Vexando-me


01/11/2006


Serenidade

Que tarde doce!

Meu pensamento se imobiliza

Como se fosse

Um ramo lento

Falto de brisa.

O céu é brando

a luz murmura

o rio dita

e vai ficando

só a doçura

de quem medita

Nasce uma estrela

na face lisa

do firmamento

alto e a vê-la

se imobiliza

meu pensamento

(joão Maia)

 

Escrito por A menina do lado às 12h17
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Ostinato

Ao desejo, à
sombra aguda
do desejo, eu me
abandono.

Meu ramo de coral,
meu areal, meu
barco de oiro, eu
me abandono.

Minha pedra de orvalho,
amor, meu punhal,
eu me abandono.

Minha lua queimada.
violada, colhe-me,
recolhe-me: eu me
abandono.
Eugénio de Andrade

Escrito por A menina do lado às 12h09
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Poema XXIX

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho,
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade

Escrito por A menina do lado às 11h55
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"Nem já os rios se abrirão sob teus passos

nem as estrelas frias aos teus olhos de areia

eu sei que não há luas no círculo de teus braços,

nem mar onde descubras teu corpo em maré-cheia

Que grito de silêncio me leva pelas sendas

que escalam o castelo das sombras e do vago

águia eu me desvio do medo em que te vendas

verme fugidio do sonho em que me trago

Canal deserto e sujo no ventre da cidade

te vejo tão mesquinho, tão pobre de manhãs

sem rosto, sem pupilas, sem infância, sem idade

espectro do sentido perdido em ruas vãs"

(Salette Tavares)

Escrito por A menina do lado às 11h40
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Dorme agora, o meu peso, serenamente.

Escrito por A menina do lado às 11h34
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30/10/2006


Num cálix estão meus hábitos de exílio...

Escrito por A menina do lado às 13h10
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Magnólias

Escrito por A menina do lado às 13h08
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"Na praia de Areia branca, os búzios não falam só do mar: -falam das pragas, dod clamores, da fome dos pescadores e dos lenços tristes a acenar"

Sidónio Muralha

Escrito por A menina do lado às 13h00
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Amanhã

 

Amanhã

Na hora que vem ao longe

cresce e vem, cresce e vem,

-os que tiverem frio hã-de lançar os meus versos no lume

e a chama há-de subir...

-os que tiverem fome hã-de lançar os meus veros à terra

como se fossem estrume,

e a terra há-de florir...

Os meus poemas são degraus

da hora que vem

Nos meus poemas cresceu e sofreu e aprendeu

nos meus poemas revoltos

por isso vem de longe, nua, nun

e traz cabelos soltos....

Hora que vens de longe,

de longe vens, de rua em rua:

hás-de passar e hás-de parar por toda a parte.

nua formosamente nua,

-para que já não possam desnudar-te

(sidónio muralha)

 

 

 

 

Escrito por A menina do lado às 12h59
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Ensino à menina: os castelos que fazemos na areia desmoronam-se em poucas horas. Não chores. As casas onde moramos duram um pouco mais. E nós, pai? Umas vezes um pouco mais, outras vezes um pouco menos.

Escrever é como se fosse na areia. As palavras têm a intensidade de uma concha na palma da mão - uma concha que tivesse também um coração. Vem depois uma onda, um rebanho de ondas que levam a concha para longe. Resta um sopro no coração, que toda luz é doída.

Escrito por A menina do lado às 12h45
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Ainda sobre o regresso

Desde tempos imemoriais que nos dizem para não olharmos para trás, sob pena de cristalizarmos, de nos transformarmos em sal. Não se pode voltar aos lugares onde fomos felizes. Contudo,  sob as mais diversas formas, insistimos nos regressos, no retorno. De uma forma ou outra, vivemos constantes experiências regressivas, que, reescrevendo o passado, contam um lugar e um tempo felizes, mesmo quando não o foram. Uma experiência dolorosa de sublimação.Até porque, isso também sabemos de há muito, os únicos verdadeiros paraísos são aqueles que perdemos. Tempus fugit. O tempo devora seus filhos.As águas que não são as mesmas, sequer as sensações das águas.

Só nos resta a agonia do futuro, esse também irrediavelmente perdido.

Escrito por A menina do lado às 12h40
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Liberdade

"Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade."

(Sophia de M. B. Andresen)

Escrito por A menina do lado às 12h35
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A quem regressa

O que significa voltar? Nunca se volta.

Escrito por A menina do lado às 12h32
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Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.

Sophia M. B. Andresen

Escrito por A menina do lado às 12h31
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O dó dos casais

Actos d'amor não deveriam ser consequencialistas. Por isso tenho dó dos casais.

Escrito por A menina do lado às 12h28
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Curioso como sempre encontramos um pouco mais de nós, cada vez que nos perdemos.

Escrito por A menina do lado às 12h27
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Ouve:

Como tudo é tranquilo e dorme liso.

Claras as paredes, o chão brilha,

E pintados os vidros da najela.,

O céu, um campo verde, duas árvores.

Fecha os olhos e dorme no mais fundo

De tudo quanto nunca floresceu.

Não toques nada, não olhes, não te lembres.

Qualquer passo

Faz estalar as mobílias aquecidas

Por tantos dias de sol inúteis e compridos.

Não se lembres, nem esperes,

Não estás no inteirior dum fruto:

Aqui o tempo e o sol nada amadurecem.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Escrito por A menina do lado às 12h26
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A Piaf

A PIAF

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

6/10/1964

Jorge de Sena, Arte de Música,
Poesia II, Edições 70, 1988.

Escrito por A menina do lado às 12h17
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Missa solene, op. 123, de Beethoven

Não é solene esta música, ao contrário do nome e da intenção. Clamores portentosos, violência obsessiva(por sob apelos doces, lacrimosos de um ritmo orquestral continuado, tanta paixão gritada, tanto contraponto que teimosamente impede que na tessitura das vozes e dos timbres se interponha hiato não de silêncio mas de um fio só de melodia, por onde a morte penetre interrompendo a vida.É medo, um medo-orgulho, feito de solidão e de desconfiança. Não piedosa tentativa para captar um Deus, ou ardente anseio de união com ele. Não é também, com tanta majestade, a exigência que ele exista, porque o mereça quem assim o inventa.

É um medo comovente de que o não haja para remissãos dos pecados, bálsamos das feridas, consolo das amarguras, dádiva do que se não teve nunca ou se perdeu pra sempre. É desejo ansioso de que um Agnus Dei se interponha(ao contrário da morte) mediador e humano entre um nada feio música e outro possivelmente Deus. E a esperança desesperada de que seja uma grandeza nossa quanto fique de pé, no tintervalo entre ambos.

 

Escrito por A menina do lado às 12h14
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Poemas de uma giesta amarga....Mas o manto redime o vento.

Escrito por A menina do lado às 11h59
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Indução

 

Há em todas as coisas

a marca estranha

de minha presença.

Sons, palavras, imagens,

tudo eu desfiguro e desfeio.As pessoas, à minha volta

Tem gestos sonâmbulos

-os meus gestos imitados.

Rondam-me como espias,

precedem-me como agonias.

As coisas começam onde eu acabo.

Os berros

se atravessam muros e janelas

logo se rasgam

no estilhaço dos meus olhos.

Escurece o sol

onde o meu pensamento de trevas poisa

...as minhas ilusões de claridade.

(Relevos, in As frias madrugadas, Fernando namora)

Escrito por A menina do lado às 11h51
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Caminhemos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas, sob os turvos ódios e injustiças, no frio corredor de lâminas eriçadas, no meio do sangue, das lágrimas caminhemos serenos. De mãos dadas, através da última das ignomínias, sob o negro mar da iniqüidade caminhemos serenos. Sob a fúria dos ventos desumanos, sob a treva e os furacões de fogo aos que nem com a morte podem vencer-nos caminhemos serenos. O que nos leva é indestrutível, a luz que nos guia conosco vai. E já que o cárcere é pequeno para o sonho prisioneiro, Papiniano Carlos

Escrito por A menina do lado às 11h43
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Oh doida sofreguidão

de outra coisa

Irresistível sedução

que a minha mão não ousa

sequer esboçar nessa brancura

de tela que a procura

Cada minuto é um cais de onde se parte

para a velha viagem sem regresso e sem sentido

e a que sempre se volta

tão velho e sem remédio

contra si mesmo enriquecido

 

Escrito por A menina do lado às 11h34
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Não queiras por a nuvem numa caixa transparente

ensinar-lhe as leis quotidianas

com quanto amor domesticá-la

Ela não fala

essa linguagem

Não tem lei nem morada

Uma secreta voz constantemente a chama

Amá-la é conservá-la aí nessa paragem

de instável segurança. E se quiseres guardá-la

na doce paz coum tão diferente

da paz inquieta e sempre outra em que cintila

já não é a nuvem que tu amas

e mal sujeita ao clima estranho que a mutila

desfaz-se em água e some-se na terra transformada

em lama

(Mário Dionísio)

Escrito por A menina do lado às 11h30
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"Em voz baixa"

Em voz baixa cantemos

p hino das horas aparentemente mortas

ó vento ó verdes folhas dos troncos seculares do meu país

cobri a voz fiel e grave dos seus filhos fiéis

ó vento que enfunaste velas

e pões nas telhas um arrepio de madrugada

constrói uma morada inviolável e alta

para este canto cavo na penumbra ardendo

por montanhas e vales na sombra densa dos pinheiros

um rapaz caminha com as mãos vazias e o coração em fogo

ó perfume de amendoeiras e de vinhas de sobreiros de maresia

leva o som de seus pés a seus irmãos dispersos

leva o som de seus pés  por entre as oliveiras

por entre os laranjais e as chaminés e os rios

onde um tempo de paz entre as urzes doce canta

com os olhos ao largo atravessando nuvens

e as solas cravadas nos torrões comuns

em voz baixa cantemos

em voz baixa cantemos a glória

duma pátria que vive

(Mário Dionísio)

Escrito por A menina do lado às 11h26
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Que venha a noite

Que venha a noite e deixe o seu mistério
sobre nós dois, amor.
Não fomos feitos para andar ao sol
continuamente,
nem para ter saudades do passado
ou para chorar um sonho que se esfolha.
Nascemos só para viver e amar
e construir na sombra e no silêncio;
nascemos só para cantar e encher do nosso canto
confiado e heróico
a calma da alvorada que se espera;
nascemos só para nos confundirmos
na imensa teoria humana que se forma
e caminha consciente…
Que venha a noite e deixe o seu mistério
sobre nós
e traga, sobre nós, o esquecimento


Álvaro Feijó
de Cadernos de Poesia (reprodução fac-similada dirigida por Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias); Campo das Letras, 2004

Escrito por A menina do lado às 11h20
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Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro

Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos

Meu Amor.  Continua a espelhar-te nos meus olhos

E ver-te-ás de corpo inteiro.





Como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

Fecha-me os olhos com um beijo.



(Eu, Marco Póli)





Farei a nebulosa travessia

E o rastro da minha barca

Segui-los-á em pensamento.  Abarca





Nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus

(álvaro feijó)

Escrito por A menina do lado às 11h18
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