Vexando-me


26/01/2006


Requiem

Todas as coisas já trazem em si a ternura de um requiem. Não há nisso uma vertigem?

Os espelhos andam cansados...

Escrito por A menina do lado às 08h16
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O belo

Toda beleza é convulsa. E vai muito além do bom. Muito além do mau. Beleza do que morre. Beleza do que vive. Beleza do que nasce. Beleza das coisas fenecidas. Beleza de sangrias. Das tragédias. Beleza de Waris, a flor do deserto. E das flores que nascem nos detritos. Beleza dos lazarentos. Beleza das virgens mas também das curras. Beleza do que é eterno e do que é vulgar.Bela da dança primeva do que enforma todas as coisas. Chamas cedidas. Somos chamas, sim. E que se apagam, oras.

E se quiser sabe sobre o belo, oh, não perguntem às doutrinas...Perguntem às três graças. Perguntem às inspirações místicas. Porque no belo reside o mistério. E é gostável que seja assim. A natureza talhada Hegeliana é um mistério. Gosto do mistério que rende o místico. Mas tudo é criação humana. Tudo toque de olhos humanos, humanas mãos. Oh, sobre a estética...Pergunte ao desejo, não ao entendimento. E se forem orates o suficiente, criem Deuses. Mas Deuses são estéticas. Deuses são até as punições para sas fruições estéticas.

E queiram o delicioso suplício.Que as junto à claridade há a escuridão.

Ai, ai...

 E são belos mesmo os amores vulgares...Vivam, belamente e em suplício, comme il faut...

Tenho dito: Não seria possível a vida sem a estética.

Escrito por A menina do lado às 08h11
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25/01/2006


O direito da primavera

Se viver mais sessenta anos, serei absolvida deste dia passado longe dos jardins; mas se morrer amanhã, aquilo para que hoje trabalho e que me mantém fechada, longe dos sons e dos cheiros do sol, aquilo que me obriga a adormecer cedo, muito antes do silêncio absoluto, fará do dia de hoje um irrepetível esplendor que me permiti perder, uma vida adiada, uma morte consentida fora da sua hora, com doçura e estupidez

Mas a primavera é um direito inviolável. Contemplo o dia com distância apaixonada. Meus olhos clareiam o que há de repetitivo e banal. Meus olhos arrasam o cansaço. Bestialmente afastada das flores eu aspiro jardins.Ainda vazada de sol, em meio à escuridão.

A graça é que sei sobre o que renasce.

Escrito por A menina do lado às 16h51
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Das canções ciganas

Por mais que me tolham as paredes, os anos, os desalmados, tenho essa alma livre de cigana. Alma sempre com fome. Alma sempre insaciável. Dela sou afortunada.Algo ora altivo, ora decadente. Mas há liberdade no vôo e nas raízes(sim, às vezes temos a liberdade  da dor de arrancá-las, tanto quanto mantê-las.  Ao menos nos foi permitido nos assenhorar disso. Mas é possível continuar mesmo quando nossas raízes são arrancadas por cegas mãos. Dessas raizes, deixem tb que escorra profusamente a seiva brutal delas, mas nunca, eu os imploro, nunca seja seiva envenenada.A amargura só faz sentido quando, tocadas por ela(isso muitas vezes é inevitável, sabemos que dela devemos nos despir.) Permaneçam,pois, tronco, mesmo que o tronco seja violentado, profanado. Para que nasçam os galhos donde voarão os passarinhos. Ora sãos, ora d'asas quebradas. Nessa vida toda situação é possível. Tudo é contradição inconciliável. Tudo é simplicidade complexa.

Mas canto agora minha canção cigana. Se hoje morre meu pai, amanhã nasceu meu filho. Se sangro, se vôo. Não importa. Trago em meus olhos "anoitecidos"(grato pelo vocábulo, querido) as marcas da identidade. Há agora certo sorriso nos olhos. Há neles também abismos. E naufrágios. E as incertezas. Há neles morte e partos. São olhos de Diana, caçadora, na noite. Deusa parturiente ao mesmo tempo que traz a morte. Deusa protetora dos animais e caçadora. Trago essa essência da vida nos olhos.Olhos cansados, olhos ingênuos como de uma criança, olhos devastados como de uma velha. Olhos que dizem tudo, que dizem mais que a minha boca, e tenho dito.Sorrio, ingênua e devastada. Sorrio com minha liberdade cigana. E eles me dizem, meus olhos, que pertenço a algo, e que faço parte, e que se ameniza o horror da solidão dos espelhos.

Não me cabe, sobremodo, a despaixão. Mesmo às vezes em que amaldiçooei as paixões foi com a atitude violenta, apaixonada. Sou feita de intensidades. Sou intensamente fria. Faço chorarem, com crueldade intensa. E digo, no tanto que me é permitido me assenhorar de mim, que se houvesse agora companhia, eu dançaria um dbake com grande alacridade. E a vida teria continuidade. Seria uma dança seivosa, sanguinea. Sorrio porque, no momento, sinto que pertenço.Que participo.

Vou-me em abismos enquanto me permitrem as forças e os anos. Vou-me morte e partos.Não sei como me proteger da vida. Eu sou um náufrago. Eu gosto de chuva. Eu gosto de terra firme, mas também de céus. Se viver é uma punição, que eu seja punida. Punida por viver demais.Vou-me aonde vida me chama. Mesmo aonde as quedas me chamem. Que eu possa suportar as quedas. Sei que elas vêm. Mas que eu possa suportá-las.

Escrito por A menina do lado às 05h25
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23/01/2006


- Sólo vine a ver el jardín - dijo.

Sólo buscava un lugar más o menos propicio para vivir, quiero decir: un sitio pequeño donde cantar y poder llorar tranquila a veces. En verdad no quería una casa; Sombra quería un jardín.
- Sólo vine a ver el jardín - dijo.
Pero cada vez que visitaba un jardín comprobaba que no era el que buscava, el que quería. Era como hablar o escribir. Después de hablar o de escribir siempre tenía que explicar:
- No, no es eso lo que yo quería decir.
Y el peor es que también el silencio la traicionaba.
- Es porque el silencio no existe - dijo.
El jardín, las voces, la escritura, el silencio.
- No hago otra cosa que buscar y no encontrar. Así pierdo las noches.
Sintió que era culpable de algo grave.
- Yo no creo en las noches - dijo.
A lo cual no supo responderse: sintió que le clavaban una flor azul en el pensamiento con el fin de que no siguiera el curso de su discurso hasta el fondo.
- Es porque el fondo no existe - dijo.
La flor azul se abrió en su mente. Vio palavras como pequeñas piedras diseminadas en el espacio negro de la noche. Luego, pasó un cisne con rueditas con un gran moño rojo en el interrogativo cuello. Una niñita que se le parecía montaba el cisne.
- Esa niñita fui yo - dijo Sombra.

Sombra está desconcertada. Se dice que, en verdad, trabaja demasiado desde que murió Sombra. Todo es pretexto para ser un pretexto, pensó Sombra asombrada.

Alejandra Pizarnik,

Escrito por A menina do lado às 23h35
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22/01/2006


Oração de amor

"Será noite de reconciliação - / Há tanto Deus a derramar-se em nós. // Crianças são os nossos corações, / Anseiam pela paz, doces-cansados. // E os nossos lábios desejam beijar-se - / Por que hesitas? // Não faz o meu coração fronteira com o teu? / O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces. // Será noite de reconciliação, / Se nos dermos, a morte não virá. // Há-de uma grande estrela cair no meu colo"

Else lasker-Schüler

Escrito por A menina do lado às 05h39
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Poema d'amor

Poema de amor

Vasa-me os olhos e eu poderei ver-te
Destrói-me os ouvidos e eu poderei ouvir-te
Mesmo sem pés poderei chegar a ti
Mesmo sem boca poderei conjurar-te
Corta-me os braços e inda adorar-te-ei
Com o coração no lugar das mãos

E se destruido for meu coração

Latejará o meu cérebro
E se incendiares o meu cérebro
Guardar-te-ei ainda no meu sangue

R.M. Rilke
(tradução de Jorge Sousa Braga)
 *Pudesse ter forças para declamá-lo como já tive...

Escrito por A menina do lado às 05h24
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Amoralidades

Antes houvesse fragância vulgar da gardênia. Que eu cumprisse ser bela, rasgando os horizontes de minha demência. Títeres humanos, como um trágico Julien Sorel, desejoso de fatalismo, em minhas regeladas mãos. Ser um tanto como Vanina. Sentir depois o frio de minha vaidades. Ter coragem de uma cabeça em minha bandeja. Ter as insuportáveus dolências de Manon lescaut. O destino manchado de uma camélia. Verter copiosas lágrimas adúlteras.

Oh coração mais afiado que um pugnal. Pugnar. Com maligna ternura, como quem empguna um florete. Porque amar é brega demais.E canso do perdão em minhas mãos. São mãos inválidas. Mãos que cozem e cosem. Mãos que sentem a espera. Que colhem espinhos e acolhem homens. Pudessem ser minhas mãos amorais! Meu coração sem pesares!

Escrito por A menina do lado às 05h16
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Algo quebrado

E de que nascem mesmo os anjos, e como decaem? E como são sedutores, atrás de sua porta assexuada...Comparar assim crianças aos anjos. Ao aprendizado de vôo(por isso possuem asas) , retrato do andar, essa aprendizagem dolorosa. E quanto mais voam, mais desejam asas para que possam caminhar cada vez mais pela terra. A asa é a possibilidade de vôo. Mas o que há de grácil é cá na terra. Amo sobremodo os anjos decaídos, mas não os destruídos. Como é triste um anjo sem asas. Como poderá voar, como aprenderá, voando, sobre a graça de todo cair, de todo ficar?

Mas falo de meu nascimento sussurante. Filha de amor machucado. Eu feita de plumas vinda de horas de trevas, o olhar de inocência olhando até o limite do meu medo.O desejo de quebrar os espelhos. De mares e de cais. Ter no coração o ir e vir das espumas das ondas. Ter na boca o gosto de nuvens. Ter nas costas um par de asas. Ter nos pés uma terra molhada. Sentir no sangue o húmus. Amar o milho amarelando. E ser como um jovem pássaro no agudo perigo da noite. Súbita e lentamente em contradança. Olhar que da ingenuidade que se perde por vezes torna-se súplice e marejado de agonia. Dança de pássaro erguendo as mãos. A dança das naus.

Oh, de minha inocência faço dos gestos oferendas. Prendas no espelho. Ramo voando com o vento. Asas se apartando do umbral, como arautos das dispersões das neblinas. A amargura dos requiens dos naufrágios. Ventos frios de maio. Que quedam as asas e dão morte aos pássaros. Afugenta-se o olhar de anjo. No espelho há cacos. Saudade apenas das pastilhas de menta. A noite ganha hálitos ácidos.Cai-se, como animal ferido. Mas abre-se um pouco como flor malfadada. Flor que rebenta do mesmo vale de lágrimas. Rosas negras. Negros sóis.Na solidão, no chão, a sensação das asas tremendo. Na agonia do chão tremem as palavras, como asas. Vem a memória e o desejo. O tempo se separa. Ninguém depois entenderá essa sensação de lua e sol como almas cruzadas, de como o chão ensina sobre as asas, de como as asas fazem amáveis as raízes. Como de que amargo modo se quebram os espelhos, e susurro como cordeiro espotejado porque no fundo a ingenuidade é cousa que nunca me abandona(Cousa daqueles que querem sempre, sempre mais).

E de repente às vezes faz sentido o amar novamente esse chão. E falar quando o silêncio é o objeto mais benquisto. Flor que se abre cheia de espinhos. Escudo próprio do que é belo. Danço ao vento. Vôo. Essa aprendizagem ainda mais dolorosa: o triste tentar do vôo da asa quebrada.Peregrina das paisagens pressentidas. A negra aurora. Lua luminosa.

Faz-se a rosa negra. Gostava ela de mãos que a manejassem com calma.Rosa negra ao espelho. Verdade do regresso do corpo.Ter em si algo quebrado.

Amar o fato de que tenho em mim algo de quebrado. Entre o açúcar-cândi e o luto.

Escrito por A menina do lado às 04h53
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O tempo que me foi preciso para chegar a ti!

 

Escrito por A menina do lado às 04h19
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Esse puto absurdismo...Dá-me sede de "cês" arcaizantes. Ictos. E risadas mongolicamente natalinas. Penso em mortes súbitas milagrosas como começos. Nascimento que se expande por si só, involuntário. Não domamos nem os nascimentos, nem as mortes. Esses extremos se achegam e corroem como doença. Trago o peito doente.  E dou espasmos e suspiros lassos ante esse reverberar involuntário de princípio e fim que fazem virgens e impolutos os homens sábios, em cujo claustro floreiam e gongorizam vomitórios e epistemes.

Hegel deveria ter sido poeta? O mundo padeceu de menor cadência?

Ai, que histerias nonsense! Devo lhes falar de minhas insistências em azucrinar o academês e a masturbação do ideário hegeliano? Oh, que prosa mais enfadonha. Esses estilistas...O que me impressiona nos discursos dos métodos são as ânsias de tornarem o pomposo qualificado e a tentaiva do poético no discours onírico melódico de Bachelard. Não sei a qual dos dous levar a sério. Fica essa briga de lambisgóias entre esses fanfarrões do intelecto. A carne é bem-vinda, filhos. Verbo que se faz carne.Ainda acho que as construcções humanas são tão impossíveis quanto seus donos. Filhos doentes como esse que trago em meu peito.

Oh, benedicta codeína...

Esfumaço-me agora. 1,2, 3...Já!

*E não me perdôo por esse post sumamente ridículo

Escrito por A menina do lado às 04h16
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