

Las ángelas, de Goya, frescor sensual que cobre seu túmulo na pequena capela em que se enterrou. Meraviglias. Lufadas de ar. Com tais "anjas" sedutoras, haverá mausoléu mais vívido?


Las ángelas, de Goya, frescor sensual que cobre seu túmulo na pequena capela em que se enterrou. Meraviglias. Lufadas de ar. Com tais "anjas" sedutoras, haverá mausoléu mais vívido?

Caravaggio, tão poderoso quanto a morte...
Parlez-moi d' amour
Redites-moi des choses tendres
Votre beau discours
Mon cœur n' est pas las de l' entendre
Pourvu que toujours
Vous répétiez ces mots suprêmes
Je vous aime
Vous savez bien
Que dans le fond je n' en crois rien
Mais cependant je veux encore
Écouter ce mot que j' adore
Votre voix aux sons caressants
Qui le murmure en frémissant
Me berce de sa belle histoire
Et malgré moi je veux y croire
{Refrain}
Il est si doux
Mon cher trésor, d' être un peu fou
La vie est parfois trop amère
Si l' on ne croit pas aux chimères
Le chagrin est vite apaisé
Et se console d' un baiser
Du cœur on guérit la blessure
Par un serment qui le rassure
(Jean Lenoir, 1930. Avec la voix de lucienne boyer)
Além do clair-escur de Rembrandt, tenho apreciado novamente cozinhar. É a salubridade do dia. As pazes com o reificado amantissimo: o alimento. Cozer é de nobre patientia. E é tão álacre, vivaldino...
Ainda continuo com o mesmo festejo, embora quasi sem comensais. Mas continua sendo ora terno, ora voluptuosa a sugestão de aromas. Como a orgia opulenta pode ser benévola, e que arte pode ser a frugalidade
Oh perfumes e texturas redentoras, veniais, pecaminosas, trágicas...Ah, sentidos imperiosos, revigorantes ou crueís...
O fim de toda vida é sempre a decomposição, e isso no alimento é tão sublime e permanente, essa vida e morte tão sugerida...
Dias longe, mui longe...Dias dalgum prazer. Com o jardim voluptuoso de Rinaldo e Armida, onde suas armas vibram como sinos. Tardes em que solfejo amor, prazer. Tardes de tácitas angústias, lâmure voz minha. Noites de correntes adjectivos, de máximas de Ortega y Gasset, e brincadeiras perigosas cos primos já rapazinhos.
E a amargura do tempo, sempre, a pairar...
E, como diz Duras, deixem-me contar...Tenho 23 anos agora...E ainda prezo tanto as adventures de billy the kid!
Tenho estudado em casa alemão, italiano e um tal babelismo deixa-me cansada, farta...Esqueço-me do latim, do francês, do galego já tão amados...
E faço babelismos com o amado, em conversas desesperadas. Fazemos a incomunicabilidade, grandemente, com eloquência. Escrevemos um novo Finnegans Wake ao tel.
Mas ainda me entendiam os modernosos, tão filhos de uma época, que quebram tudo, e são tão quebradiços...
Que tudo coexista, mesmo a dodecafonia.
Partida
Algo me diz, algo frio como tudo aquilo que se tem por certo, que um dia deixarei Fortaleza. Talvez para o nunca mais. Depois de encarar os últimos raios fúlgidos, não sei onde irei desaguar. “Nunca mais, nunca mais”, diz o corvo de Poe. Feito a inelutável morte. Um dia, irei embora de aqui. E, talvez, nunca mais, nunca mais...
Fortaleza... Não sei cantar suas belezas, imitando lua cega e enamorada. Você apenas tem as cores da melancolia. Você não é. Você é para mim. Faz-se quando a contemplo, com cores minhas. É íntima. Mar às vezes mais azul, às vezes mais verde. Mar, às vezes, invisível. Quando eu te deixar, serei como um barco tão esperançoso quanto naufragado. Não a matarei em meu coração, nem jazerei eternamente em teu regaço. Partirei como o marinheiro, que não poderia chamar de apaziguado, mas que parte com resignação. O coração é um mar obscuro e incerto... Não combina com coisas certas. É com esse coração, esse coração de marinheiro, que partirei. Levando em seu corpo o sal e o sol. A pele já é feita de sal e sol. Há as marcas do sol em meus ombros, quando tantas vezes desejei ser tão-somente pálida...
Fortaleza, Fortaleza que relacionei com valsas tristes de Chopin e Sibelius. Quem é indigna, eu ou você? A lembrança amarga do teu poente sangrando comigo... É meu o teu céu desanuviado, minha a tua água salobra, meus os teus peixes mortos, que tive ganas de embalar como se fossem filhos. Mortos, como as partes de mim que morreram no teu solo. Fui tocada como tua mata. Nós, devastadas e envelhecendo. Olhando teu céu envelheci. Tive-o por manto ingrato, enquanto chorava lágrimas mais salgadas que o teu sal. Ardendo, juntas, em tardes dissolvidas.
Sei, desgraçadamente, que mais que um nome, Fortaleza será um retrato doloroso na parede. Um retrato amargo: Eu, na praça dos Mártires, amarrotando com pena o papel entre meus dedos. O vento corria sem consolar. Levantou poeira quando eu queria ver apenas o nada, e não aquela imensidão desconhecida chamada cidade, não aquela letra bonita chamando perigo. O vento acompanhou minha desistência, soprando na praça que guarda segredos. Depois só pude verificar o mar, o mar novamente, um mar dessa vez sem trazer peixes mortos, sem a feiúra bonita, mas com uma beleza mais sugerida que exposta. O vento extravagante do litoral parecia me fazer singrar para nuvens. Algumas coisas conseguem ser sumamente leves... Merecem ser penduradas na parede, imaculadamente, desejando perenidade, porque assim é tolerável viver.
Sobremaneira, um retrato que desbotará na parede; sobremaneira, sou de Fortaleza. Feita do mesmo barro. Estou habituada a ela, sofrendo seus pecados. Até agora estamos aqui, íntimas, seja para eu amá-la, maldizê-la, praguejá-la. Seja para esquecê-la. Sobretudo, sentirei falta das coisas que só existem aqui. Espetáculo só meu, nos lugares agora raramente desertos, nas pequenas brasas esquecidas pelas churrasqueiras nas ruas, brilhando em toda a escuridão, inclusive na minha.
Lá fora, o ar carecerá do cheiro das frutas. Cajás, cajás-manga, sapotis rebentando, hálitos de sumo de tamarindo, toda essa profusão açucarada. Os olores...O cheiro pesado de sal no mar, as tapiocas se deixando exalar em tantas esquinas...Sentirei saudade de colher amiúde os cajus, de me valer de velhas mangueiras por espreguiçadeiras, de lamentar a paisagem corrompida, com seus turistas bestificados, enquanto minha visão já era tão maculada por certas verdades... Saudade do olhar que só vê a beleza. Coisas doendo de tão bonitas. Eu lamento todas as belezas corrompidas, lamento todas as verdades duras, lamento todos os olhares vitimados pelo tédio. Mas hei de ter um olhar melancólico para Fortaleza, para os jangadeiros e rendeiras que mal conheci, para uma cidade que vai ganhando o novo e perdendo o velho, que não gosta muito de passado, e que perde assim em lirismo. As rugas de Fortaleza, a história caindo em pedaços...Uma cidade que vem , assim, crescendo. O novo, o peso do novo, pois não se envelhece sem dor. Mas fica a lembrança das cantigas de roda que ainda na rua aprendi, da vida passando lentamente nas calçadas, de chuva como promessa de verde. Coisas que vão se tornando moribundas, porque não se pode impedir o novo. Ele vem como uma estrada escura. Escura e esperançosa. É com sede de promessa que a gente universal caminha por essa estrada.
E se um dia eu voltar, e se um dia eu ousar respirar o ar de antes, sentir mais uma vez a vida em Fortaleza? As santas protetoras abraçarão a traição do partir? Hei de aprender a partir. Hei de apreciar o cheiro de um quarto novo, na constante poética já tão desgastada, mas nem por isso menos verdadeira. E no caos do porvir, hei de aprender a regressar, saudando o dia na minha cidade abandonada. O brilho será diferente, mas com afeto antigo. Sentirei novamente o sabor dos caranguejos que nunca comi, com pena dos bichos, que, disseram-me, morriam de morte dolorosa. Achar imoderadamente bonita a cidade que às vezes é tão feia que causa ternura. Deitar nela um olhar proibido de amor, vendo novamente os casebres porta-janela pintados com tinta d’água amarela, enriquecidos com jambeiros e meninos neles, a comer dos frutos. Hei de contemplar as pedras doídas de calor, perguntando-me a quem elas irão violentar. Para quem elas continuarão, ardendo? E verificar mais uma vez o mar, o mar quiçá já sem cara de mar, o mar talvez ainda como consolo, ganhando olhares de confissão dos ainda desconsolados. Ver esse comprido mar e mais uma vez dançar com o vento vagabundo e displicente. Ou talvez apenas eu, longe longe, tenha para sempre o marulho tão-somente por desejo, sentindo, doída, minha cidade esfumaçada e vaporosa numa parede.
A mulher vestida de sol