Vexando-me


03/09/2006


Sobre a democracia

 

O ideal democrático apenas coexiste com o processo de automatização coercivo da sociedade, para que o caos se possibilite, legitimado por um Direito castrante e redutor.Relações de poder se constroem. Não costumo ver nenhuma análise genealógica sincera.
Hoje sabemos que a igualdade formal dos direitos e a liberdade política mascaram relações de força, em vez de suprmi-las. A fraqueza do pensamento democrático reside no fato de ser menos uma política e mais uma moral cínica,  visto que não coloca qualquer problema de estrutura social e considera as condições do exercício da liberdade como dadas na humanidade.
A política é, pois, uma mera técnica de ordem.Ora suas relações de força são escancaradas, feita às claras, num regímen inclusive aprazível para certas mentes sedentas, condizente com uma moral observável há milênios, e às vezes ela é simplesmente mascarada, numa suposta liberdade possível, sendo que essa liberdade alimentada alimentada por certos confortos propriamente instintivos custa-nos nossa real liberdade intelectual.
Então, totalmente superestimada esse ideal de comemoração de 20 anos de democracia e os corações pululando de emoção com a proximidade das eleições(Mas, pera lá, tb não sou afeita aos vermelhinhos salvadores. Os "comunas" tb são "política").

Mesmo o conceito ideal de democracia não se fez, já que a democracia realmente se perdeu em idealismos gregos/iluministas e kantianos.
Não vejo o que comemorar. Só vejo o "caos" possível se fazendo, e cada sujeito, cada país vivendo seu papel no meio das tais "relações de força".
Não vejo, porém, uma reação saidia contra essas ilusões kantianas de democracia. O otimismo democrático admite que, num Estado em que os direitos dos homens são garantidos, nenhuma liberdade usurpa as outras liberdades e a coexistência dos homens como sujeitos autônomos e racionais encontra-se assegurada. Isto significa supor que a violência faz uma aparição episódica na hist. humana, que as relações econômicas tendem por si mesmas a realizar a justiça e a harmonia e, enfim, que a estrutura do mundo natural e humana é racional. Oras, não é assim que as coisas são. Há um problema de gênese.

Eu poderia falar baseada em teorias de Norberto Bobbio, ou almejando a afamada "revlução gramsciana" que nosso paspalho Olavo de Carvalho sempre vê em iminência de efetivação. Sairia algo assim, algo paspalho, discurso prompto, tosco:" No Brasil poderia se dar o respeito às normas e às instituições da democracia como o primeiro e mais importante passo para a renovação progressiva da sociedade, inclusive em direção a´uma possível reorganização socialista. Mas em tempos de burocratização, corporativismo e assembleísmo, nada mais difícil do que se fazer cumprir o ideário democrático.Despojo-me de qualquer otimismo ingênuo e aponto como dificuldades visíveis a sobrevivência das oligraquias e do poder invisível, a revanche dos interesses particulares, a insuficiência mental dos cidadões e tal..."
Pois bem, poderia fazer análises rasas assim, partindo de certos pressupostos teóricos já efetivamente deslindados e desmistificados.O problema realmente é de conceito de democracia. Ante ele, só nos sobra analisar seus meandros e nos depararmos com os espasmos do insolúvel.É uma conclusão fácil de se chegar. É preciso ver a democracia em sua perspectiva genealógica. Só assim se entenderá a natureza de sua não efetivação. De seu cinismo, até. Ou, como eu já disse, olhar com otimismo ingênuo.Saindo, enfim, da epiderme dos problemas.


Câmbio?

Escrito por A menina do lado às 00h11
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