Vexando-me


03/02/2007


Para a leveza do dia que chega...

Uma prenda ao dia que chega, sublime, pela janela...

Ao dia que quer ser amado, que não cometamos o pecado de não olhá-lo. Dolorosas são todas as coisas não olhadas.

Por isso, quadros de Veermer. Moças tocando virginais em dias iluminados por suas (sempre) admiráveis janelas.

Aliás, esquecido instrumento, o virginal...Uma espécie de cravo caseiro, portátil.

Amem o dia, como Vermeer.:)

Mas não lhes darei lugares-comuns horacianos, não, não

Escrito por A menina do lado às 04h45
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29/01/2007


Um dia eu escrevi na praia o nome dela,

mas para desmanchá-lo sobreveio a vaga;

mais uma vez o nome eu escrevi da bela:

minhas letras, de novo, eis que a maré as apaga.

"Homem vaidoso, em vão procurar-diz-me ela-

dar imortalidade àquilo que é mortal:

eu prórpio decairei; meu nome, isso é fatal,

se esvairá como os traços que a maré cancela"

"Não-eu respondo-, as coisas vis podem morrer

na poeira, mas a fama te fará imortal;

teus dotes em meu verso não terão final,

e nos céus o teu nome ilustre hei de escrever.

Lá viverá, malgrado a morte, o nosso amor,

concedendo à outra vida juventude em flor"

Soneto LXXV de Edmund Spenser, acintosamente olividado mesmo pelos pavoneados jovenzinhos ingleses de gravata. Dos mais belos sonetos de seu "amoretti", derramada demonstração de amor a esposa, Elizabeth Boyle. Inda é um dos vultos maiores do verso inglês. Belos concetti e, enfim, legou-nos o soneto spenseriano, rimas abab, bc bc cd cd ee. Singulares.:)

Escrito por A menina do lado às 18h54
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Sobes no céu, ó Lua, com que triste andar,

com que silêncio, com que face tão sem cor!

Também aí em cima pode as flechas atirar

aquele arqueiro que não pára em seu labor?

Teu caso é de paixão, se podem sentenciar

olhos há muito acostumados ao amor.

Leio-os nos teus olhares: esse lânguido ar

proclama-o para para mim, que sinto igual fervor.

Já que somos iguais, ó Lua, dize então:

julgaim aí que é desatino o amor constante?

altivas como aqui as belas aí serão?

não gostarão de ser amadas? Não obestante,

não zombam dos amantes que a paixão ilude?

E a ingratidão, aí a chamam de virtude?

(Astrofel e Estela, soneto XXXI, Sir Philip Sidney)

Escrito por A menina do lado às 18h45
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A esposa, bela e jovem, ostentava

um corpo de doninha, esbelto e miúdo

e usava um cinto com debruns de seda

Orenado de recortes triangulares,

um avental cingia-lhe os quadris,

tão alvo vomo o leite da manhã;

sua clara camisa tinha a gola

bordada em toda a volta, dentro e fora,

de pura seda, negra de carvão;

e com essa gola as fitas combinavam

de sua touca branca. Ela exibia

um faixa de seda nos cabelos

e, nos olhos, malícia indubitável.

Sobrancelhas pequenas e tiradas,

e recurvas e negras com abrunho,

a moça era a mais doce de ser vista

do que as pereiras novas, e mais suave

do que a lã das ovelhas.Tinha ao cinto

uma bolsa de couro, que adornavam

pérolas de latão, borlas de seda

se esquadrinhassemos o mundo inteiro

não achariamos varão tão sábio

que imaginasse uma criaturinha

garrida assim, nem moça igual a essa

Birlhava a sua tez, mais luminosa

que as moedas de ouro, quando são cunhadas

lá na Torre de Londres. Claro e vivo

era o seu canto, igual chirrear

de andorinha que pouse num celeiro.

Gostava de pular e divertir-se

qual cabrito ou bezerro atrás da mãe

Era tão deliciosa sua boca

como cerveja doce ou hidromel,

ou pilha de maçãs em feno ou urzes.

Como um potrinho, assim era irriquieta;

tinha a esbeltez de um mastro e a retidão

da flecha. Usava um broche , do tamanho

do botão de um broquel, na gola, em baixo:

sapatos altos, de atacar na perna

Em suma, ela igualava a primavera

brilhava como uma jóia para um nobre

levar ao leito; ou para a desposar,

já que abastado, algum senhor de terras

(O conto do moleiro, Geoffrey Chaucer)

Escrito por A menina do lado às 18h40
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A um dia de verão como hei de comparar-te?
Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:
em maio o vendaval ternos botões disparte,
e o estio se consome em prazo não durável;
às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,
outras vezes se ofusca a sua tez dourada;
decai da formosura, é certo, a formosura,
pelo tempo ou o acaso enfim desordenada:
mas teu verão é eterno e não desmaiará,
nem hás de a possessão perder de tuas galas:
vagando em sua sombra o fim não te verá,
pois neste verso eterno ao tempo tu te igualas:
enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
meu canto existirá, e nele hás de viver
(Shakespeare)

Escrito por A menina do lado às 18h20
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