Vexando-me


20/01/2006


Fumando te espero

Fumar es un placer,
genial, sensual...
Fumando espero
al hombre que yo quiero,
tras los cristales
de alegres ventanales.
Y mientras fumo
mi vida no consumo
porque flotando el humo
me suelo adormecer.
Tendida en mi sofá,
fumar y amar,
ver a mi amado
feliz y enamorado,
sentir sus labios
besar con besos sabios.
Y el devaneo
sentir con más deseo,
cuando sus ojos siento
sedientos de pasión.
Por eso estando mi bien
es mi fumar un eden.
Dame el humo de tu boca
Dame que en mi, pasión provoca.
Corre que quiero enloquecer
de placer,
sintiendo ese calor
del humo embriagador
que acaba por prender
la llama ardiente del amor.
La hora de inquietud
con él no es cruel
sus espirales son sueños celestiales,
y forman nubes
que hacia la gloria suben
y envuelta en ella,
su chispa es una estrella,
que luce clara y bella
con límpido fulgor.

(Tango que pertence a não sei exactamente quem)

Escrito por A menina do lado às 19h26
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Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Escrito por A menina do lado às 14h41
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Meu mundo e nada mais

Quando eu fui ferido, vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos, e eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha

Eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado
À meia noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo esquecer
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia noite, a meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais

Não estou bem certo, que ainda vou sorrir
Sem um trago de amargura
Como ser mais livre? Como ser capaz?
De enxergar um novo dia...

Eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado
À meia noite, a meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia noite, a meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia noite, a meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia noite, a meia luz...

             Guilherme Arantes

Escrito por A menina do lado às 14h39
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Nuvem de lágrimas

Si, eu continuo fazendo parte da vulgata. E imito muito bem Roberta Mirando. Até sei baixar um pouco o olho.

E bebamos à saúde dos bêbedos.Mas a letra é bem-vinda.

Há uma nuvem de lágrimas sobre os meus olhos
Dizendo pra mim que você foi embora
E que não demora o meu pranto rolar ah ah
Eu tenho feito de tudo pra me convencer
E provar que a vida é melhor sem você
Mas meu coração não se deixa enganar

Vivo inventando paixões pra fugir da saudade
Mas depois da cama a realidade
É só sua ausência doendo demais ah ah
Dá um vazio no peito uma coisa ruim
O meu corpo querendo seu corpo em mim
Vou sobrevivendo num mundo sem paz

Ah jeito triste de ter você
Longe dos olhos e dentro do meu coração
Me ensina a te esquecer
Ou venha logo e me tire desta solidão

 

Escrito por A menina do lado às 14h24
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Vieste como um barco carregado de vento,abrindo
feridas de espuma pelas ondas.Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me;e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo,embora como um lume
de cera,lento e brando,que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro,como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos.Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar,porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens.Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais,que é tarde
para quase tudo.Por isso,vou para casa

e aguardo os sonhos,pontuais como a noite.

Escrito por A menina do lado às 05h22
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Que posso eu contra coisas terríveis?

Senhor, como ser forte? Mas não sou. Quero chorar. Choro, no meu confinamento. A nau dos náufragos. Amar, mal-amar. Amor que rebenta, sem piedade. A natureza mais convulsa e mais calamitosa. O amor é calamitoso.
No momento a flor que me deram despetalou-se. É próprio das flores que murchem. As flores fenecem. Sonhei que ela, porém, fosse protegida do vento. Que houvesse sobre ela uma redoma que a protegesse do balouçar do frio da morte. Pensei que suas cores não desbotassem. Que vigorasse enquanto lhe fosse possível a vida. Pensei que se fossem divididas as pétalas e os espinhos. Mas agora beijo os espinhos que me deixaram. Beijo com sofreguidão. Eu me beijo. Sozinha, em meu confinamento. Estou só. Gritantemente só. A flor que me deram não era uma flor, era uma urtiga. Minhas mãos que sofrem com as urtigas. Antes fossem espinhos. Os espinhos são amortecidos pelas pétalas.
Oh, sensação inválida...Sinto-me quixotesca, a amar Dulcinéia. Sei que ao menos em meu ser senti as pétalas e os espinhos. Mas a verdade é a urtiga. É o sonho. É a verdade que vem e vai. São as lógicas tortas, os homens impossiveis. A realidade é o chão do abandono. São os homens fracos, as mãos desatadas.A verdade de minhas pálidas mãos, desajeitadas. Não há o testemunho do olhar. Sem o olhar, se a verdade do olhar, não há nada. Junto o nada de que sou feita. Junto o nada que me deram. Junto meus cacos. Eu me revolto. Recolho-me à minha insignificância. à invalidez das palavras.Sou um nada. Sou a janela não olhada. A janela esquecida. A janela trocada pela tv. Sou a morta de sobrecasaca, envelhecendo, sem sentido, numa parede. Gritarei silenciosamente. Ninguém ouvirá. Meus dedos sangram e eu os vejo.Chora a flor que tanto quis, tombada. Como são frágeis a flores! Como são todas iguais! Como podem, de repente, serem urtigas!
Sonhos malogrados. Viver interrompido. Abortos. Mãos que desatam. Recuo. Recuo por necessidade. Como uma concha, eu me fecho. Recuo, sobretudo, para o lado. Sempre, sempre, a menina do lado. Caos. Alegrias raras. êxtases evaporados. E agora respiro o ar maldito da infelicidade. O dia amanhecendo sem dó. O dia clamando agilidade, utilidade, competência. Urge. A vida urge.
Mas a verdade é que a palavra mais perene no meu vocabulário é essa: abandono.E seres humanos são impossíveis, e tenho dito.

Escrito por A menina do lado às 05h19
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Luzir

Apraz-me a imagem de Santa Luzia. É um tanto decadente esse amor por idetinficação. Gosto de hagiografia. Gosto daquilo que dá santidade às pessoas. O que as faz ser reverenciadas. Os panegíricos, as loas, os afetos. As histórias de resistência e de martírio.
Sinto-me um tanto como Santa Luzia no momento. Essa renúnica amara de ter por dignidade tão-somente o abandono. Eu abraço o meu abandono. Que eu o abrace, porém, essa capacidade sempre eterna: a de abraçar. Mas depois ter que voltar a abraçar meu abandono.
Dar flores, sempre, e de todos os modos.Dar mesmo com os espinhos. Capacidade de suavizar e ferir.
De todo modo, eu  volvo meus olhos arrancados, meus olhos de Santa Luzia, e faço uma vigília. Sempre para o céu, para o céu. Meu sono como de um mártir, sacrificado. O sacrifício do acolhimento.
Choro por meus olhos arrancados. Mas que continuam, renascidos, a olhar sempre para o céu, para o céu.

É justo por causa da penosa vida sos santos, desgraça floreada, beatificada que me enterneço tanto por eles. A fraqueza debilmente enaltecida, glorificada. Mas o que normalmente me estimula é que eles fracassam, dignos. A força lhes é tirada por injustiça. O que aprecio nos santos é o impedimento de sua força, que só pode depois se reestabelecer pela dignidade mantida. Não gosto da glorificação da fraqueza, mas da força impedida. A resistência feita em lira. Gosto do que resiste sem amargura. Do que é amável, sem amargura.
Carrego meus olhos num prato, olhando para os céus. Força frágil desesperada.
Faço a renúncia da noite. Confesso que é por despeito que vivo.Resisto.Ar agora grato. No fundo, amar é gratuito...E sou anjo d'asa quebrada. Faço-me agora uma prenda.É por querer que volvo  meus olhos noturnos aos  habitantes dos  céus....Morro um pouco por vós. E sinto-me um sopro. A promessa que não desejo que se quebre. Mas é como se fosse um cristal quebradiço...E temo. Clamo, oh, quee não se quebre....Je regarde le ciel...Les ombres....
Mas é madrugada e não há pressa. A não ser a de me precipitar na vertigem.

Escrito por A menina do lado às 05h13
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Sob Tortura

 

Faz-se por vezes cenário de horror, de horror no rio Mekong.Olhar sempiternamente nebuloso de Conrad. O desencantamento do mundo sem o nihilismo amortecedor.
É árido o clima. Há sabor de sonhos destruídos. Mas assobio o tema de Summer of 42. Ao longe repicam os sinos. Música ao longe. Lampião cujo azeite faz a fremer a frágil luz. Penso que mares brilham como azeite. A música ao longe, vera, vera...Os sinos repicando. Como se não houvesse tantos abortos. Os sonhos que se refazem, em calejadas mãos.
Não sei se a tortura nesse instante me inspira. Acho que prefiro o desejo de leveza. De leve dança. De voar. O que aprecio na dança é que com ela pareço voar. Na dança do ventre parece que afasto todos os abortos. Passo a carregar em meus quadris a fertilidade milenar. Trago Eros nos quadris. Trago as pulsões em meu ventre. E vôo. E inspiro vida. E beleza.Como disse, felicito-me sempre com as reinvenções do belo. Injeto de vida com os contornos. Dançam também meus olhos. A tragédia do tango que inda não sei dançar. O olho tragicamente denso da espanhola que tento imitar. Como fiquei feliz de saber que tinha decendência, mesmo que muito longinqua, hispânica!Que as castanholas empunhadas tem um filete de sangue sobre elas. Que cabem perfeitamente em minha mão... Esse meu ar rubro negro, ar flamenco...Esse meu ar árabe, banhado pelo mediterrâneo por vezes. Ar de quem carrega nas mãos a poeira dos desertos.
De todo modo, nesse instante desejo música e dança e açúcar-cande. O mundo como um prenda. A ser aberto devargazinho. Surpresa de uma esquina. Causar mais sorrisos que agravamentos. Poder transcender com pirulitos. Não ser punida por comer o pão-de-ló do telhado. E se eu for tiranizar, que seja com cáluclo. Que mesmo na minha tirania, ou a de outrem, haja delícia. Essa parcimônia de olhar, degustar, satisfazer os sentidos. Mesmo as dores podem ser degustadas com calma. O mundo é uma prenda, é uma oferenda. Vou emoldurando minhas sensações. Quadros. Mesmo nas areias do deserto, faço arquiteturas.
Vou indo, então, condenada por minha fome. Mais cativa sou da vida, pq mais fome tenho. Dilacero-me com ternura. Como dilaceram os crimes, que são feitos para saciar.O mundo é uma penosa prenda. Viver é um crime, uma prenda. Um crime penoso. Uma penosa prenda.
Oh, é tarde e tenho que dormir. Não me comove a aurora. Faço-te uma vigília, carregada pela força do que é enamorado. A obsessão amorosa é a mais almejada prenda. Tenho essa força, a dos enamorados, que traz em si tão-somente o desespero. Há a força que só o desespero sabe trazer.
E que me tentem os demônios.
Eu gosto de ser tola, sabe? Da tolice bestial do meu insistir. O instinto de persistir. Essa força de meu desespero. Manchada pelo repicar dos sinos. A música ao longe. A obsessão do tilintar dos sinos. Sedentos sinos a me manchar de amor. Cadência do desespero.
Oh, mas a despeito de todos os desesperos e da música das músicas, sei que continuo só e isso é mal sem cura. Sou o palácio esvaziado. A janela não olhada. A cabana em cariudade capitosa, a abraçar transeuntes esfaimados. Lembro da história de São José agora acalentar 3 meninas na floresta. A ensinar que o amor, no fim das contas, porém, não é gratuito. Oh, dar é saboroso...Mas amar sem ser amada é ser anjo de asa quebrada. E tenho dito.
O amor das meninas, dado com graça, com gratuidade, é por fim recompensado. Não que o fim de amar seja ser amada. Mas desolados os que amam só para si. São anjos, sim, mas de asas quebradas. Mas o problema é que amamos a despeito de sermos amados...
"Meus quadris sustentam o mundo"

Escrito por A menina do lado às 05h02
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17/01/2006


D       A7
Lenha na fogueira , lua na lagoa
D
Vento na poeira , vai rolando à toa
A7
A cantiga espera quem lhe dê ouvidos
     D     D7
A viola entoa , solidão de amigos

   G     A7 D
A saudade lembra de lembranças tantas
     A7 D     D7
Que por si navegam nessas águas mansas
   G     A7 D
A saudade lembra de lembranças tantas
     A7 D      E
Que por si navegam nessas águas mansas

E B7
Quando a cachoeira desce nos barrancos
        E
Faz a várzea inteira se encolher de espanto
B7
Lenha na fogueira , luz de pirilampos
      E        E7
Cinzas de saudades voam pelos cantos

   A     B7 E
A saudade lembra de lembranças santas
     B7 E     E7
Que por si navegam nessas águas mansas
   A     B7 E
A saudade lembra de lembranças tantas
     B7 E     
Que por si navegam nessas águas mansas

(Jessé. Si, faço parte da vulgata. E daí?)

Escrito por A menina do lado às 17h30
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16/01/2006


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!

Florbela Espanca

Escrito por A menina do lado às 03h00
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15/01/2006


Mãos que balançam o mundo

 

  a mão que abre a porta
- a mão pela janela a ver se faz frio e vento
- a mão que esmaga a formiga
- a mão à volta da tigela onde se bateu o bolo
- a mão que rouba fruta
- a mão que ampara a queda
- a mão que conduz a dança
- a mão fechada que esconde
- a palma da mão que recolhe a água da chuva
- a mão que arrefece
- a mão que toma conhecimento das urtigas
- a mão que toma conhecimento do teu corpo
- a mão que segura a caneta
- a mão que segura a tesoura
- a mão que puxa as cordas da guitarra
- a mão que move as peças no tabuleiro de xadrez
- a mão que diz olá
- a mão que diz adeus
- a mão que acaricia um desconhecido
- a mão que inventa um gesto
- a mão que abandona um gesto
- a mão que foge do corpo
- a mão que puxa os cabelos dos outros
- a mão que alisa o teu cabelo
- a minha mão pousada na tua perna
- a mão que arranca as páginas 25 a 32
- a mão adormecida toda a noite (a verdade é que nunca está como a deixei)

Escrito por A menina do lado às 04h34
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Citação válida

porque amo ortega y gasset...Como foi feliz saber que comunhavamos de idéias mesmas, ao lê-lo, hoje.
Ortega y Gasset
O homem de cabeça clara é aquele que se liberta dessas "ideias" fantasmagóricas e olha a vida de frente, e apercebe-se de que tudo nela é problemático, e sente-se perdido. Como isto é a pura verdade - a saber, que viver é sentir-se perdido - aquele que aceita isto já começou a encontrar-se, já começou a descobrir a sua autêntica realidade, já está seguro. Instintivamente, tal como o náufrago, buscará qualquer coisa a que agarrar-se, e esse olhar trágico, peremptório, absolutamente veraz porque se trata de salvar-se, fá-lo-á ordenar o caos da sua vida. Estas são as únicas ideias verdadeiras: as ideias dos náufragos. O resto é retórica, postura, íntima farsa. Aquele que não se sente de verdade perdido, perde-se inexoravelmente; quer dizer, nunca se encontra, nunca esbarra com a própria realidade.

A Rebelião das Massas

Escrito por A menina do lado às 04h34
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L'espoir

Já não sei se canta o ou rouxinol ou a cotovia. Mas sou ombro em que se deve poisar os pardais. Que poisem os pardais em minhas fohas brancas.
Em cada esquina, a possibilidade de uma alegria.
Pedi a Guidinha, que traz vida dentro de sim: Torça para que me seja tolerável.
Assim Guidinha o fez.

Barcos ou não
ardem na tarde

No ardor do verão
todo o rumor é ave

Voa coração
ou então arde
(Eugénio de Andrade)

Escrito por A menina do lado às 04h33
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Noite do amanhã

Noite que possa ser lembrada. E contemplada. E suspirada com calma. A noite antiga que mora dentro de mim.Paisagem jamais abreviada. Eu, que tão poucas vezes esperei um estrela cadente cortar o céu. Eu que nunca ansiei por São Jorge, mas desejei a potência de enorme cavalo. Eu que não fiz pedidos aos céus. Eu que não tive a ternura dos anos. Eu que não sei ser senão atormentada por paisagens de carne e palavras como cordões umbilicais no pescoço. Eu, eu desejo uma boa-noite.
De todo modo,é um crime ignorar o pôr-do-sol, as primeiras neves, os pássaros e os sonho, como disse Tarkovski.


NOITE ANTIGA

Cá em cima anoitecera cedo. Noite diáfana,
imensa como o dia; - o olival impreciso,
as ervas, por entre o mármore, queimadas pelo sol,
o teatro nu, pendurado na encosta. Por terra,
um enorme escudo, virado ao contrário. Se chover,
vai encher-se de água; virão aí beber os pardais,
o veado, o leão, o touro, Crisótemis,
os três cães do guarda-florestal e a lua.

De Giannis Ritsos

Escrito por A menina do lado às 04h33
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Dos arrefecimentos

Quando sabemos que um vulcão está extinto? Oh, não há nada mais triste que um vulcão que não se expele mais. Quando a lava sequer mais no queima por dentro. Está fria como o calcário.

ELA DANÇA SOBRE PREGOS

Versos magoam, a folha angustia.
Dão guinadas no corpo, infernais.
É o teu mal: leste poemas a mais.

Melhor perderes-te em música obscena,
Melhor deitares-te a ouvir a cantilena
Do fogo consumindo uma pirotecnia,

Melhor rebolares-te em sei lá quê
Do que a dor e o decoro de quem vê
Ir-se a vida na Paixão da Poesia.

Gerrit Komrij, Contrabando, antologia publicada pela Assírio e Alvim, tradução de Fernando Venâncio

Escrito por A menina do lado às 04h32
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Aflito bater de asas

Oh, menina...Tu...A do lado. A menina sempre do lado. Do lado. Sê feita de terra. Sê anjo d'asa quebrada. Voa, maculada. Sagra-te novamente ao mar. Ao mar sem cura.Vê-lo na sua sangria nua. Brilhai nas cores desmaiadas. Sê descalça na terra. Elemento primeiro. Salva-te da demência da lua. Torna-a apenas tua luz vadia, a te guiar. Faz da tua asa quebrada teu sombrero. Protegei-te do sol. Protegei-te dos homens. E mesmo ao lado, amai.Tu, que sabes amar.Fogo dado a ti pelos Deuses. Amai. E Amai baixinho. Não precisam saber. Não precisa dizer.
Amai baixinho, e segui.

Escrito por A menina do lado às 04h32
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Madrugada violenta

A violência é tanta! Madrugada adentro. Sou feita de desfazer. Eu me desfaço. E refaço. Todas as cores desbotam. Não tenho cores. Eu me destruou. Eu me refaço.
Ando a aprender a crochetar. Frágeis as uniões, como teias de aranha. Fosse eu a viúva negra dona dessa teia, dona de divinas tetas, como os leigos proclamam! Soubessem da morte contida no nosso proprio veneno...Da dor das em verdade amantes aranhas, que doam seu corpo aos filhos.
Uma comparação infeliz. Mas é madrugada infelicissima.
Desfaço o que crochetei. E há aquele emaranhado ao relento. Assim me sinto. Oh, coisa não olhada. Coisa enganada. Hás de ser só, de ser só.
Vou ´para a cozinha, a cozinha para ninguém. As laranjas no seu maduro lento, para ninguém. Dói-me que morram sem se transformar. O alimento pouco na boca é a vida, não o aborto. Que eu more na boca de alguém que de im possa se nutrir.
Na ânsia de não ter um aborto dou lira às laranjas.
Compartilho com vcs o lírico molho de laranjas. Choro com elas enquanto as faço. Luto contra os abortos.A casa se perfuma de laranjeiras. Minhas mãos com cheiro de sumo de laranjas. Suspiro.
Durmam. Como convém aos mortais: Divinamente.

Será alguém um dia
levado a pensar em mim
pelo cheiro de laranjeiras
quando eu também já for
«alguém há muito tempo»?

Shunzei

Escrito por A menina do lado às 04h31
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O sol

Diariamente o sol amarelo chega pelo monte.
Bela é a floresta, o animal negro
O homem, o cacador ou o pastor.

Avermelhado o peixe pula no lago verde.
Sob o céu arrendondado
O pescador vai silenciosamente com seu barco azul.

Devagar a uva amadurece, o cereal.
Quando o dia se inclina calmamente
Tanto o Bem quanto o Mal estao prontos.

Quando se faz noite
O viajante levanta em silêncio as pesadas pálpebras;
O sol rompe de um penhasco negro.

(Pincelado pelo moço George T.)

Escrito por A menina do lado às 04h30
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Das cousas

Quando elas se apresentam,as cousas, calo-me. Por trás de todas as cousas há um abismo que me vexa.E me surpreendo cada vez mais com a reinvenção da beleza. Como é belo mesmo esse estado desolado.O amor ao abandono. Amor ao nada. À ausência. E aprecio esse desapego do conceito de belo da moral. Como o belo pode ser amoral. Minhas esntranhas entendem a beleza do seu abandono.
Como é o objeto não visto? Como é a janela não olhada? Essa janela não acariciada pelo olhar? Não doída pelo olhar? Essa janela grita.Como são as filhas abandonadas? As filhas esperando, abandonadas.
Espero que, no momento, meu terror embriague minha poesia.
Pela janela olho solamente meu horizonte estilhaçado.Debilmente uma luz alumia. Eu e a a janela, coisas não olhadas. Degusto minhas entranhas.
Contraiando, busco alguma obsessão.Esse vigor bestial de continuar. Busco na obsessão amorosa. E penso se a minha própria obsessão amorosa não há de me bastar.
Se pudesse me emancipar de tudo o que é finito...Mas hei de aprender a morrer.
(Pintura)
As filhas abandonadas, de Augustus Egg

Escrito por A menina do lado às 04h30
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O peso(sem leveza)

Ando envelhencendo. Caindo, como a noite. Um tanto fadada a tragédias. Mas eu me canso de dizer sobre isso.
Gosto por vezes de cada amanhecer. Cada amanhecer. Cada amanhecer

Escrito por A menina do lado às 04h29
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