"Em voz baixa"
Em voz baixa cantemos
p hino das horas aparentemente mortas
ó vento ó verdes folhas dos troncos seculares do meu país
cobri a voz fiel e grave dos seus filhos fiéis
ó vento que enfunaste velas
e pões nas telhas um arrepio de madrugada
constrói uma morada inviolável e alta
para este canto cavo na penumbra ardendo
por montanhas e vales na sombra densa dos pinheiros
um rapaz caminha com as mãos vazias e o coração em fogo
ó perfume de amendoeiras e de vinhas de sobreiros de maresia
leva o som de seus pés a seus irmãos dispersos
leva o som de seus pés por entre as oliveiras
por entre os laranjais e as chaminés e os rios
onde um tempo de paz entre as urzes doce canta
com os olhos ao largo atravessando nuvens
e as solas cravadas nos torrões comuns
em voz baixa cantemos
em voz baixa cantemos a glória
duma pátria que vive
(Mário Dionísio)