Caminhar, numa via álacre, até calejar os pés. Cansar-me com o contacto dos pés sobre a terra. Sentir-me bípede, além de ancorada. Bravia como um mar.
Caminhar e vaguear.
Vaguear, ir por aqui e por ali, tomar um caminho inesperado... Desperdiçar o seu tempo e energia, sulcando as florestas e caminhos de terra. Ir ao deus dará, ao acaso, captando instantes de vida ,únicos e fugazes: paisagem, luz, odores, um céu infinito de azul... Vagueando em momentos privilegiados de alguém sem qualquer importância coletiva....
Lembremos: os humildes deslocando-se a pé, enquanto o cavaleiro o fazia do alto da sua montada ... processos diferentes que se materializaram em peregrinações e cruzadas. A humildade caminhava buscando horizontes de fé, de interioridade, uns mais perto, outros mais longe... caminhos pisados de Santiago, lanças cruzadas para Jerusalém. Acompanhar-se dos outros, ciciando para não ferir a paisagem, uns perscrutando o seu Deus, outros absortos, peregrinando os caminhos, todos acompanhados pelo sol, vento, água, pousando um olhar nas árvores, plantas, nas pequeninas coisas não evidentes.
Constatemos : Caminhar voluntariamente a pé, porque nos apetece, é, nos tempos que correm uma heresia: temos o automóvel com todo o conforto, a rapidez, a racionalidade do ar condicionado, temos, porém, somos levados por estradas rectilíneas, que se revelam indiferentes às paisagens, como que negando a sua existência... - na idade das luzes a peregrinação era condenada não apenas por razões religiosas, mas sobretudo ia contra a vida social, o trabalho, a produção... Asism , uma qualquer marcha solitária erguia-se como a própria negação da humanidade.
É através dos pés que se estabelece um contacto imediato e directo com as coisas: quando caminhamos, vemos o ínfimo, somos sensíveis às coisas pequeninas.
Vou-me abandonando na tentação da paisagem, oriento-me pelo alcançar duma qualquer longínquo prédio que ao longe parece balancear na reverberação do ar e da luz excessiva: é a meu prédio, é o horizonte que escolhi para amar. Aproximo-me lentamente, saboreando o sopro da respiração , canto , assobio, sonho caminhando...
Não esquecer a terra do caminhar, o húmus, a humildade do pisar sem afastamento orgulhoso, sentindo de uma forma purificadora que o importante na vida é o caminhar e não chegar algures.