos, professor. É um grito que teme ser surdo. Fico na ânsia de que a caneta responda (é, sou saudosista. Que computador que nada. O papel é como a pele de um amante, diria Sei Shonagon), acompanhe o meu raciocínio. Mas a mão é uma traidora, assim como o tempo, que leva consigo todo o pensamento. Mãos vãs, tantas vezes. Sobra a imprecisão e a imprecisão. Mas o fato é que eu não disse isso na sala de aula, quem disse isso foi o passarinho dentro de mim.Nunca disseram que há um passarinho dentro da gente? Pois bem. Pois há. Mas... Onde eu estava? Ah, sim. Eu respondi outra coisa ao professor. Respondi com a pausa que é me é característica, claro, com toda a distorção do meu pensamento. Foi assim: Professor, quando me vem alguma idéia, eu tento anotá-la.Minha pausa,mais ainda digo: Como dentro de um ônibus. Não há lugar melhor pra inspirações do que dentro de um ônibus. Lá, a vida passa pela janela. Termino o pensamento. E, de repente, som de risos. Risinhos e risotas. Até hoje não entendi esses risos. Não entendo os seres humanos, enfim. Nem me entendo. Tampouco entendi quando veio esse mesmo professor, tempos depois, dizer, em tom de crítica: Seu texto está literário demais. Como é? Literário demais? Esse termo ainda obscuro veio acompanhado da careta. Acho que a careta disse um pouco mais que tal frase. Sabe, eu , francamente, não entendo esses seres, os que professam. Também não entendo os que aprendem. Seres barbudos com doutorado, porém, sempre querem provar o quanto você é obtuso, errôneo e inadequado até que nós tenhamos um diploma respeitável, obviamente. E os aprendizes depois tomam o lugar dos que professam, num melancólico eterno retorno, no eterno jogo de algoz e vítimas, até sabe Deus quando.
Estou num ônibus e sem papel nem caneta. Sem linearidade no texto. Não há texto, parece. Há a imprecisão do pensamento.Ou tudo é texto? Texto sem pretensão de eternidade? O que sinto, oras? Só há pensamento sem fôlego. Que vem de súbito. Perdido como cada paisagem irrecuperável da janela, que eu transformarei cá no meu âmago em algo valoroso, caso assim deseje. Sem cadernos cujas páginas poderei arrancar após um feroz carrossel. Tudo é texto?
Professor, escrever é como escutar uma sinfonia de Brahms. Vem e invade tudo. Depois é o reino da técnica em que buscamos a tal linearidade, e como os homens inventam demais, há esse tal de objetivo. E tenho que saber, no fim, se fiz uma crônica ou conto, porque, sabe como é, vem a tal ânsia de definir que resultou no advento de uma civilização.
Mas quero contar algo que vi naquele dia do ônibus que deu todo respaldo à porção lacrimosa da vida. Bem, é fato que não dói mais ver um mendigo revirando o lixo. Alguns acham até que é algo decente; Nossa cristandade diz: Não está roubando. Um alívio. Muitas coisas já não doem mais. Ante tal constatação, eu poderia respirar, eu poderia dizer, solene: eis o homem roubado de sua capacidade de sentir dor. Mas estava lá aquele invisível maltrapilho, perdido na condição banal de todas as dores que se expõem desabridamente, a ponto de não mais doer: Uns 40 anos ignaros, suponho. Mas com aquele indizível desejo humano. Deus que acho que não existe, vi-o achar com suas mansas mãos, mansas mãos mendicantes, um pequeno papai Noel, desses que se enfeitam frondosas árvores de natal. Era mês de junho. Muito longe já se ia o espírito natalino, emitido por certa data comercial. Vi o homem olhar atentamente para a personagem masculina branca de paz, vermelha de sangue. O homem olhava o adorno, mas também olhava o vazio. Esse olhar não tinha nome. Esse olhar, porém, tinha 40 anos. Nesse olhar havia a humanidade inteira.Havia, talvez, alguma dor de conto de natal de Dostoievsky. Esse olhar gritou dentro de mim, surdo. E nunca a sinfonia de Brahms tocou tão alta através de meu passarinho, nunca meu estômago revirou tanto. O inominável olhar pelo ônibus. O insondável homem, com sua experiência única, ali, vivamente, diante de mim. Vi o homem dar um sorriso, com o enfeite nas mãos, enquanto o ônibus tentava atravessar a lama. E então, veio a certeza gritando, ante a impotência: Você é uma escritora., menina.Mas não se escreve um grito. É só a descrição, no ônibus sem caneta, sem papel que aspire ser a pele de um amante. Sem definições de conto ou crônica. Sem caminho de construção do texto. Sem pausas. Sem crases. Sem caminhos, só a estrada de lama levando a qualquer lugar. Pela janela, um homem destruído , em meio aos festejos juninos,segurava um papai Noel já esquecido no lixo. Era isso. Essas coisas que não se dizem. Certas coisas não se dizem. Mas a gente sabe. Sabe? Professores barbados ostentadores de diploma tão ansiosos por nominações, definições, postulações, sabiam? Ou os que em alto e bom som riram quando eu tentei dizer, simplesmente: O tempo sempre passa. Tempus fugit. Não se barra o tempo. Mas pela janela, vemos a vida passar,sabiam?
Sem saber se por via de crônica ou conto, o olhar do homem foi relatado. Aquele olhar, como uma grande mancha em todos os meus dias.

Escrito por A menina do lado às 22h34
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Desconexos

Eu gosto de coisas novas. Sou feito de barulho, agilidade, desapego. Sou do tempo do sono de horas contadas, e isso quando há sono, porque os fabricantes de diazepans, lexotans e símiles vendem à larga. Eu sou do tempo em que problemas têm por solução pequenos comprimidos vendidos livremente. São as drogas. Engraçado é que há drogas denominadas ilícitas e outras não. Vá lá se saber dos tais critérios que “eles”...Eles...O poder é feito por homens? Engraçado pensar que tantas coisas são resolvidas por homens como eu. Homens com sorte, homens com bênção, homens mais espertos, ou filhos, netos, bisnetos de homens mais espertos...Vai ver posso puxar lá para Darwin, tipo a sobrevivência do mais forte.Bem, eu não tenho tempo pra pensar sobre isso, portanto, muito menos me candidato a refutar sejam “eles” ou os “seus” critérios.Mas que a cabeça da gente enrola, cruz credo, lá isso é.

Escrito por A menina do lado às 22h32
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Les cadeaux

Para a moça de faces louçãs, deixo o fogo não arrefecido. Para a mulher de dedos suaves, deixo a minha carne. Para os objetivos, deixo o lirismo da prosódia, para a fêmea que foi amansada, deixo meu luto. Chorar com luto. Para os mal-apanhados, deixo minha desistência patética, para as fêmeas de grande furor uterino, deixo a beleza das peles frescas. E para a fêmea abandonada, a face destruída.

Escrito por A menina do lado às 22h30
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Escreviver

Escrever. Escrever porque se agitam os dedos e a alma é algo que não cala. Escrever enquanto há vida e o cansaço ainda não vence. Escrever mesmo tomado pelo cansaço. Escrever para ser solícito com a voz interior. Escrever porque dói a solidão. Escrever porque a noite está demasiado quente e incomoda. Escrever porque incomoda a idéia de um quente verão na Califórnia, porque longe se esfuma uma fria Londres que emudece poetas.Escrever porque todos os dias, todos os dias, todos os dias...Escrever para as tulipas que são de cores ardentes, porque a beleza delas simplesmente cega. Porque tais belezas quebram tudo, inclusive se quebram. Porque fanam sem olhares de delicadeza sobre elas. Escrever para os gerânios altivos na janela, que murcharão. Escrever porque isso dá um desejo de sofrer calma e miudamente. E, depois, escrever sobre o que passa pela janela. Escrever porque lá fora, há um mundo. Há abandonos e deuses fora da janela. Escrever pois tantas coisas se erguem e se baixam. Escrever porque aquela canção é linda de morrer. Porque há lembranças dolorosas. Escrever porque o amor mata. Escrever, amorrendo. Escrever por causa daqueles cabelos que já me fazem falta ao tato. Escrever porque, ah, aquelas mãos no meu ombro, aquela minha flor na lapela...Mas escrever quando bom e quando mau. Escrever, também, renegando o maniqueísmo, os extremos da vida. Escrever porque tudo é maior, é mais complexo que dualidades. E escrever luta mas também luita. Escrever como os novos e os velhos. Escrever simples e rebuscadamente. Escrever porque a língua, a língua, a língua. Escrever porque somos carregados de humanidade, e uma civilização se ergue ao mesmo tempo em que desmorona, e é preciso descrevê-la, senti-la. Escrever porque há começo, meio, fim. Escrever porque coisas se mostram tão certas e outras tão dolorosamente incertas. Escrever para o filho que vem, para o pai que se vai. Escrever sobre as fotos. Escrever pois são moços aqueles, e tão velhos aqueloutros....Escrever porque eram puídas as mangas do mendigo, e era desconcertante o sorriso daquele petiz. Escrever sob névoas e céus abertos. No desespero e na esperança. Escrever, esperando, quem sabe, a amante. Escrever desejando ser amado, ser eterno. Escrever nos perigos da pretensão da eternidade. Escrever por remorso, por saudade. Escrever quando bombeiro ou incendiário. Escrever nas várias disposições da vida, nas horas inevitáveis do dia, que passam. Aconteça o que acontecer, elas passam. Escrever porque peremptoriamente é uma palavra sisuda, porque leite dá uma impressão de algo branco e redondo, porque fenecer é uma palavra linda que morre um pouco com a gente. Escrever por lirismo, por abnegação. Escrever porque esse é um ato sempre convidativo, na ânsia de comunicação e repasse. Escrever , também, em cadernos poentos guardados numa gaveta, que são só meus, só meus. Íntimos como são íntimas nossas chagas. Só nós lhes percebemos o tamanho, a textura, a face dorida. Mas escrever, enfim, mesmo assim, sobre o espetáculo dos pombos na praça, escrever porque se precisa dizer adeus, escrever porque algo dentro de nós precisa esvaziar, encontrar repouso, vez, voz, olhares de dó, olhares apreciativos ou esquecimento. Escrever para homenagear, escrever, sobretudo, para não esquecer. Escrever ridículos bilhetes de amor que deixarão marcas perenes. Sobretudo, escrever falando daqueles olhos que não esquecerei. Escrever, porque os leitores são como mansas asas de mãe. Porque as sensações são como lepra querendo ser passadas,e escrevo num papel assim como poderia esfregar minhas chagas num banco de praça...Escrever, sobremodo, porque de tudo fica um pouco. Ou um bom tanto. Ou demais. Escrever para o sangue que fervilha nas veias, para o pó a que nos condenaram. Escrever nos revezes da vida, nas punhaladas, enquanto nos abala a escassez e a fome de viver.E escrever também, porque , em certas noites, a alegria de ser é uma coisa enorme e singela. Transborda. Escrever porque queremos dividir essa bonança de dia de domingo, quando tudo é nascer, florir, quando a vida nos permite o mais denso sabor, o mais largo sorriso.Porque tudo parece belo e eterno. Mas escrever também, quando a casa é vazia, quando é aspérrimo o silêncio...Escrever quando o mutismo nos torna combalidos, quando não há quem ouça nosso choro sofrido. Escrever, escrever porque tantas vezes isso é melhor que uma carícia de um amigo. É uma carícia de si para si. É o corpo, é o porto.Escrever, escrever para que não morra o poema, para que não se perca o momento...Escrever, também, no fardo lento da obrigação. Porque se fizeram necessárias as listas e apontamentos. Escrever simplesmente enquanto se esfria o café, porque se deve passar o tempo sem que o sintamos, escrever porque mandaram e é preciso, enfim. Sem organização não é possível viver. Escrever até anúncios de jornal. Escrever explicando sobre vogais e dígrafos, nesse repasse mágico de aprendizagem. Escrever sobre o absurdo de perder, sobre o absurdo de amar, sobre a sensatez de reter...Escrever nos abalos do álcool, escrever quando acordamos de súbito na noite, e as lembranças são amargas, amaríssimas...Escrever na ternura peculiar de lembrar. De desejar o perdido e o jamais tido. Escrever confissões, escrever pecadilhos, escrever desejando o poço ou a absolvição. Escrever para os vivos e os mortos. Sobre as construções que desabaram, sobre as ideologias que vingaram, para o sangue derramado. Escrever, destruídos, notas de requinte, sem saber porquê. Escrever com o acre sabor da memória. Mas sempre escrevendo, porque é imperioso viver, porque o escritor se é.

Escrito por A menina do lado às 22h25
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Poisé...

Desculpem-me, eu não sei amar. Quando observava aquele olhar injetado de uma paixão desconhecida, aquilo me parecia tão fácil e fagueiro quanto incompreensível. Era um olhar que eu não compreendia. Tanto sol, tanta luz...Não que eu fosse feito de breu. Apraz-me os poentes e nascentes levemente tingidos de vermelho. Apraz-me tudo o que é morno. E com ódio ela dizia: morno, incapaz de amar. Foi preciso que ela escrevesse isso aqui, porque eu seria incapaz de sequer me qualificar, tão envolvido estava em números, deveres, cobranças. Dever de amar, cobrança de amar. Com uma frase tão simples quanto o respirar eu dizia: eu amo você. Dizia porque era mister dizer, porque, de algum modo, aqueles olhos crispados de toda aquela intensidade dolorosa que eu era incapaz de entender, incomodavam-me. Era um incômodo sem nome. Um incômodo morno, uma coisa que jamais me tirara o sono, ou que deixara em lágrimas. Apenas os meus calos, os meus calos bestiais me incomodavam. Uma pressa não resolvida, o sono interrompido. Minha ira nesses casos se assoberbava, bestial. Minha ira até contra ela, aquela coisa enorme. Eu era pequeno demais, descabido no meio daquilo. Sabia eu que a matava? Ela dizia, ela dizia, ela dizia: assassino. Mas eu não sabia. Aquelas palavras eram algumas letras amontoadas, uma voz lamuriosa, uma voz afetada que apenas me irritava, cansava. Para não me irritar mais, eu a tolerava, porque, vagamente, nos idos de minha infância, aprendi que companheirismo é melhor que sexo casual. Era bom, muitas vezes, tê-la ao meu lado. Cuidando de mim. Algumas vezes meu senso de humanidade pedia mesmo que eu cuidasse de algo, como uma responsabilidade cristã, uma esmola dada que alivia. O senso de justiça sendo realizado. Parecia-me justo cuidar dela, quando me convinha. Protegê-la de terceiros, dar-lhe lar, algum respeito em horas menos fadigadas. Só não podia protegê-la de mim. Por que, por que tanto sentimento nela, tantos pedidos? Será que ela não entendia? No fundo, eu não amava. Claro que eu dizia: Muito do meu modo, eu te amo. Mas quando me vi inflamado? Quando eu coube em descrições milenares de amor doloroso, violento? Claro, claro. Vez em quando me apetecia aquele turbilhão apaixonado. Ser o alvo daquela tormenta. O ego se inflava, a segurança se estabelecia..Claro que por apenas sentir isso, e apenas sentir isso- e apenas querer saber de mim, eu jamais a saciava. Sempre o que lhe dava era pouco, muito pouco. Eu padecia de esquecimentos, de abusos, de leviandades. E ela reagia de modo desesperado, violento. Nem aquela violência eu entendia. Eu a mandava se calar, desligava o telefone, batia a porta. Era simplesmente incômodo. Eu queria apenas que fosse cômodo, porque não sabia eu que não há paz aos apaixonados. Eu não sabia o que era morrer de amor. Eu não entendia porque ela queria morrer e matar. Ela me chamava de muitos nomes feios, rebaixava meu caráter. Por vezes, aquilo me dava uma culpa indefinida. Ela dizia com convicção. Mas, muitas vezes, era-me cômodo chamar de louca convicção. Louca, enfim. Uma desordenada. O bom é paz, ordem, moderação. Os orgasmos desapaixonados que lhe cedi,baseados em vícios incivilizados a que sempre cedi. As necessidades físicas e o senso de dever e respeito em ser fiel. Também não sou totalmente monstro. Eu fui suficientemente capaz de me coibir e mentir, muitas vezes, para agradá-la. Pois era incômodo aquela dor.
E aquela fome de mim, e aquela pressa, e aquelas crises, e aqueles gritos...Por que ela não calava a boca?Por que não sossegava? Não via que eu estava cansado? Não vê que tenho minha vida pra cuidar? Claro, claro, claro.. Eu era capaz de prometer qualquer coisa,dizer qualquer coisa, até mesmo me esforçar um pouco pra fazê-la calar a boca. Fazer algumas coisas que ela me pedia. Eu não entendia o que ela pedia, só me pareciam ordens chatas. Mas se ela iria calar a boca, eu faria. Mas não sou do tipo paciente. Paciência e frescura tem limite. Fazia muito pouco do que a prometia. Cara, isso deixava ela mais doidona ainda.
Agora...Eu não sei. Porque, no fundo, eu a vejo quase todos os dias...É essa sensação insuportável. Gosto de estar com ela, já disse. Mas não a entendo, nem nunca sentirei como ela. Eu digo que é amor do meu jeito, mas não é, eu sei.; Não sei se devo sentir pena de mim por ser incapaz de sentir qualquer coisa intensa, sentir uma grande saudade, uma grande dor. Não sou desse jeito. Eu não dou tanta importância essas coisas. Eu não gosto de análises, eu não gosto de reflexões e tampouco sou capaz de arrumar qualquer solução, porque seriam decisões eminentemente práticas, e não sentimentais. Sobretudo, não há sentimentos em mim. E quando digo isso a ela, vejo a morte em seus olhos.Vejo a morte todos os dias. A morte lenta, vagarosa, pesarosa. Já vi sangue escorrendo, choros convulsos, abandonos no chão. Às vezes, me desespero. Penso em ir embora, bater, chamar sanatório, polícia. Não sei o que fazer com ela, porque eu simplesmente não a entendo. Mas o senso de dever me diz que não posso abandoná-la. Sinto dizer a ela que nada sinto. É ruim vê-la se cortar, me ameaçar. Irrita-me, eu a trato ainda pior. Como não a entendo, mas vejo destruída, e a vejo me acusando de destruí-la, tudo o que posso fazer é desejar que ela arrume outro e me deixe em paz. Assim eu tenho paz e ela também. Sei que se eu vê-la bem não sentirei mais culpa, vou poder tocar minha vida pra frente. Porque a única coisa que sinto, e às vezes, é culpa de saber que não dou o menor valor a ela, e saber que ela sabe disso. Deve doer saber disso, mas não posso fazer nada...Eu não sinto...E sou muito irirtado e impetuoso, só a fico iludindo, fazendo promessas q não cumpro por não haver vontade, e tratando mal, porque as reações dela às minhas atitudes são as piores possíveis...Eu não cumpro, ela se irirta e eu me irirto mais ainda, pois me sinto violentado, violado. Eu tenho trabalho, eu tenho que rir, essas coisas, únicas, que me importam.
Por que ela não arruma outro? Tudo vai ficar bem.
“Os dias são curtos para os amantes”.
Desculpe, eu jamais, jamais entenderei uma frase dessas.Só sei que ela me sufoca, coíbe, irrita, e que não sou homem o bastante para admitir isso sem falsas promessas.

Escrito por A menina do lado às 22h24
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Súmulas

Inícios, súmulas, esboços, fins ou mesmo os meios..Senhores, senhores...Todas as coisas que trazem consigo expectativas sabe-se lá do quê me dão náusea...Um sonrisal, por favor... Uma cousa mor que esse meu rematado gosto carecido de sentido por reticências....Certamente com isso se pretende causar a impressão de, justamente, ser reticente...Como se algo profundo e colossal residisse nos tais três obscuros pontinhos...Exatamente...O desejo de ser obscuro...O enigma do espaço branco...A sugestão, rica imenso.Senhores, senhores, esse tal de estilo causa mais acidez estomacal do que as pretensões d’escrever. Abandonemos a metalinguística. Leitor, tenhais bom gosto e bom senso!Os experiência vazia de sentido! E um suspiro...Mas larguemos também os suspiros de desgosto...Não são nada estéticos. Que demente esse prurido chamado metalinguística. É muito peor que o tal prurido chamado sentimento.

 Mas, passando por cima das tais já banais reflexões sobre o porquê escrever, inclusive sobre a ironia do ato de escrever, escrevamos... Enjoando das apresentações, das quebras de rotina, do ar fajuto que dispensa a sisudez, do pensamento salutar de fazer as coisas como elas sempre são, porque mudá-las são um saco, enfim. Deixemos de lado inclusive explicações óbvias, paródicas e chatas, pulando as apresentações e, quiçá, renunciando aos fatos, e criando, assi, um diálogo nauseante e travado, eu adentro cá nessa animada cozinha, pensando que bem que aqui poderiam ser feitos quindins...Melhor que falar da...não? (Uma pausa, um pouco de ar). Senhores, senhores...Vamos mandar os estilos às favas. Nada tenho a lhes dizer. Muitos pruridos me causam o fato de eu ter nascido há míseros e pesados 21 anos para chegar aqui em tal recinto e, dedos sobre o teclado, escrever algo apreciável de ver. Por favor, acompanhem-me...O sonrisal veio num envelope com dez. Dez estômagos nauseados no mundo. Com uma mesma cura. Se toda a acidez fosse tão prontamente resolvida...
Perdoai meu circunlóquio. Um brinde. Um bocejo.

Escrito por A menina do lado às 19h06
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Hmmm

 intrigante. É, de fato, quase cômico. Um sorriso- que indigno- escapa-me. Pequeno, com vontade de se assumir maior. Depois se torna tão imenso e desavergonhado, com o o tétrico prazer, só esse estranho prazer que causa sorrisos assim, que parecem maiores que tudo,maiores que o mundo. Nessas horas, de algum modo, sabemos: somos maiores. Miséria matutina embalada por música. Por gatas no cio, talvez, me chamando a EEatenção. Gnossienes de Satie, tão lindamente vulgares, a me lembrar que a vida é singela.E em mim uma fome invulgar. Fome sem nome. Insaciável.

 

Escrito por A menina do lado às 18h12
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Fleur du paysage

"Ser forte é parar quieto; permanecer."
(Guimarães Rosa, GS:V)

" A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar"
(Guimarães Rosa)

Escrito por A menina do lado às 18h10
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Os meus cemitérios

É triste o entardecer....Bóiam coisas mortas na lembrança, como afogados

Escrito por A menina do lado às 18h09
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Do ontem

Iguais aos deuses me parece
quem a teu lado vai sentar-te,
quem saboreia a tua voz
mais as delícias desse riso

que me derrete o coração
e o faz bater sobre os meus lábios
Assim que vejo esse teu rosto,
quebra-se logo a minha voz
seca-me a língua entre os dentes
corre-me um fogo sob a pele
ficam-me surdos os ouvidos
e os olhos cegos de repente

Torna-se líquido o meu corpo
transpiro e tremo ao mesmo tempo
Vejo-me verde: mais que a erva
Só por acaso é que não morro

(Safo de Lesbos)

Escrito por A menina do lado às 18h09
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Causo

Lembrei de algo que meu avô me contou há muito, e que achei belo e triste. De como se fazia morrer um pobre cordeiro. Contou-me ele que com mansas mãos e voz velada falava aos ouvidos do animal, até que dormisse. Aos poucos convencia o animal a morrer. Depois era lhe feito o talhe, no pescoço. E o cordeito sangrava em lenta agonia. Enquando sangrava o animal, era feito o silêncio. O silêncio para que dormisse. Contava-me meu avô que ao ser comido à mesa, fazia-se o silêncio.Pois o cordeiro estava dormindo.
Comia-se, em silêncio.
(Suspiro)
Quando meu avô morreu,e fiz meu silêncio (que ele dormia), doeram-me seus pálidos pés. Com assombro vi que eram também os meus pés.

Escrito por A menina do lado às 18h08
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Adendo

Escrevi isso dia 02 deste mês...Só achei interessante.
"Inglórios dias sem bênçãos, sem luar! A alma carece de luxúria, de tragos, de fados. Caminho sob o sol, curtida. Praguejo e rio, em desdoiro. A vida seguindo feito insondável redemoinho. É brutal que eu me vá nesse girar. Oh tempo Saturnino, pai bestial...Dotar e retirar vidas sem se gastar! Incólume! Ad nauseam...E vem-me as horas feitas de amor e horas de morte.
Por ora canto o amor e a mais alta miséria. Sou feita dele, d'amor. A vontade de amar torna tudo ardido. É por arder por dentro que aceito os açoites de sol. É que é tolerável. É por ser feita de amor que me desfaço, sal, na água. E que amo sobremaneira essa mágica brevidade. Esse instante de sal. Ser como estátuas de sal que são como as mais duráveis estátuas de pedra. Este pouco, que é tanto.É por ser feita de amor e de morte que sou perdida, e juvenil e inflamada como tudo aquilo que é verde e pulsante e como tudo aquilo que é purpúreo e sanguíneo. Ai ai...Há quem diga que só se possa falar do vigor dos anos quando eles não forem mais como um gritante e sedutor punhal. Oh, as coisas gritam e a alma chora enquanto vivem partindo....O homem que se vai, a coisa que chora, ficando, doendo de partida. Essa incongruência. O grito dessa contradição, quem entenderá?
Oh, Deus...Choram os túmulos de abandono. Chora o laço que minha mãe pusera em meu cabelo, com delicadeza. Chora tudo o que não pude reter. Choram os resquícios. Gritam as vontades. Gritam como vertigens. A vertigem de todos os vestígios.
O que maltrata meu peito grita. o que diviniza essa dor grita. E desse grito tudo o que flui é o silêncio.
Acho o silencioso a coisa mais gritante que pode haver. Gosto dos silêncios: eles gritam. Gosto de coisas vazias. Almas desabitadas. Gosto do abandono. Gosto, tb, das coisas plenas. Gosto das parturientes. Do ar incompreensível daquilo que acaba de produzir vida. Gosto das multidões que não se tocam, em desapego. São como coágulos. Sangue que não jorra. Mas gosto, sobretudo, de mãos que não se deixam, e almas que se comungam.
Tocada pelo amor vou-me então no tumulto das doenças. Vou-me nos olhares e nos gostares para que passem, horas, passem Aí gosto de ser mitigada. Gosto das dolências. Gosto dos meus gatos esfaimados. Gosto de sentir frio no calor, e de calor no frio. Gosto de meus olhos sentimentais. De meus olhos que dizem tudo, que dizem mais que a minha boca. Gosto das minhas intensidades que por vezes se desfazem em indolência e dormência. Gosto do rastejar que de repente não é mais que desdém. Gosto de saborear olhares e de olhar fragâncias. Gosto de duvidar de todo o conhecimento e de todos os sentidos. Gosto de complexar e de de simplificar.Gosto de vagos e de deuses que desabam. Gosto que conceitos virem sentidos e que precisões invalidem sentidos. Gosto, sobretudo, além dos olhos, o olhar. Que o olhar é tudo. Além de toda doutrina e método e impressão.Mas gosto, ah, de sangrias, e de chorar de alegria e de prazeres inesperados. Gosto de gravidades e clausuras. E de inocência e de seriedades. Gosto de absurdos. Gosto de doenças. Gosto de benzeduras. Gosto até das injúrias. Gosto de cheiros que me trazem lembranças cortantes como facas e de me perder por aí...Gosto da beleza que me toca, vasta. E me arrebata. Gosto de afastá-la. E gosto de tê-la, perto, à minha boca. Gosto de trazê-la de volta, num amargo beijo. Em vozes baixinhas. Ah! Eu gosto dessas sedes de areia e de desertos que são sempre os mesmos. Gosto de naus. Dos selvagens. Dos civilizados.
Gosto do meu pequeno coração de mulherzinha, inundado. Gosto de meu pequeno e pétreo coração de ser humano e que faz coisas que não se fazem. Dada, ao Deus dará. Feito aberta ferida. Feito concha fechada. Mas gosto mais ainda de esperança vinda da janela, em fresco vento, e da beleza na janela, em fresca tulipa. Gosto de chuvas depois de estio. Gosto de ser lacrimosa e ser sentida mas não vista, como o vento. E de cantar o amor na janela, e de me ver desfazer e refazer. Gosto de tudo o que significa multiplamente. Do que pode me despertar um verde musgo.
Gosto de levezas e pesos. E flamenco. E de tangos. E de cruentas carnes que me levam às lágrimas. Gosto de ser a fortaleza frágil. Gosto de ser como os brutos que amam e as gueixas que traem. Gosto do que cresce e retrai, mas sempre ficando.
Gosto das sensações de primavera e as saudades de que são feitas todos os outonos.
Gosto de viver, enfim, em sacrilégio. Por puro despeito é que vivo. É pra curar de feridas e pra depois eu mesma sangrá-las. É por ser feita de amor que vivo. É por me preparar para mortes.Salvar-me e perder-me.

Escrito por A menina do lado às 07h09
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Ausência

Farei-me ausência e tampouco a poderei acariciar. Coisa nua e abraseada. Essa coisa contemplativa e espectadora. Essa coisa a ir, essa coisa a ficar.
Vou-me provida de lira. Essa a tenho como nunca também abandonam-me meus olhos. Penso que poderei mais ver que a natureza é a mãe da poesia, e que sou filha dela.
Vou-me feita em brasa e sangue e vigor e lembrança e vontade. Vou e volto. Mas sempre provida de olhar.
As reticências, dou-lhas. Vou-me, com meus segredos e meus olhos que alguns às vezes sabem olhar. Vou-me um tanto invadida. Gostava ser invadida. Gostava invadir. Vou-me como estátua de pedra, que tanto sempre nos quer contar.
Vou para a voltar, com a paciência de um dia repetir-me e a impaciência dos enamorados. Quando tocados por vasta luz o que sei é que toda escuridão é passível de ser alumiada.
Vou-me desajando tuas cores, a lua por satélite dramático, o vento feito de delírio susurrante trazendo vozes e desejos e todo o pecado de tão vastamente desejar. Vou-me toda a graça de transgredir. Vou-me toda medo. Vou-me toda feita de estátua. Coisa a ser olhada. Coisa a olhar. Vou-me feita em segredos. E feita em descoberta. Descobrir é sempre alegria. Vou-me, como a vida, feita de bocejo e riso. Vou-me, boicininga. Vou-me voz que não cala. O meu silêncio tanto falará...Vou-me doendo das distâncias e das imaterialidades, mas sentindo-me, cá, carne e crua, e vaporosa. Cabeça no céu, feita de terra.A cantar, a cantar...Os mais belos cânticos.
O mundo agora desfaz-se em mim.Epifania. Os bravios mares onde navego desejando ora poiso, ora tormenta e aguardo com coração de marinheiro tão valente quando temerário. Mas coração decidido.
Vou-me serenando no correr de todos os rios e me sentindo tão próxima quanto apartadada, tão unida quanto desfeita. Vou-me metade de mim e existindo, estátua de pedra, contra as insolências do tempo e da sorte. Mesmo assim, erguida, hei-de ainda contemplar e ser contemplada. Ser além da coisa que vai, a alma que fica. Na coisa há o semblante da alma.
e nas palavras deixo o tanto de mim. Deixo o todo de mim.
O rio, o mar, o marinheiro, as tormentas, as mãos,  a coisa a ficar, a alma a ficar, a palavra a partir.
Que minha alma ressoe até nos silêncios. Que a natureza te traga a minha lira. Que teus olhos enxerguem a minha lira. O amor deixa-se ficar em todas as coisas. Deixa-se ficar mesmo na reticências. Vou-me em paz e agonia. Na sede da volta. Volto e me repito.No cansaço mesmo de repetir. E espero. Amar é esperar. E tenho dito.
Vejo-me nas escadas que me levam a um belo altar...E espero. cada dificil passo. E cada hora é vivenciada com alegria.
Eu me preparo para construções e estio. E viagens altas e naufrágios.Fiel a mim. É que sou feita de asas grandes. Asas grandes como velas de navio.E eu teço velas de navio, no incessante noivado das espumas.
Vou-me e fico. Tudo o que veio sempre fica.

Escrito por A menina do lado às 07h08
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Dos temores

Perdoa-me...Hoje é um dia tão feliz, tão feliz. Hoje é uma data dessas que vivenciamos com ar sagrado. Faço-me sagrada. Sagro-me.Foi sempre junto de ti que me quis sentar. Mas, perdoa-me, é que hoje estava a pensar que a vida passa e ela é absurda e os homens se perdem e se cansam e cedem e sinto a tua mão como se fosse uma ausência já. ah, perdoa-me. Tu te irias. Um abismo e pedras a sangrar. Daria-me, porém, flores suaves. Daria-me a tua suavidade e eu só poderia ser senão inconsolável e muda e com um ar de gratuidade. E eu me lembraria de quando tu me dizias " Gosto de rio, vem".
e seria triste. e seria o meu rio pequeno e feito de lágrimas, como nas imagens tristes, tão tristes que viraram já clichês.
Perdoa-me.
Dá-me tua mão.Que desague no mar...que desague no mar...
Mas Hoje é um dia bonito e eu suspiro. E sorrio.

Escrito por A menina do lado às 07h05
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Mas mesmo assim, eu canto

àquele que não carrega em si o ar de luto, e carrega tenaz seu ar de felicidade, oh, não há nada o que dizer...Ensinaste-me sobre desistências e torturas? Agradeço. Lamento apenas que não tenha aprendido sobre os mais belos cânticos.
Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo.
Mas, enfim...
"De tanto acariciar podia até matar-te, de tanto odiar podia até amar-te"
Dizem-me cousas proféticas, e me rio.
Passou.
Mas a coisa que passa sempre fica. Deixa nalgum lugar, uma marca. Ora uma flor, ora um rasgo.

Escrito por A menina do lado às 07h05
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Quando pequenos

Falar do amor, do amor...! O sempre mudo....Falar do medo, o medo...! o sempre temível. Nesse momento, choro acanhadamente de impotência. Há essa sensação a me roer em segredo. Meu gênio descreu.
E o mais engraçado é que essa dor, eu não lastimo...Não lastimo esse perigo

Escrito por A menina do lado às 07h04
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Das injustiças

"Ai de mim! Que o amor, tão gentil na aparência, tenha que ser tão cruel e tirano na prova."
Ou se tem sol ou se tem chuva...Mas, passa o rio. Vejamo-lo com doce violência: ele há de desaguar no mar. Eis a graça de todo rio.

Escrito por A menina do lado às 07h04
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Signore! Ah, per pietà,lasciami piangere.

Lascia Ch'io Pianga (Ária Da Ópera Rinaldo)
(Georg Friedrich Händel)

Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
E che sospiri la libertà!
E che sospiri,
e che sospiri la libertà!
Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
E che sospiri la libertà!

Il duolo infranga
queste ritorte
de miei martiri
sol per pietà,
de miei martiri
sol per pietà.

Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
E che sospiri la libertà!
E che sospiri,
e che sospiri la libertà!
Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
E che sospiri la libertà!



Deixe-me chorar pelo meu destino cruel,
E que deseje liberdade
É porque eu desejo, é porque eu desejo liberdade
Deixe-me lamentar o meu destino cruel
E que deseje a liberdade

A dor quebra
estas cadeias
de meus martírios,
só por piedade!


Suplica a princesa Almirena após ser aprisionada por uma terrível feiticeira:Deixa que eu chore
minha sorte cruel,
que eu suspire
pela liberdade

Escrito por A menina do lado às 06h56
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Nulla unda

Cisnes Brancos

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da Montanha onde mora a tarde.

Ó cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.

Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.

Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.

Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob asas,
A alma cheia de ladainhas.

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago da alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...

Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram no hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos.

Foram-se as brancas horas sem rumo,
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.

Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram: — Não mais acordas,
Lírio nascido nas escarpas!

Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.

(Alphonsus de Guimaraens)

Escrito por A menina do lado às 06h55
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02/01/2006


A espera amarga

Amar é esperar. Nunca em vão.
Às vezes quero representar aquele que não espera; tento me ocupar em outro lugar, chegar atrasado; mas nesse jogo perco sempre: o que quer que eu faça, acabo sempre sem ter o que fazer, pontual, até mesmo adiantado. A identidade fatal do enamorado não é outra senão: sou aquele que espera.

Escrito por A menina do lado às 23h51
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Mas mesmo assim, eu canto

àquele que não carrega em si o ar de luto, e carrega tenaz seu ar de felicidade, oh, não há nada o que dizer...Ensinaste-me sobre desistências e torturas? Agradeço. Lamento apenas que não tenha aprendido sobre os mais belos cânticos.
Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo.
Mas, enfim...
"De tanto acariciar podia até matar-te, de tanto odiar podia até amar-te"
Dizem-me cousas proféticas, e me rio.
Passou.
Mas a coisa que passa sempre fica. Deixa nalgum lugar, uma marca. Ora uma flor, ora um rasgo.

Escrito por A menina do lado às 23h50
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Sobre o esquecimento

E diz Romeu a Benevólio....
"Não, nunca hás de me ensinar o esquecimento"
E quanto mais esconjuro, mais amo, e quanto mais plena de amor, mais plena estou de ódio. Digo que amo pois, cheia de ódio. Amo o tudo, por pura vontade de amar.
Mas ai, que não me ensinam a esquecer! E a desistir.Eis o fardo do amor gemendo sempre,peso excessivo de coisa tão terna.

Escrito por A menina do lado às 23h49
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De ser menina

Esse ano duas pessoas que são importantes me disseram "mulher". Um outro, que se foi importante ainda o será, mesmo que indigno de lembranças, disse-me "você já não é mais criança". Vou envelhecendo. Em pouco mais de um mês, completo anos. A primavera me abandona. Logo me virá o mulher e o outono. Daqui 9 anos, serei uma balzaquiana, ou uma governanta inglesa de Henry James.Serei outoniça. O que haverá além disso, não sei... Não sei se quero crescer. Enquanto ainda menina, assenhore-me do que sou. É algo que conheço. O amadurecer é ser frágil, é ser nua.
Não sei se me causa felicidade ou tristeza esse deixar de ser menina.Sinto apenas medo, porque, às vezes, tudo o que temos nessa vida por certo é o nascer o morrer e o medo que se estende, solene, entre esses extremos. Só sei que por onde vou ainda sou "garota, mocinha, menina". Em meu quarto ainda há traços de infantilidade vigorosa. Nos meus actos, nos meus medos, prevalecem ainda coisas tipicamente de ingenuidade infantis. Penso até que tenho medo de mulheres e homens. Para mim, todos são ainda meninos. Não sei se conviverei bem com a gravidade de ser mulher.
Esse a quem ando dando meu coração me diz "mulher". Sim, sim. Uso neste blogue "a mulherzinha". Eu dulcifico esse estado d'alma. Mas sobretudo depois eu tenho que dizer, com desespero: Sou a menina, e ainda a menina do lado.Sobremodo, ao lado.
Penso que não fico bem de salto. Penso que não sou responsável. Penso que gosto de coloridos e que sonho com neve. Penso que inspiro cuidados mais do que sou capaz de dá-los. Penso que tenho a agonia de velhos desejos não realizados.Penso que minha sexualidade ainda é de descoberta.Ainda tenho inocências guardadas, e ares levados, e mimos, e caprichos. Penso que ainda devo ser guiada.Penso que gosto que me dêem a mão. Penso que às vezes grito pela mãe que jamais, jamas tive. Ainda me apetece as bonecas e bichinhos de pelúcia.E tudo isso estranhamente convive em mim juntamente com uma sabedoria às vezes tão intensa e tumultuosa. Tenho também essedevastado. Como se em mim o tempo fosse um redemoinho. Como se em mim habitassem todas as máculas, marcas. Como se eu tivesse sido tocada pela vida e pela morte. Como se meu olhar fosse profético. As pessoas me pedem para que eu leia suas mãos...Elas me pedem com desespero.
Tu tens razão, meu amigo, sou feita de contrários inconciliáveis. Mas esse ar de menina, essa "menina do lado"? Tão menina, tão ao lado...
Esse outro ser amado(que amo) também me chama de mulher. Talvez porque com ele sou uma Wendy. Estamos os dous brincando na Terra do Nunca. Wendy é a figura materna. Mas a verdade é que Wendy é também uma criança. Também ela está na Terra do Nunca. Tb ela não sabe partir. Também ela não quer crescer? Sabe o que acho? Que eu e ela apenas brincamos de boneca.
Sei que vou envelhecendo...Sei que haverão depois marcas físicas em mim. O tempo nos maltrata. Tantas coisas já me maltrataram. Essa terrível marca em meu pulso, essas olheiras. E todas, todas as cicatrizes n'alma...E tudo o que desejo nessa vida às vezes é andar de roda gigante, é beliscar meus primos, é ser feita de açúcar cândi. É perigoso enfrentar o tempo.
Tenho medo da minha alma que envelhecerá.
Certas almas quebram a tal da ordem natural das coisas.
O que sei é que é estranha a minha idade. Aos 21(já quase 22) é feio ser adolescente. Mas também é feio assumir aquele grave ar de senhoura. Não tenho cara de mãe ou de esposa.Tampouco posso por a sofrer homens mais velhos chorosos de roubarem minha inocência. Não posso mais lhes dar a crueldade da minha minha inocência perversa.Não posso mais desconcertá-los nem com minha acintosa juventude nem com minha habilidade fatal feminil.
Como diria aquele que infelizmente morto está em meu coração(embora jamais ausente): às vezes vc parece ter 5 anos, às vezes 50.

Escrito por A menina do lado às 23h47
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Canção de ninar

Um dia hei-de te ligar numa noite natal. Tu terás o ar pleno de toda parturiente. Haverá em teu lar barulhos e luzes com a suavidade de tudo o que é amado. Nunca mais os fogos de artifício hão de ser fulgor de tristeza.
Não é desgraça ser passional, querida amiga. É uma graça. Verás. Verás que um dia haverá o homem a tua altura. E ele te chegará de joelhos.
Tu tens a força de Perséfone, a riqueza de Artemis, a beleza de Isis e és feita de amor.
Sabe o que queremos? Sabe o que seres humanos querem? Algo inquebrantável. Algo que nunca parta. Algo que se deixe ficar, e se fortifique e se multiplique. Coisas que amamos e que não vão se perder. Coisas que nos amam e nunca mais vão querer se perder.
Não sei mais o que dizer...Mas um dia hemos de dividir nossas vidas cheias.

Escrito por A menina do lado às 23h45
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Ainda sobre as dores

Gosto de tudo o que em mim amadureceu pelo olhar sangrado, não pelo sangrar desesperado. Não fico feliz de ser madura às custas de punhaladas. Não sou feliz de ter sido jogada ao chão, não sou feliz de ter sido abandonada no deserto, picada pela serpente que antes fingia ser minha álacre companhia, a quem ofereci meus sonhos e meu coração.Não sou feliz dessa serpente ter me desejado a morte mais de uma vez. Ah! Mas serpentes não possuem mãos! Não merecia ter meu coração em suas mãos! Sequer havia mãos! Eu, tudo o que possuia, era a minha ingenuidade, era minha gritante vontade de amar, era já ego ferido.Não sei se poderia chamar minha ingenuidade de fraqueza, tampouco de estupidez. Eu simplesmente achava que o imperativo "Não fazer ninguém chorar de infelicidade" se estendia além de minhas convicções.Fui estúpida de crer que alguém poderia amar, amar infinitamente?
Tudo o que sei é que foi doloroso, muito doloroso estar no deserto, traída, só, intensamente só e ferida de morte. A serpente por vezes me rondando. A me dar suas picadas com certa constância, deixando-me naquele círculo de morte sem explicações. Tive que fingir ser um pouco como ela, provar um pouco do seu veneno, para poder entendê-la. Só possuindo um pouco de seu veneno, só me vacinando contra esse veneno que vem da própria infâmia do seu ser, pude me curar. Pude sair daquele círculo. Pude dizer "Não". E também pude me dizer "Sim". E chorei, e chorei porque o mundo às vezes é de uma solidez ruim. E que de onde só ouvi promessas, vãs promessas de acolhimento, só recebi, por fim, atentados fatais. E, ao deserto, tudo o que desejei foi não ser amarga. Faço-me boicininga, a cascável d'água de coração enorme. Eu e meu mitridatismo. Oh, não serei amarga.
As dores depois vieram dos choques de fealdade. Como podem ser tão feios os seres humanos? Como podem vivenciar tão bestialmente suas iras e amiudadas alegrias? Digo-me que não pode haver sorte pior do que a mediocridade. Não, isso não me consolava, ver a mediocridade vencendo. Mas ao menos eu entendia aquela escolha de pequenez, aquela escolha de mediocridade. Aquela incapacidade de amar que vinha da alma desprovida de qualquer beleza. Eu acho que a única beleza de certas almas é a dor que elas podem causar. Só sei queo que é feio só sabe destruir o que é belo. Saber disso me fez entender as razões de suas picadas. Oh, o leproso só se contenta de ser maculando o que é belo e espalhando suas chagas em bancos de praça. Sua malfadada sorte só é tolerável se conjuntamente. Eu posso dizer que nosso mundo é leproso.
Oh sim, restaram-me largas feridas. Mas não mais ferida de morte. Não mais. Caminho, deserto adentro, ou no mar selvagem.
"A cada mil lágrimas sai um milagre".Não, não é bobo optimismo. Procuro, mas ninguém sabe mesmo o que procura...Velejar é mal sem cura...
Troquei os vestidos....E do meu choro banal, sinto o gosto do sal...Até cansar de chorar. Pois tudo se gasta. Nada é eterno. Nada é inseparável. Nada é indissolúvel.Digo com dor. Mas a partir de uma dor inigualável aprendi sobre isso. De todos os modos, é importante não se fechar. Meu coração ainda está em minhas mãos, esperando se doar. Si, si, si. Queremos a alacridade eterna. Mas tive que entender que às vezes as pessoas entram em nossa casa, e a elas damos o melhor de nós, e mesmo assim, muitas vezes, elas partem, e partem trazendo o caos. Elas saem deixando cacos. Você tem de recolher até os cacos de si. E elas partem sem medo, sem remorso, sem saudade. Elas são às vezes tão-somente feitas de indolência, esquecimento e quietações. No meio do seu sangrar desesperado elas apenas sorrirão. E já se preparam para enganar outros corações. Até os próprios. Algumas pessoas não sabem amar. Algumas pessoas nunca nascem. Ah, sim.Sei que nesse mundo somos algozes e vítimas. Sei que muitas vezes você, leitor, será aquele que partirá. Mas, oh...Amem as cicatrizes, amem o que já proferiram. Não esqueçam. Não despedacem. Partam apenas com as dores de todos os fins. Mas partam sem agredir, partam sem massacrar, partam sem esquecer. O esquecimento é obsceno. Eu amo todas as minhas cicatrizes, choram as minhas coisas, chora a minha alma. Eu não esqueço. Eu respeito o que vivi. Eu respeito a quem já dei a mão.
Por isso, mesmo em cacos, tive a coragem de olhar para aquele que me envenenou, e do alto de minha dor, mas que não é dor amarga, eu ainda fui capaz de lhe dar minha mão. Com cautela.Nisso senti alguma diginidade. É que amarga e cruel e cretina é coisa que não desejo ser jamais.
Desejei-lhe, mesmo assim, céus, embora cá dentro sempre desejemos também justiça. E mais uma vez, ele se foi. Veio, usou-me(que só isso que essas pessoas sabem fazer) e mais uma vez se foi. E eu sabia.
Mas os que lhe digo é: Se possível, não partam. É tão doce o ficar...Não partam. Deixem-se ficar.

Escrito por A menina do lado às 23h44
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Ah! Eu vou chorar

LÁGRIMAS OCULTAS


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

(Florbela Espanca)

Escrito por A menina do lado às 23h44
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Dolor

Sempre, sempre digo: o pior ladrão é aquele que rouba nosso tempo. Será que ter de crescer é ter que vivenciar experiências tão amaras, é ter que lidar com sórdidas e inesperadas traições? Será que o sofrimento é que nos desanda e reconstrói? Crescer deveria rimar com doer. Mas gosto de pensar que o crescimento se dá com a consciência de amar. Muito antes dos judeus os egípcios fizeram sua tábua de salvação, com seus mandamentos para que pudessem entrar no céu. Não que eu deseje entrar no céu. Poderia haver uma solução mais metafórica, como simplesmente ter algo celete dentro de si, enfim.
O mandamento que mais gostei, e o que me pareceu com maior sentido(longe de moralismos) é: Não fazer ninguém chorar de infelicidade.

Escrito por A menina do lado às 23h42
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As coisas choram

Talvez a frase mais triste em mim seja: "porque os homens vão embora, e as coisas choram". Quem a escreveu falava de um túmulo abandonado, tinha quase oitenta anos, e não devem ter dado por ele. Foi deixado ali, como eu às vezes deixo um bilhete de cinema a marcar as páginas de um livro. Penso eu que a afeição pelas coisas é por vezes resultado de em criança não se ter podido haver a afeição pelas pessoas: as coisas não nos traem.
Mas gosto do que há de humano e sentimental nas coisas.Gosto dessas coisas que já morreram porque já viveram. Essas coisas que choram. Gosto das coisas que já perderam a razão de ser, e habitam em relicários. Gosto dessas coisas. Só a elas possuimos.
No segundo de novembro vi todos os túmulos que choravam, esquecidos. Em minhas gavetas há palavras que vão se desbotando. Elas choram. Gostava de chorar com elas. Há o ar da alma nas coisas. E ao possui-las há essa cobiça, o pecado do desejo. Eu possuo as coisas e choro.No segundo de novembro quis de algum modo reparar o abandono que havia em todas aquelas habitações desoladas. Não lhes deixei flores. Eu lhe deixei olhares. Trouxe de lá um palito de fósforo usado para acender uma vela. Parece loucura, mas o guardei. Eu, que já abandonei coisas tão maiores. Eu, que já chorei, abandonada.
Guardo, porém, as pessoas em caixinhas. Sou sobretudo uma colecionadora de almas.Há um relicário sentimental em mim.". E sempre reparei nos sorrisos, nos gestos, nas palavras que por um momento fixam, como se fossem uma fotografia, coisas que as pessoas não sabem que trazem consigo. Talvez essas coisas sejam a alma. Talvez essas coisas sejam a coisa que chora em mim quando vejo coisas sozinhas. . Mas a verdade é que quando li essa frase no livro de história não me senti o homem a ir embora. Senti-me a coisa a ficar.
Eis-me aqui, discurso deliciosamente inútil.
Entrar e sair de tudo (sou eu que faço a maior parte das visitas, tenho a certeza...). Sentir sempre as coisas ao longe. Desesperar porque as coisas ficam ao longe. Querer ver com os meus próprios olhos. Querer ver com os olhos dos outros. Esperar um milagre. Não esperar as coisas mais evidentes. Não fazer ideia se estou bem ou mal. Ter sempre a sensação de que há demasiadas cores, demasiado barulho, demasiada vida. Adorar a vida. Entre o ir e o ficar. Entre Lizt e Aldo Sena.

Escrito por A menina do lado às 23h40
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L'homme et le mer

Homme libre, toujours tu chériras la mer! La mer est ton miroir; tu contemples ton âme dans le déroulement infini de sa lame, et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer. Tu te plais à plonger au sein de ton image; tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur se distrait quelquefois de sa propre rumeur au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.
Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets: homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes; o mer, nul ne connaît tes richesses intimes, tant vous êtes jaloux de garder vos secrets! Et cependant voilà des siècles innombrables que vous vous combattez sans pitié ni remord, Tellement vous aimez le carnage et la mort, o lutteurs éternels, ô frères impacables

Escrito por A menina do lado às 23h33
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De ser mar

A me habituar com imensidões oceânicas e abismos tão atrativos quanto temerários, o sossego nauseabundo, e de repente, as tormentas. Até mesmo o alívio de vencer todas as tormentas. E depois, os naufragar. O silêncio desconhecido do fundo do mar.
De todo modo, estamos sempre nele, à deriva no mar. No seu caos sempiterno. Na travessia bela e dura; inútil e premente.

Escrito por A menina do lado às 23h31
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Té sem ademanes

Por vezes nada consigo escrever. Nem dizer. Sequer se fazem monossílabos. Eu poderia grunhir, eu poderia chorar, poderia ao menos cantar. Mesmo as mãos ficam atadas. Vão-se até os ademanes. O coração vira uma pergunta. Um aflito bater de asas. Só meus olhos dizem. Só meus olhos voam, e sonham, e morrem. Só neles há poesia de renascer. Eterno retorno das águas.E o terror de às vezes não haver poesia nenhuma.Águas paradas. Só eles, tão negros de tão habituados às noites escuras.
"Nulla unda furibunda

Escrito por A menina do lado às 23h30
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Das quebras

E depois de tudo isso, às vezes me digo: eu quero mais é que eles chorem!

Escrito por A menina do lado às 23h05
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O grão-desejo

Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
Vou deixar a casa aberta
Já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade
(Elton Medeiros)

Escrito por A menina do lado às 23h04
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Sobre as epfianias

Às vezes tudo o que tenho é esse meu suspirar. Nada mais. Nada além. Meu lirismo a gotejar solitariamente. Nada, nada adianta. De repente, tudo o que há é a cruel solidão. São as feridas mais rebentadas. Minha verdade em sangria.Ardência só minha. Perdem-se os homens. Desatam-se as mãos. Apagam-se as luzes. Vão-se, estrada escura.O que me traz a alegria extravagante de repente é substituido pelo silêncio da ausência. Nada é mais sentido do que a ausência. E só fico com meus fantasmas. A minha impalpável clausura. A alma é tão estrangeira...Não há olhar sobre ela, tampouco derramar. Faço as minha confissões às paredes, que segredam. Confio meu eu ao vento que passa. Ora sou tão dona de si, ora tão frágil e nua. Fico a falar de mi. Sinônimo de juventude. Parece que o tempo traz o abandono de si. Passamos a encarar as complexidades com mais temperança. Parece que os anos levam os ardores. Vamos nos conformando. Nos amiudando e adquirindo essa bela aspereza de falar com amargura do que se foi. Sabe o que é a velhice? Vou lhes dizer. É saudade. Saudade de quando se ardia. É o olhar para o que se foi. É o estado aplainado de luto. É o poder olhar já com leveza para as torturas. A morte já nos visita diariamente...O que são aqueles rasgos, afinal, ante a morte que se aproxima?os rasgos são como ternura. Deita-se sobre os rasgos aquele olhar de ternura. Se sobrivevemos, já passou. Há a morte-cicatriz em nosso peito. Há o riso sobre tudo, há a loucura, há o esquecimento, há a amargura. Oh , senhor, o olhar em terceira pessoa é ainda mais delatar...É se deletar mais do que o "eu" da juventude.É delatar o abandono e as impressões. É ser fustigado pelo cansaço de arder. Tudo o que sobre é o olhar cansado em terceira pessoa.
Eis-me, madrugada adentro, mar adentro, solfejando nomes e apalpando as feridas, parindo palavras filhas. Em choros de agonia. Sendo cada vez mais boicininga, cada vez mais venenosa, cada vez mais o coração enorme. Cada vez mais o mitridatismo. Lidando com todos os venenos, até os meus. Os venenos e os antídotos se formando em mim. Mas e os males sem cura?
Estou condenada a ser só. O amor me canta tão intenso, e é só meu, só meu. Ninguém saberá. Ninguém entenderá. Ninguém nesse mundo se entende. Deus deve ser muito cruel de ter feito homens sólidos em ser só, tendo no desejo do olhar e da companhia uma fraqueza. Precisar é sua fraqueza. Os homens unidos só querem abrandar suas fraquezas. É por desespero que se procuram. É pra se salvarem que se atraem. É pra fugirem de si que se jogam em abismos, em busca de outrem. Por isso o amor é ao mesmo tempo veneno e antídoto.
Oh...É tão fugidio...Os momentos belos são tão fugidos. Por que acho que morrerei embalada apenas por lembranças minhas, tão-somente minhas? Se vou morrer sozinha é que sempre fui insaciável. Envelhecerei, devastada, ungida de deserto e mar. O olhar silencioso.
Oh Deus. Serei um dia ainda mais destruída, ainda mais envelhecida? E ainda mais renascida? Que o viver é envenenar-se, de males em que nos fazemos depois a própria cura.
Ah, talvez não tenha eu talentos para amar...Talvez só saiba amar a mi. Talvez eu seja masoquista. Talvez goste de me debelar. Talvez goste de me desfazer. Talvez goste de amar ao ponto de ser ridícula, só por amor de mi. Talvez a passionalidade seja punição. Ou presente.Tanta alma, tanta alma...Tanta vontade de me rasgar. Essa extravagância toda não será só o desejo de me olhar? Bah, claro que não....Quanto mais desejo ser olhada , mais quero olhá-lo. Mais quero abrigar-me em sua casa.
Ah, escravidão...Tu te vais e de repente sobe-me, altaneira, a miséria. Meus porões desolados, abandonados...Quem, quem irá devastá-los? Eu deixo que entrem, eu deixo...Eu convido. Quem, quem irá devastar-me? Quem há de deflorar a minha mata? Quem irá fazer em mim filhos sagrados? Eu quero ser invadida, impugnada, acachapada. Locupletar-me. Loucpletar-me de ti. Que estadia há de ser feita em mim? Tão aberta estou. Deixo-te entrar, em estado de graça. Sinto-me abonada. Por quanto tempo tu irás ficar? Por quanto tempo serás tua morada? Tu porás cortinas em minhas janelas? Será o fogo das velas dos castiçais? Entra, entra...Devasta. Não faça cerimônia. Não parta. Que velejar é mal sem cura...Invada-me como as ondas que não param. Beija-me os pés sempre. Que seja bela a tua morada. Espalha-te em mim, vento fresco contra os desterros...Não te vás assim, deixando-me abandonada. O que era mar aberto vira clausura. Descubra meus porões.Aprecia-lhe o negror. Vela-me com o fogo do castiçal. Olha-me. Olha-me como te olho. Olha minhas feridas. Dá-me a tua violência amorosa. Olha-me com amor e agonia. Faz-me tua velha conhecida. Deixe-te morrer ao me conhecer. Conhecer é envelhecer. Envelhaçamos
Amar sem ganhar amor é o mais terrível fado, Pior é amar sem ter visto Sequer os olhos do amado.
Eis-me aqui, na violência de amar. Desfeita em pranto. Histeria da mulher abandonada.
Que fazer? Só sei ler versos d'amor. Só sei ser senão tristeza, senão pura alegria, senão transparência.
Só sei das esperas. Esperas amargas. E por que não a autosuficiência? Ao menos seria menos ridícula. Não me derramar. Não ser mulherzinha mulherzinha mulherzinha. Não me retorcer por gostar de transcender. Não ser cada vez mais ridícula, ainda tendo o ridículo por dádiva. Não amar os sabores agridoces. não dormir exaltada feito petiz, abraçando travesseiros. Não enlouquecer pelo prazer da doença de se derramar. Ser feliz e ajustada. Ser desse mundo. Sem exageros. Sem cacoetes. Ser tão-somente a minha face fria esnobe e afetada. e eu não sei ser assim? E como sei. E como penei. É q os homens gostam de sexo, acho. E de conquistarem rainhas. E depois que conquistam uma rainha, eles dizem: Agora, eu me cansarei dela.Aí eu às vezes apenas digo, indolente, sanguinea, snehora de mim, e, quem sabe, vazia: Eu quero mais é que eles chorem!
Velejar, velejar é mal sem cura.
"Dê ouvidos a minha dor/Dê-lhe sentido/Toque minha dor/Com dedos lentos/Que uma dor não é de quem a sente/Diga com luto as palavras dessa dor/Pois que sem dó a dor se dói esterilmente/Sobre ela deite um olhar de Virgem Maria/pois que o olhar sobre a ferida/ a alivia"
(Nalgum momento de vertigem isso foi escrito, aos 14 anos. Parece que não cresci)

Escrito por A menina do lado às 23h01
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Para que durmas em paz comovida

Vc é uma pessoa linda.É o que posso sentir. E apenas sentir.Estou olhando aqui pra vc, e me vem esse excerto da aria de "a flauta mágica". Ele fala por si. É lindo.:"Esse que vejo é extraordinariamente belo, como olho algum jamais viu!Eu sinto como essa figura divina com novo sentimento enche meu coração. A esse algo não posso de modo algum dar um nome, embora o sinta aqui como fogo a queimar. Será essa sensação amor?Sim, sim, o amor a é somente.Oh, e se eu ao menos pudesse encontrá-la, essa figura! Oh, se ela estivesse pois, aqui, diante de mim!Eu iria...eu iria, pura e ternamente...O que faria?Eu iria, repleta de encantamento, contra esse peito cálido pressioná-la, e então seria ela minha para sempre!"

Escrito por A menina do lado às 23h00
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Das marcas feitas com brasas

Quando o amor vos chamar, segui-o,

Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;

E quando eles vos envolver em suas asas, cedei-lhe,

E quando ele vos falar, acreditai nele.

Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que ele contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda.

(...)

Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,

Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonassem a eira do amor.

Para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá senão de si próprio, e nada recebe senão de si próprio.

O amor não possui e não deixa de possuir.

Pois o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga: "Deus está no meu coração", mas que diga antes: "Eu estou no coração de Deus".

E não imaginareis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.

O amor não tem outro desejo, senão o de atingir sua plenitude.

Se, contudo, amardes e precisardes de desejos, sejam estes vossos desejos:

"De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite;

De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;

De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;

E de sangrardes de boa vontade e com alegria;

De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;

De descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor;

De voltardes para casa à noite com gratidão;

E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança".

(Khalil Gibran)

Escrito por A menina do lado às 22h57
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Do caos

Às vezes a vida nos impede de viver. De qualquer modo, vive-se. Resguardai que continue feia em mim a desistência. Que eu seja insana o bastante.


Inscrição


Quem se deleita em tornar a minha vida impossível por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe, ó encoberto adversário!
Mas a minha paciência é mais que firme que todas as sanhas da sorte
mais longa que a vida, mais clara que a luz no horizonte
Passeio no gume de estradas tão graves
que aflingem o próprio inimigo
A mim , que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

(Cecília Meireles, esta mulher que carrega a cegueira o nome. Porque a vida é absurda)

Escrito por A menina do lado às 22h56
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Ne me quitte pas

Neme quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
je creuserai la terre
Jusqu'aprè ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vue deux fois
Leurs coeurs s'embraserJ
e te racontrai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas



Não me deixes
É preciso esquecer tudo
Tudo pode ser esquecido
Como o que já se foi
Esquecer o tempo
Dos mal-entendidos
E o tempo perdido
Em saber como
Esquecer essas horas
Que às vezes matavam
Com golpes de porquês
O coração da felicidade
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Eu, eu te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de um país
Onde não chove
Eu atravessarei a terra
Até próximo à morte
Para cobrir teu corpo
De ouro e de luz
Eu erguerei um domínio
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E tu serás (eu serei) rainha
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Eu vou te inventar
Palavras insensatas
Que tu compreenderás
Eu vou te falar
Daqueles amantes
Que por vezes viram
Seus corações se abrasarem
Eu vou te contar
A história de um rei
Morto por não ter Podido te encontrar
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Por tantas vezes vimos
Ressurgir o fogo
Do antigo vulcão
Que se acreditava velho demais
Parece que ele tinha
Terras queimadas
Dando mais trigo
Que no melhor Abril
E quando cai a tarde
Para que o céu flameje
O vermelho e o negro não se casam?
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Eu vou me esconder ali
Só para te ver Dançar e sorrir
E a te escutar Cantar e depois rir
Deixe que eu me torne
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Escrito por A menina do lado às 22h55
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Da graça de amar

Resta-me apenas a música das músicas....

Meu amado é branco e rosado
A pele dele é como o mais puro ouro
As maçãs do rosto são como especiarias
Seus olhos são como os dos pombos
Seu corpo, um marfim reluzente
Suas pernas são como pilares de mármore
Seu umbigo é uma tigela arredondada, cheia de vinho
Seu ventre, um monte de trigo
cercado por lilases
Seu dorso um pêssego abaulado
Suas espáduas são como nobre madeira silvestre
Sua alma é a vela ardente a alumiar todas as noites
Sua voz tem a carícia musical
E seu hálito rescende a maçãs
Ele é absolutamente adorável
E como são lindos os seus pés em sandálidas, filho do príncipe!

Escrito por A menina do lado às 22h54
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Dos apegos

A escolha nos dá amigos. Mas aqueles com os quais criamos afinidades ainda mui pequenos nos crescem com sentimento fraterno. As mentes mudam. Mas fica o apego,a ternura. Como se fosse acerto do acaso. Marca na pele. Aqueles que nos viram nos formar e deformar. Sejam os dentes jogados no telhado ou, depois, os camafeus jogados ao mar.
O peso familiar ultrapassa quaisquer escolhas: Minha família são meus amigos de infância. Escolha que fiz de coração ainda verde, mas que ainda me conforta.
São longas as horas com essas ainda tão amadas criaturas. Sem poses ou cerimônias. Desnudos demais para nos ausentarmos.

Escrito por A menina do lado às 22h52
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Das escolhas mórbidas

Conheço alguém Wagneriano. Não gosto de comparações. Mas vi certa graça e leveza dar lugar a delírios franciscanos. Vi regojizo doentio em punições. Por detrás disso, ressentimentos de não haver grandiosidade. Quis ser, pois, grandioso enquanto derrotado. Eis o bom cristão. orgulhoso de suas chagas. Em graça de doer. Tais graças conseguidas no abandono de si. Esse amigo(sim, um amigo. Queria lho dizer), ao se ver diante da mediocridade, quis fugir dela se deixando debelar por ela. Agora é um medíocre com misericórdia de si mesmo. Sorri, lacrimoso. É feliz em seu sacrifício. No fundo, é uma grande coragem, a desistência de si. Compartilho de sua alegria histérica.
Dói-me de dor doída sua felicidade triste.
Que o Deus que não existe lhe guarde.
Deus...Um nome triste.
É fato : Não conheci grandes cristãos estimáveis. Abelardo foi um cretino, um cobarde.
Último sorriso da noute: Eça de Queiroz me conta de um certo largo sorriso gaulês. Como é bom, quando sabemos do que se trata um largo sorriso gaulês. Como éramos largos, enfim. Em certas idades são imensos os caminhos, enormes as pernas...Largos os sorrisos. Em especial, sorrisos gauleses.

Escrito por A menina do lado às 22h52
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Da gratidão

Algumas pessoas são supinamente belas. De uma grata existência. São de uma beleza que comove. Perguntamos aos céus sem deuses como puderam comportar tanta graça em um ser. Elas são como um candeeiro em noite escura. Harmonizam-se com sóis e luares. A vontade que nos dá é de agradecer por existirem. Essas pessoas- candeeiros.
Eu agradeço hoje ao ser que me oferta com pureza de criança(sim, por vezes, essa pureza é um presente. Pois não tem a escolha mórbida da ignorância) seu vasto coração. Esse companheiro de quietações e perigos. Que me faz sorrir em secreta intimidade. E me faz rir das esterilidades e de todas as coisas feias.
Eu o agradeço com gratuidade. Em algum lugar, em algum lugar longe de minhas mãos, mas jamais longe de meus olhos(esses que sempre velam atentamente), ele existe. Vai ver banalmente. A banalidade é algo poética. Isso me faz sorrir. Com a lua se derramando pra mim, eu sorrio. Ninguém, ninguém saberá...
Ao menos toda existência de qualquer ente é de fruição pública.
Toda a beleza me dá vontade de gratidão. A ela mesma. Meus olhos agradecem. E minhas mãos às vezes sonham.

Escrito por A menina do lado às 22h50
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O açoite da noite

 

Que as palavras pertencem a quem delas precisa.

Canção de Alta Noite


Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.
Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço
,nem necessita de vida.
Andar... - enquanto consente
Deus que a noite seja andada.
Porque o poeta, indiferente,anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

(Da mulherzinha Cecília Meireles)


*Ave Caesar, morituri te salutant!

Escrito por A menina do lado às 22h43
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Ave Caesar

 

Ave Caesar...
Comoveu-se quando falamos sobre ele, o "chão do abandono".
Agradeço pelas frescas tulipas que me destes. Recebi-as, rociada de ternura. E posto as fotos que me mandaste. Na noite tu me procuras, com meu brilho coberto por uma mortalha?
Nascemos e morremos muitas vezes enquanto nos permitimos viver, caro amigo. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Belos, ao ar.

Na foto, o chão do abandono...A caveira é porque no dia posterior seriam cortados seus belos cabelos, certo? Eu te perdôo...rs

Escrito por A menina do lado às 22h42
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Sobre os desencantos

Que são eles os grandes causadores dos gritos silenciosos. Caso lhes pareça charme intelectual o mistério de um silente grito....
(Um suspiro, que é tudo o que consigo nesse momento. E transborda o desencanto, culminando em sufocante tédio).
Quando doer menos, quando o tempo aplicar seu poder anestesiante, quando tudo se tornar risível ou engavetável, talvez seja sábio falar.
Às vezes penso que os clichês dos velhos sábios são tudo o que fica, mesmo.
Ah, a velhice! Essa fábrica de monstros....
E como diria Jorge Luís Borges, esse que já foi um velho sábio e devastado:" o esquecimento é a única vingança e o único perdão".

Escrito por A menina do lado às 22h40
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Sobre o cansaço

 

É uma grande moléstia. Oh tedium vitae!
Fico aqui, reticente...Cansada demais para escrever. Sejam asneiras, sejam considerações relevantes.
Só digo algo: O mais trágico é o cansaço de si mesmo. A impossibilidade de correr de si mesmo. A única e derrotada certeza que temos é que estaremos conosco, para sempre.
A propósito, raramente escuto essa palavra agora "conosco".

Escrito por A menina do lado às 22h40
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Continuação 3

1Por que esses lingüistas não procuram aplicar suas idéias à obra de Machado de Assis ou Guimarães Rosa?
1Será mesmo que um discurso precisa ser homogêneo, bonitinho, organizado.
1Que vão todos à merda!
2Ah! Eu tenho ânsias assassinas...Fazer verter sangue. Vermelho e profuso, hohoho! 2Uma cena dantesca.
2Eles estão preocupados demais em querer objetivar...
2objetivar! postular!
2Comunicação é uma lance quase instintivo...
2Escrever principalmente.
2É como a intimidade com o totum verbal já construído. Não se ensina, em absoluto. Não que haja espaço nisso para mistificações de toda ordem. Mas é uma construção pessoal.
É como o processo de aquisição de fala. o da escrita é o mesmo. Só a intimidade com as palavras e com os sentimentos( e com a lógica) constroem o escritor, grosso modo.
1De pleno acordo. É preciso saber que um autor escreve de determinada maneira porque é dotado de uma personalidade X que reage a estímulos da época Y.
1Parece-me que os lingüistas querem pasteurizar toda a produção escrita. É quase um sonho maquiavélico.
2Nem todos se atrelam à uam época em específico, reagem a um totum histórico. Alguns forçaram a barra querendo fazer leitura politizada até, irmanada com certos arroubos planfletários em voga, vide os realistas.
2É de uma burrice sem dó. Querem desautomatizar o processo, e chegam a fazer reflexões absurdas! A beleza se perde. O senyido todo, creio. É sacal.
1Bem, querida. É pena, mas devo deixá-la sozinha neste volutabro virtual. Dói-me. 1Devo dar-lhe boa-noite.
2Gosto de vc,querido. Gosto muito.
1Trabalho amanhã, sacumé.
2 É muito prazeroso conversar com vc. Sinto alguma irmanação.
1Eu não gosto da senhorita. Converso com você por pura indulgência e amabilidade.
2Bem, é a vida, é a vida...
1Brincadeira, é claro. A senhorita é um poço de atração. Cai-se nele com grande delícia. Mas tenho horas.
2 Que pena! Eu estaria te provocando certas artes de lidar...Gosto de causar problemas.:)
1Bem, já é tempo. Como na ária de Verdi : "Addio, Leonora. Addio!" Beijos nihilistas.
2Que o trabalho amanhã não seja tão mortificante. Conte carneirinhos, os tacos do chão, as linhas do seu dedo....
2Uma beijoca, querido. Tenha sono reparador. Adoro-te.
1 Até, moça adorável.

Escrito por A menina do lado às 22h37
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Continuação2

1"Deliciosamente inútil" é o maior elogio que ele poderia receber. Estou sem palavras!
2Pq sei de minhas volubilidades. A vida, cá me parece, é vasta demais para que eu me aferre como égua a certas disposições de ânimo.Tb pode ser pequena demais para que eu pense sobre ela. Prefiro, por evzes, simplesmente sacolejar o esqueleto. Simples como a simplicidade. Viver extremos, ou não. Os ventos trazem outras perspectivas. Vou variando. Deve ser alguma doença. Mas não sei o nome.:)
2São apenas modos de viver...
2Ah! Outro dia fareiu descrições melhores! É que não sou boa com descrições!
1Como não? Arrebentou a banca!
2E vc, embora o que escreva não tenha nome, embora seja qualificado como dito fugidio, escreve bem. Muitissimo bem. Um estiloso.:)
2Vou aprender cousas com vc, para que eu possa ser igualmente deliciosamente inútil.:)
2Vamos nos "civilizar".>1
1 Cioran dizia que o "estilo" é o único refúgio para toda sorte de vencidos e inadequados.
1Deixe disso, menina. Você arrebentaria a banca também!
2Ei, vou comer chocolate. Volto já. Estou com furor uterino tb.
2Volto djá! *Com dedinho mindinho de Walter Mercado
1"São apenas modos de viver" - bem, vive-se de qualquer jeito, não é?
2Ah, vou muito bem com o título de de "vencida da vida". Fico bem estilosa.>1
2É, vamos nos arrastando...De mal a menos mal....
2Puxa, será que quero arrebentar a banca? Não sou do tipo humilde não. Sou autólatra , mesmo. Mas, sei lá! Eu me amo tanto que me quiero só pra mim, fico pensando por vezes.>1
1Eu bem que faria um filme intitulado : "Os fodidos".
2 Qdo se é phodido, mas não sabe, apenas se aceita, é-se, de fato, phodido?>3
1Pense assim : "Estou escrevendo. Se lerão ou não, é problema DELES".
2Se vc morresse agora, diria para si: Puxa, eu não fiz nada! Quero que o mundo lamente minha ausência...Pensaria algo assim?:)
1 Não, eu diria : "Estou morrendo. E nem consegui dar um nós nesses desgraçados". 1Sou um derrotado por natureza. Não me permitiria nenhuma espécie de vitória.
2É claro que nunca seremos nada.
1Seremos professores universitários ou burocratas de certa posição, no máximo.
2Ah! É q eu achava antes quje talvez, sei lá, minha existência pudesse ser útil de algum modo, eu tinha alguma pretensões. SAdmirava quem teve essas pretensões. Quem sabe eu, toscamente, volte a pensar assim. Mas agora não tenho tais pretensões. Parece-me desimportante. Eu gosto da idéia do anonimato, de uma vida só pra mim. Nem encaro como gde, como pequeno. Dizer algo já não me importa.
1Puxa, como estamos amargos, hem?
2Ah! Eu quero ser eu, isso. E que se phoda!Pra onde vou, no que vai dar...Sucesso, fracasso, menoridade. Dou-me bem com tudo isso, pq pra mim tanrto faz. Eu poderia ser uma pastora missionária com legião de seguidores que não estaria nem aí. Apenas ser. Ser uma legião, rs. Não de seguidores, que são todos iguais, rs.:)
2Eu acho que estou tonta, é isso. E amarga. Vc, só amargo.>1
1Minha querida, você é apaixonante. Mesmo.
2Isso. Ame-me à distância por uma noite. Vamos escrever coisas deliciosamente inúteis sobre essa experiência e afins, adispois.
1Ganha um beijinho e um brigadeiro.
1O que seriam os "afins"?
2Experiências símiles, oras! Eu facilmente encontro similitudes por aí.Questão pessoal.
2vc faz licenciatura?
1Não; e nem licenciosidades (porque a época anda muito ruim).
1Você, pelo que sei, faz.
2Sim. Ando com licenciaturas e licenciosidades.
2Ai, está de morrer! rararara! Sou vistoriada por balzacas mal-comidas amantes de Rubem Alves! Tenho que ensinar discursar sobre estratpegias cognitivas e metacognitivas de leitura. Eu me controlo pra não rir, mas acho que saem muitas caretas. Muitos ademanes significando desprezo.>1
1Talvez eu nem acabe a faculdade de Letras. Fiquei tão satisfeito por poder ler algumas cousinhas nesse feriado. Durante o período de aulas, só leio aqueles textos intragáveis de Sintaxe e Crítica Literária.
1Eu, no seu lugar, não poderia evitar de dar com a língua nos dentes e soltar umas farpas.
1 O que seriam "estratégias cognitivas de linguagem". Explicar ao aluno o que quer dizer um texto?
2Eu não faço isso. Já comprei brigas iniciais. Eu contra a profusão de sociolinguisticas. Estudo num maledetto reduto. Não adianta argumentar contra os que vêem graça em inventar normas imebcis de uma gramática descritiva, ou que querem sistematizar os estudos semânticos, topicalizá-los, criar ridículos axiomas.
1Bom, eles criam categorias para o óbvio.
2São estratégias de leitura...Como ensinar, supostamente, alunos burros a interpretarem mediante exercícios. Terei que discursar sobre isso, estabelecer exercícios. Só um exemplo. É sempre algo tosco assim.
1sociolinguistas.
2É óbvio, por exemplo, que um texto precisa de tema.
1Trabalhar com isso com alunos imbecis...
2Ainda que tente ocultá-lo.
1Acho que os alunos de hoje são ainda piores que os da nossa época.
2Eles sistematiuzam o [obvio ululante, e tem uma ânsia burra empirista de querer tornar tudo científico. Qdo não é.
2Bem, até onde eu sei, não se ensina a interpretar.:) No máximo, a decodificar. Mas, paciência!
2Só sei que eu morro com aqueles imbecis dissertando sobre predição de conteúdo...É muito tosco.:)
1A única estratégia de leitura relevante, a meu ver, é ler o texto.
2Vc teve aulas de produção textual?
1Estou tendo.
1São terríveis...:)
2Eu desaprendi a escrever, eu juro. Por causa das técnicas.
2Querem ensinar-me a produzir um texto?
2Eu agora faço tópicos, separo idéias centrais, uso palavras chave, anotações.>1
Assim, separo os ingredientes...pq fui obrigada a fazer isso por um ano.
2Foi a pior coisa que me fizeram.>1
1Lembro-me dum filme francês muito bonitinho, "Les Amants du Pont Neuf", em que, ao ser abandonado pela personagem da Juliette Binoche, o protagonista diz : "Ninguém me ensina a esquecer", atirando, depois, no próprio dedo. Acho que poderia eu dizer o mesmo quanto à escrita : "Ninguém me ensina a escrever". Talvez sejam os dois axiomas da minha vida.
1O que fizeram com você é uma desumanidade.
1Você teria todo o direito de assassiná-los.

Escrito por A menina do lado às 22h37
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Posto certa conversa já citada aqui. Sobre porque não ter blogues. Veja só que antitético. Algumas cousas quebram tudo, cegamente. Lasso mundo da desrazão. Ungidos de vago, rs.Poderia escrever algo mais, mas outra certa conversa agoura me consome.
Que fique o déjà dit....
O boneco de posto(vulgo Biruta) é pela cara de tonto que fazemos ante um computador. Devo estar fazendo uma nesse momento. Há motivos para isso. Confesso, porém, que no momento meu sorriso está assaz sardônico.
Instruções para leitura:
O número 1 é ele, o gato de botas. O 2 sou eu...Eu e meus clichês. :) Com carestia de método em minhas expoosições, por favor. Só assim não irei recorrer ao "argumentum ad ignorantiam"

1 Oi.
2Bisous, mon bijou...:)
2Como che vai?:)
1Como está a senhorita?
2Acho que com melancólica tonteria( que vem do álcool e das entranhas). Levemente gasta pela vida. Ligeiramente gripada.
2E vc?
2Queria chocolate...:(
2Puxa, minha mãe escondeu os ovos! Como é ruim morar com gente doentia!
1Aqui, há ovos de Páscoa de sobra.
1 Ninguém vai dar conta de comer tudo isto.
2Minha mãe é contra prazeres gdes ou pequenos.:) Ela sempre esconde as coisas. Quer conservar, cercear, castrar. Cousas assim.
1Então, vc está esnfastiada de ovos de páscoa. Eis o seu estado d'alma.
1Deve ser jansenista, não?
1Em verdade, eu nem me importo com eles.
2Vixe, jansenista...Não sei o que dizer a respeito.
1Não ligo para chocolate; é-me indiferente.
2Sim, eles são redondos para o nada.
1Eu já lhe contei que tenho um blogue?
1(Como são chatos os autores de blogue.)
2Não, não contou.
2Nous verrons! Nous verrons!
2Eu escolho os dias para ler blóguis.
2Não é sempre que se forma o "saco de tolerância". Aí olho pra eles com indulgência. Quiçá ternura. Ansiando mensagens quaisquer.
1Pois bem, olhe-os com condescendência. E misericórdia.
2:D (sorriso bobo meu, hohoho!)
2Farei isso agora...
2Vou correr os olhos, tão-somente.
2Tô meio bêbada mesmo!:) Quem precisa de olhares bêbados?:P
2Bebeu o morto hoje?
1Não; sou muito respeitoso quanto à minha apostasia.
1Que me importa que um lunático egocêntrico duma província romana insignificante tenha, supostamente, sido assassinado no dia de hoje?
2Não me importo nem com ar que respiro...:)
2Deixe-me ler um pouco...Escolher a vítima...hohoho! *A risada de papia Noel é entre maquiavélica e sardônica.
2Que me importa saber quem é esse sujeito que escreve o blogui, não?
1Sono io.
1Que se foda, esse cara!
2 rararara!
1É um borra-botas, um mal-comido.
2 vc é bom com xingamentos, não?
1Talvez.
2Nunca mais pratiquei xingamentos de toda ordem.:(
2O que queremos com blogues?
2O que quer com o seu?
2É o mesmo que...escrever um livro?
1Um lugar para despejar toda espécie de bobagem que me ocorre.
2Expor as chaguinhas? Expor as saliências estimáveis?:)
2Mas pq público? Pq não um caderno empoado?:)
2Alguns acham que sim. Eu, não. Blogues são masturbatórios.
2Pq eu não quero ter um blog?:(
1Para ser moderninho.
2Eu juro que não sei pq não tenho um blogue...
1Ora, é só um motivo temporário para continuar vivendo.
1Hahahaha.
2Talvez pq eu odeie digitar, odeie escrever, no fundo. Meu caderno empoado está, de fato, coberto de pó. Não mexo mais nele. Escrever é para certos dias. :)
1Pois, vá lá, faça um e encha-o de dislates de todo jaez.
2Eu entendo...:) Outro dia, passando por cima de mim mesma, farei um blogue. Chamara-se "cousas".
1Ninguém vai lê-lo. Ninguém se importa.
2Talvez eu não goste de me contemplar...Talvez seja uma espécie de espelho...
Vc acha que tem algo a dizer? E que faz sentido dizer? E que importa que outros o vejam dizendo?:)
1Serve para que você perceba que muitas das cousas de que gosta não despertam nem mesmo um bocejo nos outros.
2Ao me fazer essas perguntas eu entendi que não me importa muito escrever...Sabe, no máximo, eu serei espetáculo para intelectuais entediados que morreriam um pouco comigo. Matariam um pouco do tempo comigo.
1Autopiedade?
2Não sei. Acho que é só uma fase nihilista "tô nem aí". Não vejo mais dignidade no suposto repasse de informações/experiências que poderiam ser descritos como literatura. Deve ser fase. Outro dia já vou estar com arroubos narcísicos, querendo ser Mum-ha, o de vida eterna. Acharei graça em exercitar com as palavras. Escrever bobices. Dividi-las, quem sabe. Pq, apesar de tudo, eu ainda gosto de ler.
1Eu gosto de ler, embora este gosto ande bem embotado ultimamente.
2Waaaal! seu blogue é delicioso...Estou com sorriso de orelha a outra. Vou até anotar palavras.:P rararararara!
1Pq?
1Deixe de hipocrisia!
1É feio, como diria mamãe.
1Mas é útil, como eu diria.
1Por que você acha que está passando por essa "fase"?
2Não. É cômico. É metalinguístico. E deliciosamente inútil.

Escrito por A menina do lado às 22h35
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Patientia

Bah, depous mostro a conversa que prometi. Questões comezinhas me prenderam.
O que eu iria dizer, quando me deitei na cama ?* Pausa para o momento mulherzinha: O que foi que me veio como pensamento lacerante mesmo? Ah, o que me lacerou foi a tal da sensação de alívio. O silente grito. Perdão, estou chorável. Isso. Semântica rica. Estou despedaçada. De facto. A noite já me deforma. E não consigo abandonar a irritação empolada em vez de dar voz à minha bestificação feminil. Deus que não existe, faz-se o chão do abandono. Vence a noute. E não hei-de me tornar uma chata Ana Cristina César que se joga de uma janela. Mas, ante isso, ante esses rasgos que torno tão cômicos quanto dignos ,ante esse estado deplorável e o medo do absurdo de tudo(pra não dizer ridículo), eu vim aqui me despir. Estou desfeita em pranto. Faz-me companhia a porção lacrimosa da vida. Um fado. Um fardo. Um bolero. Uma canção de Jessé. A promessa de nutrir a histeria à larga. Eu vim aqui lhes dizer sobre histeria. Eu vim escrever histerias. Eu vim verter o sentido pranto. Eu vim lhes dizer sobre a grave vida. Os vastos fins. Coisas imensas. E o terror de nominar.
Escrever sobre o silente grito.
Tão-somente.
Por Deus, lacerou-me o alívio.
Uma maldição: Nunca nos bastamos. Nunca.
E se quiserem me dar a bênção da liberdade ideária dos aforismos...

Escrito por A menina do lado às 22h23
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Oh Céus! Faniquitos!

 

Estendam o tapete! Rufem os tambores! Criei um blogue para...Hmmm. Não sei se para me vexar ou me contemplar. Talvez apenas, nesta maldita madrugada inquieta eu esteja mulherzinha demais. Além dessa sensação tão ardente quanto insólita, além de toda essa expectativa de ser, além de toda a autolatria expiatória que possa haver nessa (in)contida exposição do eu, eu os digo: palavras são perigosas. Palavras são perigosas como facas, messieurs et mesdames.
Não sei o que pretendo com isso. Talvez ande a doer miseravelmente minha mão. Talvez tenha sido poupada do contato fragrante do papel. O papel como a pele de um amante. Sim, eu sempre tive cadernos poentos onde me delato. De platéia apenas eu.
Vexo-me...Vexo-me de ser às vezes. Esse ter-de-ser. Esse crime de viver. Vexo-me um tanto de contar que existo , como estou a fazer.E ainda ficar com elucubrações maçantes, mas, caso no mundo haja doença, e lá isso sei que há(e nisso reside grande parte da graça do mundo), quiçá, há quem possa adoecer dos males sem cura cá comigo. Morram-vivam um pouco comigo. Uma flor nasceu. Cante-se a beleza de sua efemeridade. Doam-se de dor imaginária se possível. Tomem-me por grato empréstimo. Caso não, satisfaço-me em me comunicar com o teclado e a tela do computador. Afinal, dizer é contemplar-se.
Não sei ser senão eu. E não posso ir além de meu umbigo. Escusas, de antemão.
Aqui só hei-de me expor, meus caros. Até nos silêncios, até sobre o comentário desgracioso sobre o filme visto no fim-de-semana. Até na descoberta do meu estilo(Sim! Aqui é linguagem escrita!)
Existo...Que remédio?
Bem, que fazer da menina do lado? Estou a a olhar pra ela, vacilante. Balançamos um pouco as pernas. Há certa ternura embotada pelo sono. A verve irônica impede meus rompantes cecilianos. Canta o rouxinol e acho que desejo ouvir o " é a cotovia".
Penso apenas que depois devo compartilhar certa conversa sobre blogues que tive com um certo Messer outro dia. Aliás, esse amigo inominável, eu o prezo. Que todos saibam, pois o querer bem é grande o bastante para isso. Eu te digo, messer: Pardon, mon cher, se não tive asas ou acidez estomacal suficiente para permanecer em seu blogue. É que quando me vem o ar da graça, o brbulhar do gênio, eu ando a tomar um sonrisal, ou vou dormir, pra ver se passa.
Só o travesseiro, esse amigo dileto das mulherzinhas, poderá lhe contar.

Escrito por A menina do lado às 22h17
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