Os detalhes, os detalhes que me levam até a ti...Essa umidade, esse meu ar ferido, essas janelas abertas, as portas fechadas...As mãos dadas.
Os teus detalhes são um sombrero
Os detalhes, os detalhes que me levam até a ti...Essa umidade, esse meu ar ferido, essas janelas abertas, as portas fechadas...As mãos dadas.
Eu amo, amo em voz baixa, ninguém precisa saber...É da altura que contemplo meu abismo, é amável minha vontade cair.
O amor é o meu segredo, minha escolha, e minha perdição. Amo até me deparar com minha auto-suficiência. A auto-suficiência só tem razão de ser quando negada.
"Amo", digo com honestidade. E meus dias são esses pequenos detalhes de amor. São essa exploração íntima. E esses detalhes me paralisam.Tudo deixa de existir, e apenas o detalhe sobrevive: o detalhe, e as sensações que traz, as verdades que encerra.
Endormie
cheveux mouillés
bras repliés
retrouvée fenêtre ouverte
l'air
par la fenêtre
Pour que l'amour me quitte
En dormant j'ai rêvé
des milles lianes
Pagayé,
pagayé
Pour que l'amour me quitte
Réveillée
la lumière pâle
des murs de l'hôpital
trop aimer c'est pas normal
un coeur si mal
accroché,
décroché
Pour que l'amour me quitte
Amour
Pour que l'amour me quitte , Camille
"Rapariga frágil
e delicada,
copo de água na minha lembrança!
Beleza que não foi achada!
Jeito ágil de dança!
Estátua mais perfeita
do que essas que os museus
ignóbeis ostentam
desprezando Deus
e as obras que os seus dedos aguabentam"
(Saúl Dias, in Mulher)
Café
Quando
a hora do Jazz
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café,
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.
E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual,
E os mármores das mesas,
com denhos obscenos
surdinam vagaz rezas...
E as garrafas dos alcoois e absintos,
em garbos áticos
oferendam viáticos...
E há tolhas barncas e há velas acesas!
E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o porventura,
nalgum quarto de aluguer).
Ela vem sempre
como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.
E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto,
Pura como a água, suave como o manto
O dia é Dia Santo
(Saúl Dias in Presença)
Um dia, ao pôr do sol, passaste
no jardinzinho agreste, abandonado
a um canto da cidade
Os ramos
Davam no ar abraços
os sonhos que emprestaste
(Havia nos teus braços rosas brancas e pedaços dos versos que escrevi na minha mocidade)
Calma
tarde de domingo
na minha terra, lá longe!
(Música do coreto, os teus acordes ouço-os e o meu coração é ainda deles repleto!)
As páginas do livros
que me encheram de sonho
encontro-as amarelas, roídas pelos anos...!
Velhos vestidos, velhos panos,
velhas cantigas de embalar crianças...!
-As tuas tranças
quem as soltou e maculou de enganos?
Corpo fino
delicado
sereno, sem desejos
Tão macio,
Tão modelado...
Beijos...Beijos...Beijos...
Teu corpo
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve o sonho que alonguei...
Asas em vôo
quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
Música
ouvida
na paisagem de outrora
sentida agora
tão intensamente...!
És bem a mesma
da perdida hora...!
E como és diferente...!
Aquela praçazinha de província,
com seu ar sonolento,
era tão alma e tão bênção...!
Quatro bancos desertos
e coreto no meio
e sempre um ruflar de asas...
Nas horas de calor
os anjos
dormiam estendidos
nas trapeiras das casas
-Por que esconder as lágrimas,
disfarçar a meoção que te cansa?
Fútil o motivo?
- Embora!
Chora, poeta
chora como uma criança!
(Saúl Dias in Presença)
Si, estar vivo é algo formidável, num sentido estupendo, mas também temerário(formidas, medo). Essa "magia" de composição e recomposição tão passível de espasmos de belo, esse mistério da compreensão do processo, de seu "milagre".
E eu, por que me oporia a um tal espetáculo? A vida em si, seu trajecto, não é nada, não fosse o olhar. Faço meu logos. Torno belo, torno triste; olho. Em cada componete, um mistério. Em cada transição, uma beleza, ua dor.
Meus olhos anoutecem, meus olhos clareiam. E os olhos dominam e modificam mais que as mãos. A mão é só o pronlongamento.
E na manhã, sou como uma jovem Marguerite Duras, esperando diante da porta fechada.
Ainda gosto de rir da defesa da homogeneidade em nome da heterodoxia...É por isso que grupelhos que aspiram o reconhecimento no coletivo me causam risos sardônicos, assim como todos os sofismas.
Ainda gosto de brincar cos palíndromos
"Minha alma, minha lama"
"Mas não há pequenos acontecimentos para o coração; este amplifica tudo; põe na mesma balança a queda de um império de catorze anos e a queda de uma luva de mulher, e quase sempre a luva pesa mais que o império. Eis aí os fatos em toda a sua simplicidade positiva. Depois dos fatos virão as emoções."
Honoré de Balzac, em "A Duquesa de Langeais"
A queda da luva, a mão que segura o cigarro, o maço amassado sobre a mesa onde jazem coisas inertes. Inertes e vivas, tão vivas, que cada pequena coisa conta sua história com inegável eloqüência. É como se cada coisa falasse do que viveu, do que viu, das cenas desenroladas no quotidiano fugidio, que passa leve como uma folha que voa, como o vento que empurra brancas velas de navio.
Balzac era um notável conhecedor do peso das coisas ínfimas. Sou obrigada a concordar que os restos de uma vela acesa são mais importantes que o fogo roubado por Prometeu, porque na vela eu vejo, intimamente, pedaços da minha história refletida.
Hoje, hoje foi doce a conversa....As vozes um pouco bêbadas, como que perdidas. Descendo a ladeira do que passou, o cansaço (já) sobre o que virá...Peregrinar no que há de mais íntimo. Contar que envelheci,e q as marcas desse envelhecimento são um silêncio.
Certas coisas não sabem falar. Certas coisas não se dizem. E há nisso uma certa grandeza. E viver nessa altercarção: o lírio magoado, a lady Jane amada....
E me canso das dores dos homens tão iguais, tão iguais....
Esse contato com a morte nos ensina a viver? É válida, essa ferida, esse peso, que mantém de pé?
Toda certeza é o tédio.
Acho que sou um crime. Um crime que não pude senão sacralizar.
Não sei de mim com o outro. Talvez eu não saiba pensar no próximo sem que haja em mim a mais antiga forma de amor: a identificação. Não sei o que sou para o outro. Embora eu consiga amor o outro, já quero me amar.Mas não sei se sou uma promessa. Se sou causa e efeito. Se habito em alguma memória. Se sou o amor. Se sou a praga. Tampouco se sou o destino.Não importa o que esperam: Eu serei. Serei talvez a frustração. Receio que eu continue a ser a mesma, desde meu nascimento.
às vezes a verdade se ascende no silêncio. De todo modo, estou envolta desse impulso vital que habita todas as coisas, e parece-me que só essa certeza - a de passado e futuro, me consola. Meu olhar pode estar desprovido de tudo, menos de doçura. E serão sempre esses meus olhos: os de doçura. Mas não sei se naquele ser haverá essa minha doçura. Se guardará o perfume.
Espero que certos perfumes jamais saiam. Que sejam sempre evocados.
Mais uma vez, a cozinha. Mais uma vez a fragrância a ser cantada. Faz-se música toda vez que nela adentro, na cozinha. E vejo abobrinhas amadurecendo, querendo se dar, antes que morram. Mais uma vez, essa festa da nutrição. Mais uma vez, esse acto d'amor redentor. Sei que muita vez a alimentação e seu prazer é tido como festim para os excessivos, os nihilistas, no bacanal, na esbórnia. Mas gosto de encarar a alimentação como o prazer gustativo de viver. Mais vida que morte. Não que não se morra de um prazer triste.
Mais uma vez aquele preparo cuidadoso, um tanto sofrido, que me faz suar, mas que cá dentro, faz-me rediviva, todos os dias. Gosto de celebrar a vida e sua continuação no ato de alimentar. E que ternura, que alacridade me traz esse templo de alimentação. Um lugar em que posso ser eu mesma, em que me ilumino, e me embriago com as fragrâncias, e lido com o continuum da vida e suas transformações "Nada se perde, tudo se transforma". E incluive o que há de estético, como em todo banquete...Também a beleza não casa prazer? Tb não há fruição do paladar? Esse prazer intenso de viver está na comida e em seu ritual de preparo, assim como se faz no sexo. Louvo a cozinha como quem louva Priapo.