Ando relendo as "Histórias extraordinárias" de Poe. Primeira figura de relevo da literatura americana, virulência mórbida e algo histriônica contra o puritanismo que deixava bem coxa a inteligência da "New England".
Ler-lhe é constatar que, felizmente, o tempo não lhe surrou. Nada maçante. Sem clima de terrir. Digno de menção, de celebridade e por mais que enobrecesse os gritos histéricos de sua época, constrói essa histeria belamente.
Mas deve de ter sido duro, bem duro ser um geniozinho entre os medianos coetâneos.
Ele é de uma engenhosidade prosódica mui amável. Gosto de ler seus contos em voz alta. Si, adorável prosódia. Já seus poemas costumam ser ora bons, ora assaz infelizes. O mocetão tinha lá seus grãos defeitos. Mas era, procede dizer, um mestre de rimas. Não à toa foi venerado pelos simbolistas franceses. E Mallarmé não imita sua prosódia em seus contos, a despeito de sua prosa comumente fixada em temas mitológicos? E muito lhe deve todo belo verso sonoro simbolista....
Quanto ao estilo, posso dizer que Poe deu dignidade à toda aquela corja de novelas góticas. Tirou-as do critério de ridículo. Fez das novelas góticas contos com distinção, erudição e metafísica. Fez a arte do macabro de modo engenhoso e prosódico. Dá esse sabor de ataúde a tudo o que toca,e nos atordoa lindamente com o pesadelo metafísico. Sim, é ele que clama nos corpos emparedados, numa terrível lucidez. Vem nos falar da calamidade que é inata e que não pode ser acidental, já que não pode ser, por fim, evitada.
Poe, esse histriônico meditabundo que destrói seus heróis vem nos falar da beleza da morte através de suas amantes enlutadas. Nada pode ser mais melancólico que a morte. Nada é mais melancólico que uma amante enlutada. Só Henry James deu tanta beleza à morte como ele. Aliás, aconselho-vos a ler "As asas das pomba", de James. E ver lá as alabastrinas damas, pálidas de morte, num agudo sofrimento em sua carnação tão ebórea e tão abandonada....
Mas, enfim...Poe traz além da beleza a histeria da morte, e também nos fala desse agudo desespero. Porque sequer a morte traz paz. Poucas são as personas que abandonam a vida abraçando aos vivos. Também os mortos querem viver.
Bom vê-lo muito, muito além dos seus leitores chinfrins, como os jovenzinhos perdidos sanguinários loucos por goticismo de quinquilharia e vampirismo. Muito além do vampirismo amente aborrecente que exibe em sua devoção à morte uma patética compaixão a si mesmo bem "da hora".
Ah não, não...Prefiro cair em sua vertigem negra sem amar tanto o horror de Sexta Feira 13 que insistem em lhe dar, tão-somente. Prefiro me comover ao lê-lo se demorar nas vários formas de sofrimento carregadas de seus temores infantis que o cobertor não lhe libertará.
Sim, eu visito seu exibicionismo, sua ingenuidade ostentada em seu mundo de vítimas emparedadas, claustrofobia, machadadas e redemoinhos.
E que nos tragam vertigem suas frágeis luzes. Vertigem ao paroxismo!