Vexando-me


05/10/2006


CÂNTICO ESPIRITUAL
Canções entre a alma e o esposo

Aonde te sumiste,
Amado, e me deixaste soluçando?
Como o cervo fugiste,
Ferida me deixando;
Tinhas partido, quando saí clamando.
Pastores, os que subirdes
Além pelas malhas ao outeiro,
Se por sorte vós virdes
Aquele a quem mais quero,
Dizei-lhe que agonizo enquanto espero.
Buscando meus amores
Irei por esses montes e ribeiras;
Não colherei as flores,
Nem temerei as feras,
E passarei os fortes e as fronteiras.
Oh bosques e espessuras
Plantadas pela mão do meu Amado!,
Oh prado de verduras,
De flores esmaltado!,
Dizei . me se por vós terá passado!
(...)

S. JOÃO DA CRUZ (1542 . 1591)

Escrito por A menina do lado às 01h22
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Da leitura "serena" de Sêneca

Fardos carregados com jeito tornam-se leves...;-)

Escrito por A menina do lado às 01h10
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Da felicidade epicurista

Descobrimos que as necessidades da nossa natureza corporal são de facto poucas, não mais do que o necessário para banir a dor e também para abrir muitos prazeres para nós. A natureza não busca periodicamente algo de mais gratificante do que isto, não se lamentando se não existirem imagens douradas de jovens espalhadas por toda a casa, empunhando tochas acesas na mão direita, para iluminarem banquetes que se prolongarão até altas horas da noite. O que é que interessa se o salão não cintila com a prata e brilha com o ouro e não existirem vigas e traves esculpidas que vibrem ao som da música do alaúde? A natureza não sente a falta desses luxos quando as pessoas se podem deitar em companhia, na relva macia junto a um regato murmurante, sob os ramos de uma alta árvore, refrescando os seus corpos agradavelmente sem grandes despesas. Melhor ainda se o tempo lhes sorrir, e a estação do ano semeia flores na relva verde

Escrito por A menina do lado às 01h08
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Orgástica

"DILECTUS MEUS MIHI"

Toda me entreguei, sem fim,
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.


Quando o doce Caçador
me atirou fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Eu já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado.

(Santa Teresa de Ávila-1515/1582)

Escrito por A menina do lado às 01h06
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Hoje, caminhar

Caminhar, numa via álacre, até calejar os pés. Cansar-me com o contacto dos pés sobre a terra. Sentir-me bípede, além de ancorada. Bravia como um mar.

Caminhar e vaguear.
Vaguear, ir por aqui e por ali, tomar um caminho inesperado... Desperdiçar o seu tempo e energia, sulcando as florestas e caminhos de terra. Ir ao deus dará, ao acaso, captando instantes de vida ,únicos e fugazes: paisagem, luz, odores, um céu infinito de azul... Vagueando em momentos privilegiados de alguém sem qualquer importância coletiva....

Lembremos: os humildes deslocando-se a pé, enquanto o cavaleiro o fazia do alto da sua montada ... processos diferentes que se materializaram em peregrinações e cruzadas. A humildade caminhava buscando horizontes de fé, de interioridade, uns mais perto, outros mais longe... caminhos pisados de Santiago, lanças cruzadas para Jerusalém. Acompanhar-se dos outros, ciciando para não ferir a paisagem, uns perscrutando o seu Deus, outros absortos, peregrinando os caminhos, todos acompanhados pelo sol, vento, água, pousando um olhar nas árvores, plantas, nas pequeninas coisas não evidentes.

Constatemos : Caminhar voluntariamente a pé, porque nos apetece, é, nos tempos que correm uma heresia: temos o automóvel com todo o conforto, a rapidez, a racionalidade do ar condicionado, temos, porém, somos levados por estradas rectilíneas, que se revelam indiferentes às paisagens, como que negando a sua existência... - na idade das luzes a peregrinação era condenada não apenas por razões religiosas, mas sobretudo ia contra a vida social, o trabalho, a produção... Asism , uma qualquer marcha solitária erguia-se como a própria negação da humanidade.
É através dos pés que se estabelece um contacto imediato e directo com as coisas: quando caminhamos, vemos o ínfimo, somos sensíveis às coisas pequeninas.

Vou-me abandonando na tentação da paisagem, oriento-me pelo alcançar duma qualquer longínquo prédio que ao longe parece balancear na reverberação do ar e da luz excessiva: é a meu prédio,  é o horizonte que escolhi para amar. Aproximo-me lentamente, saboreando o sopro da respiração , canto , assobio, sonho caminhando...
Não esquecer a terra do caminhar, o húmus, a humildade do pisar sem afastamento orgulhoso, sentindo de uma forma purificadora que o importante na vida é o caminhar e não chegar algures.

Escrito por A menina do lado às 00h58
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AS MÃES

[...] Elas são as mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora
do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas,
assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas asso-
pradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves,
caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o
primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes
ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco aju-
dando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo
na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão
descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não
tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos
seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do
curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amal-
diçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de
uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a
migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos
nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos
lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de
seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a
arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam
aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado
de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que
passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa
uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela, só ela vê.

Eugénio de Andrade ( 1923 )

Escrito por A menina do lado às 00h51
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