Minha alma é muito pequena, é o que tento lhes dizer. Não se deixa entrever em nenhum espasmo. Nenhuma de suas manifestações merece ser lida. Trazê-la talvez nalguma marca do rosto me envergonha. Talvez um pedaço dela apareça, mas não desejo. É como se se fizesse em mim uma sobrevida que não me agrada. Eu prefiro antes a isso um rompante de silêncio. Mesmo um silêncio feito de muitas palavras. Um pedaço de mim sujeito a uma leitura mal-feita eu sobremaneira não desejo. Mas é que sou humana, e tal leitura me parece traçada.
Eu poderia, contudo, lhes falar dessa gritante vontade de anulação que é a maior prova de amor que posso me dar. Elas, as palavras, eu deixo que corram em grande quantidade. Uma água violenta, uma correnteza.Gosto que essa extravagância seja cortante, que impossibilite qualquer leitura. Gosto de causar um choque supino a quem me ouve. Gosto de ver a face desconcertada. O ar de reprovação, a timidez que mais parece uma convalescença. Gosto da desistência que se segue à expressão retesada.
Porque minha alma não existe. Está em algum lugar que não compreendo, intimamente guardada. Ela é uma torrente, um suplício que não pode ser afagado, não pode ser velado. Minha alma tem o porte doloroso daquilo que não pode ser olhado.
Por vezes, porém, meu rosto é algo abrilhantado. Algo que vai além da graça infantil, além de uma serenidade agradável. Por vezes tenho algo que atrai. Mas gosto de afastar, de ser despercebida. Não gosto que minha alma doure o meu corpo, que avive meus olhos, ou que os atormente de um modo sedutor. Não gosto que vejam meu sorriso açucarado. Ou cruel. Quero que ele seja banal. Eu quero a banalidade pra que não tenha de sofrer por ser levianamente descoberta. Eu gosto do meu véu que nunca ninguém se interessou em tirar. Algumas pessoas possuem véus invioláveis, porque simplesmente há algo a ser olhado. Mas, se por acaso mui levemente me espiam, eu sou um feixe destemperado. Alguma realidade demasiado convulsa. Provavelmente risonha, como tudo que nos parece babélico, estrangeiro. Gosto de ser como o neres de neres. E sentir que em mim habita o princípio do terrível. E que existo, poeticamente demais, impassível, não podendo ser resgatada em qualquer interpretação. Pq, afinal, as pessoas não gostam de ler. .
Mas, que infernal. Olhares vulgares sobre mim. Olhares, por vezes, de algum estranho desejo. Por fim descobrirem que em mim habita um desejo. Trago desejo no corpo. Seja o meu, seja o desperto. Mas rio-me. Rio-me das curiosidades vulgares, os olhares rápidos, vazios, alheios a quaisquer sensações que não a dos instintos. Em que mentes devo povoar, vulgarmente? Isso me enfada. Enfadam-me os olhares vulgares. Eu prefiro não padecer de olhares tão vazios. Antes ser sumamente invisível. E olho, eu olho, com interesse, esse insultoso olhar desavisado sobre algo que não deve ser olhado. Vítima desse olhar, eu me puno. E, porventura, se por eles sucumbo, é por punição de não ser inteira. E tenho o prazer de me sentir absurda, incompleta, partida. Sinto-me metade. Porque não existe olhar que nos faça inteiros. O homem lida com duas certezas instransponíveis: sua finitude e sua solidão. Só no alto da consciência dessas limitações é q ele se faz, por fim, homem. Por isso,eu, do alto de minha pequenez orgulhosa, não devo ser olhada. Porque minha alma é grande, por isso deve ser pequena e íntima, resguardada. Não gosto de ser metade e que vejam completude nessa coisa partida.
Amam-me, em profundo desconhecimento. Amo, desconhecendo. Amo porque, enfim, o amor é algo que deve ser aspirado, não conhecido. Também eu cometo crimes.Crimes de amor. Crimes de leituras mal-feitas, crimes de tão-somente me lançar inteira ao objeto amado, esse desconhecido, que tem mais de mim do que de si. Por isso o amor é sempre ânsia, sempre náusea, sempre busca de si. Busca de si em outrem, pois, digo-me: Também não nos conhecemos. O amor, é, enfim, um sobressalto, um desespero, uma busca de ser inteiro.
Mas, eis-me, rosto escondido. Porque, por fim, carrego esse destino indócil, essa clausura:Existo, expondo-me. Carrego esse deserto com um obstinação estranha, e viaja comigo a exigência de minha alma desabitada. Essa alma entrecortada pelo silêncio, pela verborragia, pelo ligeiro. A alma sombreada. Sou uma sombra, e um corpo trêmulo, a querer se dar. O consolo de minha metade tão olhada, e de minha busca de outra metade tão ansiada, e tudo isso, por vezes, tão sem valor.
Mas eu ainda queria, enfim, o nada. Apraz-me o nada, em vez das metades desoladas.Que o nada me sorria, vasto. E que o tudo que eu seja, só eu possa um dia conceber.
Mas carrego, velada, meu destino.