Vexando-me


01/04/2006


Dos contrastes

O meu apelo de ave ferida é não ter que dar um triste aceno, o aceno de uma mão que diz adeus é um veneno...

Minha voz de queixa é que as mãos segurem, e não ensaiem uma deus. É que haja marca de brasa nas mãos, é que haja certo destino em suas linhas.

Meu apelo de ave ferida , é ,neste momento, solitário e amantissimo...É uma busca já cansada de bálsamo, de alento. É o cansaço cansaço cansaço de descaminhos. É certeza, que às vezes acho vã, por mais obstinada q eu seja, que o homem é peregrino. É, ante tudo isso, ser frágil demais, desejar um ninho, aquela paz de braços abertos, da voz de um amante a escorrer dentro de mim como um vinho. Mas só há o reino das frases desencontradas.

Só músicas a invandir minha alma agora, como flechas. O universo ecoando melodias. Canções. Essas para ninar. Feitas para inundar os corações, para se crisparem os olhos.Meus olhos ora esfumaçando, ora clareando tudo. Devo sobrecarregar os ventos com olhares perdidos, com vozes aflitas. De algum modo, a paisagem me concede um canto. Só ele, meus olhos, o vento, minha única verdade na noite perdida em que se embaçam minhas sensações. "Que Deus se ocupe do vento". As palavras se perdem no vento, à deriva, em descompasso.Vão ao encontro do esquecimento, ou vão ao encontro do objeto percurado.

 

metade
adriana calcanhoto
 
eu perco o chão
eu não acho as palavras
eu ando tão triste
eu ando pela sala
eu perco a hora
eu chego no fim
eu deixo a porta aberta
eu não moro mais em mim
 
eu perco a chave de casa
eu perco o freio
estou em milhares de cacos
eu estou ao meio
onde será que você está
agora?

Escrito por A menina do lado às 19h44
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"...o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."
(Clarice Lispector)

Escrito por A menina do lado às 18h30
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Tenho Fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
Fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases ,como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu..."
(Cecília Meireles)

Escrito por A menina do lado às 18h30
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Minha alma é muito pequena, é o que tento lhes dizer. Não se deixa entrever em nenhum espasmo. Nenhuma de suas manifestações merece ser lida. Trazê-la talvez nalguma marca do rosto me envergonha. Talvez um pedaço dela apareça, mas não desejo. É como se se fizesse em mim uma sobrevida que não me agrada. Eu prefiro antes a isso um rompante de silêncio. Mesmo um silêncio feito de muitas palavras. Um pedaço de mim sujeito a uma leitura mal-feita eu sobremaneira não desejo. Mas é que sou humana, e tal leitura me parece traçada.

Eu poderia, contudo, lhes falar dessa gritante vontade de anulação que é a maior prova de amor que posso me dar. Elas, as palavras, eu deixo que corram em grande quantidade. Uma água violenta, uma correnteza.Gosto que essa extravagância seja cortante, que impossibilite qualquer leitura. Gosto de causar um choque supino a quem me ouve. Gosto de ver a face desconcertada. O ar de reprovação, a timidez que mais parece uma convalescença. Gosto da desistência que se segue à expressão retesada.

Porque minha alma não existe. Está em algum lugar que não compreendo, intimamente guardada. Ela é uma torrente, um suplício que não pode ser afagado, não pode ser velado. Minha alma tem o porte doloroso daquilo que não pode ser olhado.

Por vezes, porém, meu rosto é algo abrilhantado. Algo que vai além da graça infantil, além de uma serenidade agradável. Por vezes tenho algo que atrai. Mas gosto de afastar, de ser despercebida.  Não gosto que minha alma doure o meu corpo, que avive meus olhos, ou que os atormente de um modo sedutor. Não gosto que vejam meu sorriso açucarado. Ou cruel. Quero que ele seja banal. Eu quero a banalidade pra que não tenha de sofrer por ser  levianamente descoberta. Eu gosto do meu véu que nunca ninguém se interessou em tirar. Algumas pessoas possuem véus invioláveis, porque simplesmente há algo a ser olhado. Mas, se por acaso mui levemente me espiam, eu sou um feixe destemperado. Alguma realidade demasiado convulsa. Provavelmente risonha, como tudo que nos parece babélico, estrangeiro. Gosto de ser como o neres de neres. E sentir que em mim habita o princípio do terrível. E que existo, poeticamente demais, impassível, não podendo ser resgatada em qualquer interpretação. Pq, afinal, as pessoas não gostam de ler. .

Mas, que infernal. Olhares vulgares sobre mim. Olhares, por vezes, de algum estranho desejo. Por fim descobrirem que em mim habita um desejo. Trago desejo no corpo. Seja o meu, seja o desperto. Mas rio-me. Rio-me das curiosidades vulgares, os olhares rápidos, vazios, alheios a quaisquer sensações que não a dos instintos. Em que mentes devo povoar, vulgarmente? Isso me enfada. Enfadam-me os olhares vulgares. Eu prefiro não padecer de olhares tão vazios. Antes ser sumamente invisível. E olho, eu olho, com interesse, esse insultoso olhar desavisado sobre algo que não deve ser olhado. Vítima desse olhar, eu me puno. E, porventura, se por eles sucumbo, é por punição de não ser inteira. E tenho o prazer de me sentir absurda, incompleta, partida. Sinto-me metade. Porque não existe olhar que nos faça inteiros. O homem lida com duas certezas instransponíveis: sua finitude e sua solidão. Só no alto da consciência dessas limitações é q ele se faz, por fim, homem. Por isso,eu, do alto de minha pequenez orgulhosa, não devo ser olhada. Porque minha alma é grande, por isso deve ser pequena e íntima, resguardada. Não gosto de ser metade e que vejam completude nessa coisa partida.

Amam-me, em profundo desconhecimento. Amo, desconhecendo. Amo porque, enfim, o amor é algo que deve ser aspirado, não conhecido. Também eu cometo crimes.Crimes de amor. Crimes de leituras mal-feitas, crimes de tão-somente me lançar inteira ao objeto amado, esse desconhecido, que tem mais de mim do que de si. Por isso o amor é sempre ânsia, sempre náusea, sempre busca de si. Busca de si em outrem, pois, digo-me: Também não nos conhecemos. O amor, é, enfim, um sobressalto, um desespero, uma busca de ser inteiro.

Mas, eis-me, rosto escondido. Porque, por fim, carrego esse destino indócil, essa clausura:Existo, expondo-me. Carrego esse deserto com um obstinação estranha,  e viaja comigo a exigência de minha alma desabitada. Essa alma entrecortada pelo silêncio, pela verborragia, pelo ligeiro. A alma sombreada. Sou uma sombra, e um corpo trêmulo, a querer se dar. O consolo de minha metade tão olhada, e de minha busca de outra metade tão ansiada, e tudo isso, por vezes, tão sem valor.

Mas eu ainda queria, enfim, o nada. Apraz-me o nada, em vez das metades desoladas.Que o nada me sorria, vasto. E que o tudo que eu seja, só eu possa um dia conceber.

Mas carrego, velada, meu destino.

Escrito por A menina do lado às 18h29
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31/03/2006


Beleza

Escrito por A menina do lado às 20h27
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Sobre a ausência

Preciso lhes explicar que o cansaço e a tristeza geram silêncio. Não estranhem o silêncio cadenciado desse blogue. Mas compreendam a profunda comunicação guardada nessa não manifestação. Deixo muito mais de mim no meu silêncio. Nele existo mui  mais intensamente. Fala-vos isso em uma lan house. É difícil a produção de qualquer frase. Contudo...

Si, os dias andam uma tortura. Creio que em dias melhores, em dias que me pertençam, quiçá eu possa lhes contar, distante, tenuemente diluida, sobre esses dias de escuridão e sol frequentes. Mas posso lhes dizer, de antemão, que é penosamente corajoso enfrentar certas misérias. Não sei se me orgulho de ser essa realidade de  ora uma flor desértica, dessas de resistência admirável(mas tb bestial), ora tão-somente uma inscrição na areia. Lembrando que são tão belas, as inscrições na areia, enqto não se destroem.

 

No espelho, inda mais forte, a fragilidade evidente...a sensação da face destruída...A sensação de envelhecimento que o conhecimento nos traz. Como diz Trakl, conhecer é doloroso, aproxima-nos da morte.

Mas há sempre noites com sol, inda sou a dama aflita na janela, aquela que revira os céus. A que revolta as paisagens. Santas bênçãos do olhar.

Cantar é sobremodo ser. E, assim sendo, eu canto.

Escrito por A menina do lado às 20h17
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28/03/2006


Adoro-te com esse olhos não vistos
Almejo-te com este fogo a queimar, ao léu
Existo ante teu abandono
Persisto, em meio à inclemência do mundo
Mas tu, oh tu...
Leva-me contigo
Leva-me com teu esquecimento

Escrito por A menina do lado às 22h11
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