Vexando-me


02/04/2006


 

"Quando eu não te tinha
Amava a natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor –
Tu não me tiraste a natureza...
Tu mudaste a natureza...
Trouxeste-me a natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou."
 
(Alberto Caeiro)

Escrito por A menina do lado às 00h17
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nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

 

(Escrever-me, Mia Couto)

Escrito por A menina do lado às 00h07
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01/04/2006


Queria lho dizer...

...que tu ainda és uma flama, ainda és um incêndio nas estrelas...Ainda me iluminas, com disforme harmonia, com ébria loucura, ainda me fascinas. Ainda é o repasto, a iguaria, que sacia minha fome. Ainda és, na verdade, o objeto ansiado, nunca saciado...Ainda és, em verdade, o dono de minhas tempestades, ainda és o que se reflete ao meu espelho, ainda és a ausência que sinto em minhas mãos vazias, ainda és o sol,quando nasce, ainda és a neblina, na partida...Ainda és o desejo de chuva, quando esta cai sobre meu corpo. Ainda desejo que tu caias, como água, em mim. Ainda és minha canção magoada, ainda és uma força pulsante na correnteza de meu sangue...Ainda és aquele que habita nas brisas, és ainda a fúria dos ventos, és ainda a placidez de um lago. Ainda és aquele que encontro, quando me diluo em certas paisagens. Ainda é o teu ser que encontro quando tento achar o meu. Ainda és tu por quem espero, amarga...Ainda és tu que me provoca palavras perdidas, que me provoca soluços, que me provoca saudades. Ainda és tu, que causa-me medo com tudo o que não dizes, e que me causa medo, com tudo o que dizes... Ainda és tu, verdade incompreendida, verdade a ser aspirada...Ainda és minha reconstrução, ainda és minha descrença...Ainda é a tua mão que me foi dada num deserto. Ainda és aquele que torna meu corpo apartado, sem sentido, quandp tu te afastas.

 

Tanto, tanto queria te dizer...Mas é que tu, tu nem me perguntas...

Escrito por A menina do lado às 23h57
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Raiz de Orvalho - Mia Couto
 
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno

Escrito por A menina do lado às 23h44
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Sobre dizer adeus

Não sei dizer adeus. Não consigo, em vida, dar morte. Acho que a morte é para os mortos. Mas em vida, morremos um pouco alhures, morremos um pouco nalgures. É algo triste de ser concebido. Acho que só os mortos conseguem morrer sem dor. Eu lhes digo: é doloroso morrer em vida. Doloroso o aceno de adeus. Dolorosas as folhas que matei, num rasgo. Obsceno, o esquecimento, esse prenúncio de morte.

Dizem que certos adeuses trazem sossego. Que  certas coisas devem ser abandonadas no caminho, devem ser esmagadas, pra que não pesem. Pra que não impeçam o viver. Que é necessário dar morte para poder viver.

 

Mas eu não sei dizer adeus.  Eu já sou uma cicatriz viva, inteira, já sou uma ferida, porque tudo em mim fica, tudo em mim fica nem que seja como cicatriz.

Escrito por A menina do lado às 23h41
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Pra quando vc voltar...

Jacques Prevert
ESTE AMOR
 
Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo
Quando há mau tempo
Este amor tão sincero
Este amor tão calmo e sereno
Tão feliz
Tão jovial
E tão pobre
Trêmulo como uma fagulha na escuridão
E tão seguro de si mesmo
Como um homem tranqüilo no mais fundo da noite
Este amor que assusta os demais
Que os faz falar
Que os faz empalidecer
Este amor vigiado
Porque nós o vigiamos
Acossado ferido pisoteado destroçado negado olvidado
Porque nós o acossamos ferimos pisoteamos destroçamos negamos olvidamos
Este amor íntegro
Tão vivo até agora
E pleno de sol
É o teu
É o meu
Esse que foi
Este algo sempre novo
E que não mudou
Tão verdadeiro como uma planta
Tão trêmulo como um pássaro
Tão cálido tão vivo como o verão
Ambos podemos juntos
Nos distanciar e retornar
Esquecê-lo
E depois dormirmos
Despertarmos padecer envelhecer
Dormirmos de novo
Sonhar com a morte
Despertarmos sorrir e rir
E rejuvenescer
Nosso amor segue ali
Obstinado como uma mula
Vivente como o desejo
Cruel como a memória
Absurdo como o arrependimento
Terno como as recordações
Frio como o mármore
Belo como o dia
Frágil como um menino
Nosso amor nos olha sorrindo
E nos fala sem dizer nada
E eu o escuto trêmulo
E grito
Grito por ti
Grito por mim
E te suplico
Por ti por mim por todos os que se amam
E os que se amaram
Sim lhe grito
Por ti por mim e por todos
Os que não conheço
Fica
Não te mexa
Não vá
Nós os que somos amados
Te esquecemos
Mas não nos esqueça tu
Só tínhamos a ti no mundo
Não permitas que nos tornemos indiferentes
Cada vez mais longe
E desde onde sejas
Dai-nos sinais de vida
Muito mais tarde desde o recanto de um bosque
Na selva da memória
Surge de repente
Estenda-nos a mão
E salva-nos

Escrito por A menina do lado às 23h35
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São tão fortes as sensações que emudeço. Vai ver por própria vontade. De algum modo, tudo já foi dito. Mesmo o devir. Também ele está contido no eterno retorno. Por vezes, portanto, é bom estar muda na soleira da porta, sentindo-me envolta de certos mistérios que me tornam feita de simples. Fico a pensar que palavras devem, de facto, ir e vir, como o vento. Não me importo, então, de empregar palavras de outrem. Estes, que não sei por que motivos, espalharam suas chaguinhas per aí. Acho que pensar ao ponto de sangrar num papel por isso é criar chagas. Deixar aquele momento exposto, eternizado, como uma fotografia.  Entontecer futuros corações depois. Aguardar a mágica das leituras.

Outro dia pensei que não seria legal-al-al escrever para intrigar futuros intelectuais entediados e mulherzinhas lâmures.

Enfim, mas como cantar é ser, que as garrafas sejam lançadas ao mar. Num continuum que já não sei se é ridículo.

 

Então, por vezes, é bom apenas ser como um hirto jardim numa soleira de porta, desorientado. Valendo-me de outros, outros corações. Porque, independente do que me ocorrer, os navios continuarão a singrar.

 

Contudo, distraidamente, digo. Mesmo sabendo que nenhuma palavra abraça o mundo.

Escrito por A menina do lado às 23h34
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A letra oportuna...Do agora.

 

Pedaço de mim
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Qua a saudade dói como um barco
Que as vezes descreve um arco
E evita atracar no cais.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a sasudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, metade de mim
Oh, metade adorada de mim
lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor, adeus.

(Chico Buarque)

 

Escrito por A menina do lado às 23h24
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Letra q serviu/servirá nalgum momento da vida.

 

"São as coisas que você não diz
Que me matam de medo
Vagando entre a terra e o céu
Disfarçadas de segredo

Seu rosto não tem marcas
Sua história não tem meio nem fim
As fotos que eu tirei de você
Só revelaram a mim

Eu devo gostar de perder
Meu tempo com você

Ouça meu silêncio gritando
"Agora é tarde demais"
Eu sonho toda noite com a falta
Que você não faz"

Escrito por A menina do lado às 23h23
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GATO E O PÁSSARO

 



Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro pára de cantar
O gato pára de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Maravilhosos funerais

E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Que você teria sofrido menos
Sentiria apenas tristeza e saudades...

Não se deve deixar as coisas pela metade.

(Jacques Prévert)

 




 

Escrito por A menina do lado às 23h19
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De ser pequena

Ah, este meu ser enfermo e pequeno destilando na noite um incerto veneno! Terrena, não sei se fértil, cantora talvez de voz desafinada. Apegada a sentidos, a ponto de talvez não ser inteligível. Pobre alma afeita às epidermes, incapacitada de conhecer as raizes. Sou uma superfície. Uma superfície chorosa. Uma pedra mal esculpida, matéria áspera, aguda. Carregada de sangue de cansados pés jamais lavados com lágrimas.

 Dona de voz velada, porção alheia.Acho que meu retrato só vigora quando estou calada.

Escrito por A menina do lado às 23h18
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Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma.
As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios,
fazendo-os navegar;
outras vezes podem fazê-las naufragar, mas se não fossem elas,
não haveriam viagens nem aventuras, nem novas descobertas“
(Voltaire)

Escrito por A menina do lado às 23h10
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Do poetinha

Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há que fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor

Para viver um grande amor direito
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário ter em vista
Um crédito de rosas no florista
Muito mais, muito mais que na modista!
Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?

Para viver um grande amor, é muito
Muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Pra não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente
Não só com o corpo, mas também com a mente
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há que ser bem cortês sem cortesia
Doce e conciliador sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor!

(Vinícius de Moraes)

Escrito por A menina do lado às 23h08
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"Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade."

(Walt Whitman)

Escrito por A menina do lado às 23h07
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Nada a dizer...

Só digo que meu core vai além-mar...Que o tempo é imenso, que o tempo é o nosso único Deus.

 

À Beira de Água
 
 
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.



Eugénio de Andrade, "Os Sulcos da Sede"

Escrito por A menina do lado às 23h06
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