A esposa, bela e jovem, ostentava
um corpo de doninha, esbelto e miúdo
e usava um cinto com debruns de seda
Orenado de recortes triangulares,
um avental cingia-lhe os quadris,
tão alvo vomo o leite da manhã;
sua clara camisa tinha a gola
bordada em toda a volta, dentro e fora,
de pura seda, negra de carvão;
e com essa gola as fitas combinavam
de sua touca branca. Ela exibia
um faixa de seda nos cabelos
e, nos olhos, malícia indubitável.
Sobrancelhas pequenas e tiradas,
e recurvas e negras com abrunho,
a moça era a mais doce de ser vista
do que as pereiras novas, e mais suave
do que a lã das ovelhas.Tinha ao cinto
uma bolsa de couro, que adornavam
pérolas de latão, borlas de seda
se esquadrinhassemos o mundo inteiro
não achariamos varão tão sábio
que imaginasse uma criaturinha
garrida assim, nem moça igual a essa
Birlhava a sua tez, mais luminosa
que as moedas de ouro, quando são cunhadas
lá na Torre de Londres. Claro e vivo
era o seu canto, igual chirrear
de andorinha que pouse num celeiro.
Gostava de pular e divertir-se
qual cabrito ou bezerro atrás da mãe
Era tão deliciosa sua boca
como cerveja doce ou hidromel,
ou pilha de maçãs em feno ou urzes.
Como um potrinho, assim era irriquieta;
tinha a esbeltez de um mastro e a retidão
da flecha. Usava um broche , do tamanho
do botão de um broquel, na gola, em baixo:
sapatos altos, de atacar na perna
Em suma, ela igualava a primavera
brilhava como uma jóia para um nobre
levar ao leito; ou para a desposar,
já que abastado, algum senhor de terras
(O conto do moleiro, Geoffrey Chaucer)