Só eu vi a tristeza entrando pela porta do restaurante. Ela sempre vem sem aviso e, tal qual um espírito melancólico, influencia-me com sua persuasão invisível. Antes, isso me aborrecia, mas com o passar dos anos fui me convencendo de que suas aparições lúgubres e repentinas tinham a aura da inteligência e da inevitabilidade.
Aceito-a, então, sem resistência, apesar de sua visita tornar meu ânimo cinza e meu olhar caído. Ela veio em minha direção, parou na minha frente e sorrimos, lânguidas e cúmplices. Eu a convidei, desnecessariamente, para sentar à mesa. Ela sentou e observamo-nos com intimidade, sabedoria e silêncio, esquecidas do tempo. O tempo é uma distância que aproximou nossos receios compartilhados e envelhecidos.
A tristeza também tem rugas no seu semblante e está mais disposta a me compreender. Cada vez mais parecida comigo com sua tolerância mórbida e seu humor lacônico. Ela sabe que costumo ser como uma rocha protegida e fria, escondida no fundo insensível de um mar que ninguém conhece. Mas em sua presença percebo não existir nada capaz de me defender de todas as sensações que suponho ter.
Ela não pretende me machucar, pois sua compaixão reconhece o meu coração suficientemente cansado. Talvez queira apenas que eu me descubra com os meus olhos verdadeiros. Diante dela, minhas palavras mudas ganham sentido e amparo: “Tristeza, aqui estás, eu sei. E sei o que me trazes, tanto quando sabes o que te escondo”.
E como boa e velha amiga, ela despediu-se de mim, cedendo seu lugar àquele com quem eu tinha encontro marcado, o primeiro após minha separação. Ficou um vácuo breve e profundo, meu tédio e minha espera descrente à luz de velas.
Ele chega cheiroso, bem vestido e atrasado. Desculpa-se, com exagero. Toma minha mão, com habilidade. Curva-se, humilde. Beija meu rosto, com delicadeza. Puxa a cadeira, senta, sorri, continua sorrindo e não pára de sorrir. Chama o garçon, o cardápio, pede bebida cara e jantar farto. Fala, gesticula, impressiona. Ama a arte, o amor, a beleza e o prazer. Elogia meus olhos, meu cabelo e meu estilo. Compara-me a uma atriz italiana.
Come, bebe, argumenta. Afirma sua preferência pelo conhecimento erudito. Mas não nega o seu gosto pelo popular. Faz desfilar sobre a mesa suas ecléticas e sofisticadas opções culturais: Picasso “fase azul”, Woody Allen “fase Bergman”, Elvis Presley “fase gordo”, Grêmio “fase Felipão”.
Os tipos dele se sucedem: o “divertido e simpático”, o “intelectual e crítico”, o “democrático e compreensivo”, o “sentimental e ingênuo”. Confessa seus fracassos financeiros e afetivos. Enaltece seus sucessos com calculada modéstia. Do que ele me fala, nada me interessa. Mas me prende com insistência um mistério em seu olhar.
No ápice de sua performance egocêntrica, ele diz: “Vamos parar de falar de mim, vamos falar de você. Fale-me, por exemplo, o que você acha de mim”. Rimos. Mas esfrio seu entusiasmo com crueldade: digo estar cansada, com sono, que é tarde e que preciso ir pra casa.
O jantar termina, as palavras se acalmam e os olhares se encontram. Ele fica triste, pede a conta, paga. Acompanha-me até meu carro. Antes da despedida, imponho minha sentença:
– Gostei de você.
Entro no carro, sento. Ele fecha a porta. Abro o vidro e ele pergunta:
– Qual deles?
– Aquele que estava, o tempo todo, escondido atrás das máscaras me olhando com ternura.
Texto by "Roger Jones", mon bel-ami
Eu tumén te je teme.:)


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