"Toujours, j'ai vécu seul"
Parecer
Trata-se de um parecer, pois apenas pareço, não sou. No máximo, fôra. Não mais. E assim pareço a mim: um poeta sem poesias. Um advogado sem causas. Um analista tão somente de papel. Alguém que peca por pouco pecar, que envelheceu de saudades, que costuma sorrir por meio sorrisos, que sente mais a ausência do que a presença, mesmo que seja a ausência daquela mesma presença. Japonês por parte de pai, um tanto sofredor por parte de mãe, alguém que se expira em palavras que lhe vêm e lhe vêem, e vão em vão, como se nunca tivessem vindo. E que nesta palavras se liberta e se vinga por elas um dia o terem prendido. Por fim, alguém que possui olhos melancólicos que tendem a se cerrar, menos pela ascendência do que pela irremediável consciência (ou desejo) de que um dia não irão mais abertos estar.
(Não pude resistir a essa beleza...)
A Terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...
Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.
Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
Dá-me um sorriso daqueles
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.
O que fazíamos no leito?
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
(Esclerose amorosa, Affonso Romano de Sant'Anna)
Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal que me consome me sustenta,
O bem que me entretém me dá cuidado.
Ando sem me mover, falo calado,
o que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado,
Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo.
Mas, se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.
(Antonio Barbosa Bacelar)
TODAVÍA - Mario Benedetti (Uruguai) 31/01/2006 03:50
"... Embora nem sempre entenda
minhas culpas e meus fracassos,
em troca sei que em teus braços
o mundo toma sentido..."
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou."
(William Shakespeare)