O teu nome há de ser sempre coisa abrasada. Há de estar contido nas frestas de minhas mãos, quando cubro meus olhos. Dormita insone na minha história. Nome afagado, nome dorido. Nome que nem poderá se conter. Coisa muda, secreta, inflamada, demasiado sentida. Assim é que se configura aquilo que tão intesamente nos marcou. E que não se esquece. Ama-se essa marca. Tem-se ternura por ela. As cores mudam, mas não a ternura.
Em tais lembranças, não sei mais onde reside o choro, ou onde reside o riso. Só sei que reside e o ponho em uma gaveta querida que visito vez em quando. Essa gaveta da memória. Tão sentida. Tão terna.
Não há derrota. O pulso existe. Compasso de coisa vivida. Coisa que em lembranças às vezes arrepia, e se desprende do corpo. Arrepio-me, quando toco esse passado. Porque lá, lá estava eu, jovem...Lá, lá eu vivi. Amo o que vivi. Solfejo aquela loucura, aquela esperança perdida, aquele aborto, aquela realidade amada...Por vezes, fere-me mais que o luar. Por vezes, faz-me rir com alegria infantil. Este brilho que o vivido sempre evoca. Lembrança amarrotada a se erguer, de repente. Tão parte de mim.
As mãos, o coração que já estremeceu de intimidade. Estremeceu, o vidro frágil de minha alma. Ainda está lá, nalgum lugar que amamos e quisemos e que foi perdido, mas respira, jamais combalido. Enquanto foi, o foi. Lugar que visito com cuidado, com afeto, com algum desprezo, por vezes, com alguma saudade, com alguma frieza, também.
Mas não há esquecimento. Há a fragilidade de tuas mãos antigas, que com tanto afeto já as desejei. Há o respeito por essa sensação já sentida. Teu nome jamais estará suspenso num lugar frio. Mas num local querido. Local das coisas queridas, das coisas doídas, das coisas passadas e modificadas. Nessa sombra, há tanta luz...
Mas a vida segue, com cores novas. O teu nome, com outras cores. Mas sempre sabendo que já teve outras cores.
Mas teu nome terá cores, sempre. Sejam quais forem.