Vexando-me


25/02/2006


Um peixe!!!

Das vantagens de ser um peixe...Um peixe!!! Em suas 3 versões(portuguesa, castelhana e o poema de Eugénio de Andrade que foi inspirador dos versos mais nonsense que já pude ver como declaração de amor. Porque a vida é engraçada...:)

 

Borbulhas de amor

Tenho um coração
Dividido entre a esperança e a razão
Tenho um coração
Bem melhor que não tivera

Esse coração
Não consegue se conter ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura
Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te
Encantar
Passar a noite em claro, dentro de ti
Um peixe, para enfeitar de corais tua
Cintura, fazer silhuetas de amor à luz
Da lua, saciar essa loucura
Dentro de ti

Canta coração
Que esta alma necessita de ilusão
Sonha coração
Não te enchas de amargura

Esse coração
Não consegue se conter ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura
Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te
Encantar
Passar a noite em claro, dentro de ti
Um peixe, para enfeitar de corais tua
Cintura, fazer silhuetas de amor à luz
Da lua, saciar essa loucura
Dentro de ti

Uma noite para unir-nos até o
Fim
Cara-cara beijo a beijo
E viver
Para sempre
Dentro de ti
Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te
Encantar
Passar a noite em claro, dentro de ti
Um peixe, para enfeitar de corais tua
Cintura, fazer silhuetas de amor à luz
Da lua, saciar essa loucura
Dentro de ti
Para sempre

 

 

Burbujas de amor

 

JUAN LUIS GUERRA 

Tengo un corazón 
Mutilado de esperanza y de razón, 
Tengo un corazón 
Que madruga adonde quiera 
¡ayayayay! 

Y ese corazón 
Se desnuda de impaciencia ante tu voz, 
Pobre corazón 
Que no atrapa su cordura. 

Quisiera ser un pez 
Para tocar mi nariz 
En tu pecera 
Y hacer burbujas de amor 
Por donde quiera, 
¡oh! pasar la noche en vela 
Mojado en ti 

Un pez 
Para bordar de corales tu cintura 
Y hacer siluetas de amor 
Bajo la luna, 
¡oh! saciar esta locura 
Mojado en ti. 

Canta corazón 
Con un ancla imprescindible de ilusión, 
Sueña corazón, 
No te nubles de amargura, 
¡ayayayay! 

Y este corazón 
Se desnuda de impaciencia ante tu voz, 
Pobre corazón 
Que no atrapa su cordura. 
Quisiera ser un pez 
Para tocar mi nariz 
En tu pecera 
Y hacer burbujas de amor 
Por donde quiera, 
¡oh! pasar la noche en vela 
Mojado en ti. 

Un pez 
Para bordar de corales tu cintura, 
Y hacer siluetas de amor 
Bajo la luna, 
¡oh! saciar esta locura 
Mojado en ti. 

Una noche para hundirnos 
Hasta el fin, 
Cara a cara, beso a beso, 
Y vivir 
Por siempre mojado en ti. 

Quisiera ser un pez 
Para tocar mi nariz 
En tu pecera 
Y hacer burbujas de amor 
Por donde quiera, 
¡oh! pasar la noche en vela 
Mojado en ti 

Un pez 
Para bordar de cayenas tu cintura, 
Y hacer siluetas de amor 
Bajo la luna, 
¡oh! saciar esta locura 
Mojado en ti. 

Para tocar mi nariz 
En tu pecera 
Y hacer burbujas de amor 
Por donde quiera, 
¡oh! pasar la noche en vela 
Mojado en ti. 

Un pez 
Para bordar de cayenas tu cintura 
Y hacer siluetas de amor 
Bajo la luna, 
¡oh! saciar esta locura 
Mojado en ti. 

Queria ser um peixe 
Para tocar a ponta de meu nariz em seu aquário 
E fazer borbulhas de amor 
Por onde eu vá, 
Oh, passar a noite em claro, 
Mergulhado em você. 


 

E a inspiração...

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio.Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,gastámos as mãos à força de as apertarmos,gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;era como se todas as coisas fossem minhas:quanto mais te dava mais tinha para te dar.Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.E eu acreditava.Acreditava,porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,era no tempo em que o teu corpo era um aquário,era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco mas é verdade,uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.Quando agora digo: meu amor,já não se passa absolutamente nada.E no entanto, antes das palavras gastas,tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.Dentro de ti não há nada que me peça água.O passado é inútil como um trapo.E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."

Eugénio de Andrade

Escrito por A menina do lado às 22h26
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Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu
tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
guardar só o que é bom de guardar...

Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar...

Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei...

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve pra longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só...

Eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar...

Escrito por A menina do lado às 21h43
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Sodomita

Levezas, curas?? Também quero flamas. Andar como a tempestade. Com cálices. Derramando ventos. Derramando chuvas. Revoltando as paisagens. Ter em mim um apocalipse temporário. Cavaleira. E depois, espalhar bolhas de sabão por aí. Dessas crcunspectas e frágeis que nos dão dó tanto quanto as flores. Essas que voam até estourarem em algum lugar do céu, como se o belo e o livre fossem coisas a serem desfeitas. Talvez por isso tudo que eu tricote ou crochete, eu desfaço. Como se houvesse tempo agora para empregar minhas mãos em qualquer bordado que eu tivesse o prazer de desfazer depois.

Mas bem que eu queria agoura loucuras sem remissão. Ir além dos pecados veniais. Causar ira aos Deuses. Vejam, que força. Ar sodomita.  Olhar de desavença antes da punição da estátua de sal. De todo modo, que somos nós além de pedras de sal ao mar? Se amo essa eternidade breve( a pedra de sal se desfazendo), porque não haveria de olhar pra trás?

Eu sou a que olha para trás. Que me desfaça depois. Não importa. Eu pude olhar para trás. Ver Sodoma destruída.

Escrito por A menina do lado às 09h55
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Per aí...

Irei per aí buscando objetos de desejo. Em cada olhar, minhas mãos de Midas criando Deuses. De algum modo, o toque hábeis mãos, mãos amáveis, emolduram de valor o corpo, configurando cura.

Pudesse haver as mansas mãos que curam e que envaidecem.

Ao passeio(E lembranças d'outros carnavais. Esse ano fui Penélope Charmosa. Penélope Charmosa no trabalho, pode?)

Beijos banais.

Escrito por A menina do lado às 09h43
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Resíduos

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
vazio   de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
(Carlos Drummond de Andrade)

Escrito por A menina do lado às 09h39
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23/02/2006


Do que passou, ficando

Do que quebrei, ficando. Mesmo o que quebra,fica. O que passa, fica. Je suis desolée...Minha memória chora. Porque já chorei. Porque já amei . Porque todo adeus é tão triste quando sei que houve e que por ter havido não vai embora...Mãos que dizem adeus são pássaros que vão morrendo lentamente.

Quebramos os Dois

"Era eu a convencer-te que gostas de mim
e tu a convenceres-te que não é bem assim...
Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro
e tu a argumentares os teus inevitáveis

Eras tu a dançares em pleno dia
e eu encostado como quem não vê
Eras tu a falar para esconder a saudade
e eu a esconder-me do que não se dizia

... afinal quebramos os dois...

Desviando os olhos por sentir a verdade
juravas a certeza da mentira
mas sem queimar demais
sem querer extinguir o que já se sabia

Eu fugia do toque como do cheiro
por saber que era o fim da roupa vestida
que inventara no meio do escuro onde estava
por ver o desespero na cor que trazias...

... afinal quebramos os dois...

Era eu a despir-te do que era pequeno
e tu a puxares-me para um lado mais perto
onde contamos histórias que nos atam
ao silêncio dos lábios que nos mata...!

Eras tu a ficar por não saberes partir...
e eu a rezar para que desaparecesses...
Era eu a rezar para que ficasses...
e tu a ficares enquanto saías.... não nos tocamos enquanto saías.
não nos tocamos enquanto saímos.
não nos tocamos e vamos fugindo
porque quebramos como crianças

...afinal quebramos os dois...

...e é quase pecado o que se deixa......

quase pecado o que se ignora..."

Toranja

Escrito por A menina do lado às 22h11
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Será que estou a desejar um mundo pequeno, meu, conhecido, que se proste diante de mim, onde nele possa reinar despoticamente, realizando ânsias infanis egotistas, desejando segurança uterina? Será que saí dessa fase aborrecente? Que já caí, levantei, caí, não levantei, caí sem poder chorar até(porque acho até prazeroso cair) e até levitei?

Acho que prefiro vales e balir de sinos...Tocando meu rebanho.

Escrito por A menina do lado às 22h03
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Mais que palavra, desejava agoura a intimidade do silêncio. Partilhar mais do que palavras, partilhar o silêncio. O silêncio que fica, que permanece.O silêncio de denúncia de cumplicidade. O silêncio que é verdade que não ai embora, que não se pode desdizer. A verdade dos silêncios partilhados dos que já se amaram. A dádiva do silêncio partilhado dos que se amam. Essa verdade que não se desfaz.

Escrito por A menina do lado às 21h58
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Prosas de fim de tarde

Gostava ver pôr-do-sol. Sem palmas. A natureza não me embevece ao ponto de me cegar de felicidade. Mas a beleza comove.A natureza é a beleza macambúzia. É beleza sorumbática, por mais plena e potente que possa parecer. Mas é justamente a impotência dessa potência que me constrange.

Hoje o põr-do-sol foi visto pela janela. É arrasador. Fechei os olhos. Aquela potência se enfraquecendo no firmamento, as nuvens coaguladas, querendo sangrar. Essa imagem vai se enfraquecendo assim como a tua imagem vai se desfazendo em minha mente, acordando-me para outra realidade, uma mais abominável, em que digo regelada. O sol se pondo " Um momento, cliente".

Escrito por A menina do lado às 21h51
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"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre..."

Miguel Sousa Tavares

Escrito por A menina do lado às 19h20
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Voze triste

I'll be seeing you

I’ll be seeing you;
In all the old, familiar places;
That this heart of mine embraces;
All day through.
In that small cafe;
The park across the way;
The children’s carousel;
The chestnut tree;
The wishing well.
I’ll be seeing you;
In every lovely, summer’s day;
And everything that’s bright and gay;
I’ll always think of you that way;
I’ll find you in the morning sun;
And when the night is new;
I’ll be looking at the moon;
But I’ll be seeing you.
 
 
Essa Billie-trágica e dopada, agrada-me. Na voz dela, por favor.

Escrito por A menina do lado às 19h15
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21/02/2006


"O que me faz escrever, imagino eu, é o receio de enlouquecer"

Georges Bataille

Escrito por A menina do lado às 22h56
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20/02/2006


O lamento d'Arianna

Lasciatemi Morire

Lasciatemi morire, lasciatemi morire
E chi volete che mi conforte
In così gran dura sorte?
In così gran martire?
Lasciatemi morire, lasciatemi morire
E chi volete che mi conforte?

Por vezes sou como Ariadne em minha ilha, solitária. Depois do grande sacrifício, da grande doação, só ter aos braços os próprios joelhos. Cansam-se os heróis, esses hércules-quasímodos a quem damos os labirintos, mas também o fio que os guiará.No fim, o nada se faz solene. As lembranças como coisas doidas. Conceitos vãos de justiça. Faz-se o sabor amargo do que se gasta.Mas o cansaço é como o tempo. Chronos, aquele que tudo devora, nos vêm falar que o que desbota é acompanhado de cores vivas. Há o incessante renovar de águas, um ciclo interminável de nascimento e morte. Que há volubilidades e leviandades e o indizível desejo humano, porém, que não conseguimos evitar?Torço para que me seja leve, que me seja suportável...Quando foi que a justiça foi além do ethos humano?

O amor não é justo. Tampouco o ódio. Doar, sacrificar, abster-se, vigorar para ter o abandono em troco.

Não me perguntem porque simpatizo com damas trágicas.

 

Só Monteverdi me consola...

 

Deixe-me morrer

Deixe-me morrer, deixe-me morrer
Porque você quer me consolar?
Em tão amarga sorte?
Em tão grande martírio?
Deixe-me morrer, deixe-me morrer
Porque você quer me consolar?
Em tão amarga sorte?
Em tão grande martírio?
Deixe-me morrer, deixe-me morrer

 


In cosi gran dura sorte?
In cosi gran martire?
Lasciatemi morire, lasciatemi morire

Escrito por A menina do lado às 18h34
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Miserere

O quam suavis est, dulcis amor, spiritus tuus...Veni, amor divinis, et tange et faucia cor meum amoris tui iaculo. O forititudo fragilium, sydus navigatium. Tu es anima pectore mei

Escrito por A menina do lado às 17h05
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19/02/2006


Há algo como flâmula que me impede o sono. Algo que não se diz. Algo que se balbucia baixo como o talho dum segredo.Algo que me põe contra a parede e que me faz na boca um salobro de água, que cai cadenciada.Quente. Recostada na parede quente.Tudo imenso e quente. O que uma vez chamei de hediondo sufocamento. O outono quando chega, oh, é tão quente...Pudesse estar buscando conchas numa praia.Pudesse manhar de sol se fazendo novamente como a aspiração do pão fresco. O cantar de pintassilgos. Ternura. As conchas feitas de apego, de paixão. A volúpia de enumerar as conchas e de nelas ouvir o mar e nelas procurar o mar. E de construir castelos de areia. Os castelos de areia contra a maresia. O enfrentar das ondas. O esperar de seus beijos. O encantar com as espumas. Mas tudo o que sou agora é saudade e desapego. É hora-amarga- da saudade de quando se era jovem, e apaixonada e espirituosa. É hora dos fantasmas. É hora de sentir a alma envelhecendo ante as segundas-feiras.

Boa noite.

Escrito por A menina do lado às 00h37
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"Há homens que têm dentro de si um fogo tão ardente, e ninguém quer vir aquecer-se nele"

Vincent a Theo [Van Gogh]

Escrito por A menina do lado às 23h03
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Em mim há palavras como rosas mortas. Minhas palavras são uma árabe a esperar no deserto. Minha palavra é a agonia da paciência. É o suspiro da esperança. Minhas palavras são como cobertas. E como sol que açoita a pele. Minhas palavras são aquilo que não vem.Minhas palavras são adagas que violam. Minhas palavras são o norte. E são a carta numa garrafa jogada ao mar. Minhas palavras são como corredores. São como labirintos. E portas fechadas. São como o lento caminhar. Minhas palavras são as aprendizagens dolorosas.  Minhas palavras são como mãos desapegadas. E como corpos doendo de solidão. Minhas palavras são o veludo pálido que imaginei ser tua pele. Minhas palavras são o teu sono frágil que não pude tocar. Minhas palavras são a tua ausência. São a tua presença depois de uma noite chuva. Minhas palavras são a sensação úmida de tua chegada. Minhas palavras são a linguagem dos meus olhos negros. Minhas palavras são a canção que já embalou algum coração. Minhas palavras são o abandono que já dilacerou. Minhas palavras são como a areia que se esvai. Minhas palavras são a criança que envelhece. Minhas palavras são como a deusa parteira que traz morte aos homens. Minhas palavras são como as velhas construções que desabaram. E são como o cimento fresco e cal das mãos dos homens. Minhas palavras são homens. Minhas palavras ferem como os homens. Dormem como amantes cansados. Minhas palavras são as horas- que passam. Minhas palavras são o sussurro daquilo que passa. E daquilo que vem. Minhas palavras são segredos. E são delações.Minhas palavras são as noites gemebundas. Minhas palavras são nós na garganta. São sensações indigestas. Minhas palavras são barcos, e são paragens. Minhas palavras são o coração de um marinheiro. Minhas palavras são pequenas. E outras, tão grandes e difíceis. Minhas palavras ante o ensurdecimento. Essas minhas palavras tão feitas de silêncio...

Escrito por A menina do lado às 22h57
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O Nilo

 

Um amante assim nunca houve, que tanto faz sonhar minhas mãos. A carícia dos gestos de mui, mui longe. O olhar de como quem vem de mui, mui longe. O olhar,  o olhar líquido, fundo, feito cão perdido, olhar que despe e se faz paisagem. Rei dos pomares, dos vales  mãos de Midas, dono dos corpos que toca. A rasgar minha carne nômade e a fazer chorar minhas entranhas. O senhor do vinho e dos êxtases.  Eu lho digo: O quão terríveis podem ser os labirintos. Qual o caminho do desaguar do Nilo?

Escrito por A menina do lado às 22h19
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Le chemin

Passeio durante a tarde. Pela estrada afora, duas tranças, um pirulito, perfume de amor amor. O ar úmido,  fazendo um tanto de frio. E vento. Oh, vento a levantar minha saia...Caminhar, caminhar a esmo. Vendo ameixas tingindo o chão de vermelho, as folhas amarelas molhadas no chão, como num quadro de Van Gogh. Sorrindo para as pessoas nas ruas. A vida sorrindo. Um sorriso largo. Deu-me uma vontade incontrolável, desesperada. Uma descomunal vontade de viver. Contra toda minha dor de cabeça. Contra as "metas". Os cães vadios me acompanhando. Passarinhos me perseguindo. “A encantadora de abelhas”, disseram-me. Abecla, abelha...Lembrar que nisso houve um fenômeno de palatização, suavização. Está tudo intenso e suave...

Chegar em casa, ouvir aquela canção francesa...Cantarolar "La bohème", por que não? Sentir que o sol abandonou o meu corpo. Que se desfez o cansaço. Ardida apenas por dentro. Aridida em lira. E sentir a profusa fragrância adocicada das mangas. Mangas coité. Um cheiro entontecendo tudo. Mangas por todos os lados, até enjoar. Vontade de comê-las, lambuzar-me com elas. Vontade de cozinhar. Algo gostoso. Algo a ser partilhado. Pão e poesia. Dar poesia ao pão. Partilha-lo com alegria. Bater os pés num dabke.

Escrito por A menina do lado às 21h49
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Une chanson

A Woman's Life and Love

Andrew Bird

 

Since I first saw him, I think myself blind
I look around me, and it's only him I see
His image floats before me,
So gentle and so kind, he has got a clear mind and firm courage
o ring upon my finger, little golden ring
devoutly I press you to my lips and to my heart
sisters come adorn me, banish foolish fear
twine upon my furrowed brow
the blossoming myrtle
I serve him and live for him
Belong wholly to him
Give myself and find myself transfigured by his brightness
Ring upon my finger, little golden ring
Devoutly I press you to my lips and to my heart
The blissful dream of childhood has ended
Now I drink delicious death with you my love
Now you have me caused me my first pain … that really hurt.
You sleep, you hard cruel man, the sleep of death
The veil falls, the bell tolls, the black shawls, the carriage rolls
You, my whole world

Desde a primeira vez que o vi, fiquei cega.

Olhei em volta, e via apenas ele.

Sua imagem flutuava diante de mim

Tão gentil e tão doce, ele tinha uma mente clara e coragem

um anel em meu dedo... pequeno anel de ouro.

Devotamente, o pressionei contra meus lábios e contra meu coração.

As irmãs vêm me enfeitar, banir o medo tolo

Eu o servi, vivi por ele

Pertenci a ele. Completamente

Me dei, e me encontrei transfigurada por seu brilho.

O doce sonho da infância acabou

Agora, eu bebo esta deliciosa morte com você, meu amor.

Agora que você me tem, me causou minha primeira dor. Realmente dói.

Você dormiu, cruelmente, o sono da morte.

O véu caiu, o sino soou, o xale preto, a carruagem anda.

Você, meu mundo.

Escrito por A menina do lado às 19h20
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O beijo do dia

"Hoje é domingo, pé de cachimbo"

Hoje acordei depois de sono que eu gostaria(muito) que tivesse sido reparador. Um domingo todo pra mim. A prenda de um dia em que o corpo traz em si o embaraço do cansaço. A preguiça é algo gostoso de reter. Dá-me vontade de economizar os segundos. Depois dele uma semana que me será quase imperceptível, tamanha a sisudez e parecença de suas horas úteis e cansadas, em que vivo para o agradar de outrem. Esse outrem a quem não quero bem. Pois que se uma mãe gasta suas horas a velar e nutrir um filho há algo de mágico em suas veias que a consola-um pouco- que toda desistência, todo abandono é doloroso.

 Mas preparei meu corpo para alguma bênção. A chuva rara caindo. Um convite para um ébrio passeio. Desses soilitários(mui dignos de minhas aspirações simples, essa "simplicidade superiora", alguns podem pensar). Lembrando daquele música de infância "que os anos não trazem mais". O domingo pé de cachimbo.Auerbach na cabeça. As versões da historiografia antiga. As formas de realidade e a estética no relato histórico. A ironia dum Tácito. Os espaços brancos periculosos dos judeus com suas frases pretensamente enigmáticas e universais. Penso se a análise de um texto é algo além de íntimo e fortuito. Si, si. Algo é possível de definir. Mas o mais importante, isso fica no insolúvel, para nossa poética desgraça. Aí fico, no domingo, entre o pão e a poesia.

Não há sol e a lembrança dele, que grácil, faz-me sorrir. Gostarei de mim o bastante para receber a coberta das chuvas, esse beijo das águas? O agudo olhar das pedras...Caminhar na minha ilha. Essa ilha feita de ausências, de saudade. Esse tesouro escondido cá dentro. Só meu, só meu. Como a mulher que toca mudamente um rebanho. Lento subir e descer de monatnhas. O balir afásico dos sinos. Tudo o que tenho-tudo- eu repito, é este balir afásico que só meus ouvidos concebem. O resto é se perder por aí.

Dizem que das águas faz-se um baptismo. Que das águas rebenta uma purificação. Mas amo a marca de meus pecados. Assi como amo a sensação impoluta. Fico com essas duas marcas no meu corpo. Tomei o banho de chuva, sacra e profana, o balir de meu rebanho-essa cruz, esse contínuo rolar de pedra abaixo-por música. Lembrando de marchinhas de carnaval que têm por única graça serem coisas mortas. Esse meu quieto amor por cousas mortas.E olho nas poças d'água o reflexo. E os espelhos são tão simples. Mas que é tão difícil enquanto houver minha imagem nele e  longe longe qualquer coisa que me traga e surrupia como uma Yara com seu canto indizível. Oh, o espelho pode ser tão doído quando não se cabe nesse mundo, quando há desejos sem nome, sem finitude...

Mas me despeço aqui para o pequeno almoço e depois, quem sabe, para um segundo passeio(Oiço o balir dos sinos). Quiçá lhes digo.

Escrito por A menina do lado às 12h40
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