Enumerar os momentos difíceis...O que nos foi acachapante. O desgate dos adeuses. Os ao deus-dará. A brevidade agridoce dos até logo. Os longos montes de areia desolados em que de repente nos achamos. Os olhares a quem já não nos olha. Os olhos cheios de fel de alguém.
Essa cena doída...De mão caída no deserto. Mão envenenada. Pensei que não a pudesse mais entregar, um dia. Lembranças amaras de quando fui indefesa. Talvez crédula. Talvez infanta. Mas de repente lembro que inda não sou outoniça, tampouco invernal, que tenho ainda essa leveza primaveril...Que não é gris o azul do céu. Não ainda.
Como não sei esquecer, como só sei guardar e fitar com desdém, talvez, às vezes lembro dessas alegorias de deserto que tão bem construí, em momentos penosos em que envelheci( esse envelhecimento, eu não queria. Foi duro descobrir que ainda não passo de primavera machucada).
Lembrar de meu deserto em que me puseram e que provava com tanta desgosto...Que não havia olhos sobre ele, nem os de Deus. Nem pude me desejar Hagar vilipendiada no deserto. O Deus que morde e sopra. Não tive essa doença lírica sobre mim. Era só a imensidão de deserto quando eu era uma chuva. Sempre fui chuva, anúncio de chuvas. Sempre choveu nos meus olhos. Sempre me desanuviei quando quis. Fui sempre egoísta o bastante pra me preparar sempre como pra uma noite de amor. A noite de amor solitária. Sempre fui solidão. Porque sempre não passei de uma impressão, uma curiosidade, uma iguaria a ser degustada, uma rainha a ser banalizada...Enfim, uma solidão, como todas as outras...
E de repente, minha solidez nocturna...Aquele poço silencioso. Aquela gélida voz, aquele construção num precipício, aquele coração impenetrável, a doença daquele coração devastando o que era, no fundo, tão forte e tão frágil(Já me disseram que sou a fragilidade da força)...Mas naquela minha clausura, que horror que tive de toda peste, de toda doença...Mas aquele aprendizado na lentidão do silêncio, naquele abandono, no remorso, na dor até das pedras...
Mas oh, aquela dor ridícula, aviltante...Aquela dor que não queria. Nunca fui trágica. Sempre fui tragicômica. Mas aquele marasmo de dor não contemplada...E marasmo que quaisquer olhares mesmo não curariam. E aquele céu tão azul, tão imenso, aquele sabor agreste. E a vertigem das luzes apagadas no céu e o instinto indolente de viver...Oh, que indolente...E isso até cansar...Até cansar...Aquele luto, aquela densa desarmonia, aquele manto, os olhos cada vez mais anoitecidos, cada vez mais beduína. E depois descobrir a saudade do meu próprio corpo. Bastava o poço dentro de mim. Bastava-me. O meu poço. Animava-me o meu silênico, e enamorei-me de me calcanhar. O amor ao meu deserto. Ao infinito do meu deserto. Minha noite, meu sol, minha solidão. Necessidade de mim, talvez besta, mas imorredoura. Essa necessidade de mim vai além da morte. Necessidade de mim até saber pra donde devo ir( e que sempre é além de mim. Há sempre a necessidade do incomensurável até a ti).Superar. Mais uma vez. Superar. Aprumar minhas cicatrizes. Aquele sedutor ar quebrado que ninguém nunca entenderá, mesmo. Enumerar, além das dores, a sapiência em todas as dores. Não me vitimizar. Não ser amarga. E continuar sendo cada vez mais boicininga, cada vez mais cascavel de coração enorme. Cada vez mais...Leveza e peso...O regresso aos abismos de rosas.
Perdoa, mas respiro, respiro descompassada numa melopéia. Não pude deixar de respirar embora certos corações tenham me deixado envenenado o ar.