Vexando-me


06/02/2007


Mariposas

Si, também sou dessas gurias que se deslumbram com mariposas. A extravagância costuma me comover e desse modo a opulência das cores duma mariposa me fazem voar na estética de suas asas.

É como se numa injunção dos céus toda a beleza fosse nelas condensadas, e que breves vidas possuem...Pra nos afirmar, sempre, da beleza que cedo morre.

A noite é cheia de maravilhas escondidas, mas as mariposas gigantes que flutuam em torno das luzes nas noites de verão são a mais arrebatadora encarnação da noite. São como talismãs emblemáticos, ainda mais misteriosos por não saberem que retratam a essência da escuridão. Como pode a noite esconder sua beleza mais profunda, mais secreta, no negror?

Por que essas mariposas não podem se ver como nós as vemos? Estes são alguns dos enigmas mais profundos da noite, e as respostas são tão fugazes quanto a própria escuridão.

Escrito por A menina do lado às 19h46
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Elle est retrouvé!
- Quoi! - l'Éternité.
C'est la mer mêlée
Au soleil.

Jean-Arthur Rimbaud

Escrito por A menina do lado às 19h37
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Ainda digo: a melhor canção é aquela que nos silencia.

A melhor música é próxima do silêncio.

Escrito por A menina do lado às 19h24
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Sonho dentro de um sonho (1827)

Na testa toma o meu beijo!
E, agora que eu te deixo,
Confessar é meu desejo -
Não, não erras ao julgar
Que vivo só a sonhar;
Mas se a esperança voou
Na noite, no dia ou
Numa visão, ou nenhuma,
Não ficaria alguma?
Tudo o que vejo ou sonho
É sonho dentro de um sonho.

Estou de pé frente ao mar
Batendo no quebra-mar
E tenho nas minhas mãos
Areia que sinto em grãos -
Tão poucos! Mas como vão
Por meus dedos para o vão,
E choro em vão - choro em vão!
Ó Deus! como segurar
O que não posso agarrar?
Ó Deus! não posso salvar
Um grão desse cruel mar?
Será o que vejo ou sonho
Um sonho dentro de um sonho?


A Dream Within a Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
This much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

Edgar A. Poe

Escrito por A menina do lado às 19h21
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Histeria gótica

Mais um exemplo de movimento de juventude demente(Também velhos podem ser "juventude demente").Tingem-se de branco e preto e encarnam teatralmente uma suposta paixão pela morte que partiria de uma "compreensão tão profunda que geraria esse desejo de morte".

Mas o fúnebre é por eles festejado e adorado do modo mais teatral, tacanho e infantil o possível, porque não passam de trêmulos de medo. Uma tal histeria nada mais é do que um tosco exibicionismo de temores infantilóides encarados com "pompa e circunstância", vivenciado grupalmente, tornando seus membros  cordeirinhos da morte. Exibem e ostentam o medo infantilmente e confundem com amor. Mas o que lhes rege é simplesmente falta de perspcetiva, medos, rejeição, o que culmina em só mais uma revolta e escapismo comuns entre aborrecentes. Só mais uma revolta sem cérebro e sem qualquer compreensão. Apenas um modismo da hora, sempre grupal. Só mais uma válvula de escape juvenil super estilosa.

Só gentinha embebida de medo, em branco e preto. Desejando "abraçar a morte" em busca de paz e resolução de problemas que não conseguem encarar. Os góiticos, como todos os jovens de shopping, apenas têm medo de viver.E criam igualmente uma religião, essa que supostamente "abraça a morte".

Apenas odeiam viver a vida porque não a compreendem, mas preferem se enlutar de modo trash e ficar adorando vampiros, e ter a morte por solução.

Esse desdém pela vida é a mais pura incapacidade vivê-la. E essa exalatação da morte, tão trash, também é a sua incapacidade de compreendê-la.

Favor, vão a shoppings.;-)

Escrito por A menina do lado às 17h15
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Love story

É assim realmente? Se eu jazesse morta aqui,
junto comigo iria um pouco de tua vida?
E brilharia o sol mais frio para ti
com a umidade a nevolver-me na última guarida?
Pasmou-me tua carta, amado, quando a li.
Sou tua....-e tanto assim serei estremecida?
Tremem-me as mãos...como servir teu vinho, aí?
Esses sonhos de morte eis que minh'alma olvida,
e baixa ao plano da existências. Ama-me assim,
amor! contempla-me! respira sobre mim!
Como as damas de tom, que consideram certo
renunciar por amor a bens e posição,
por ti do túmulo desisti: e troco então,
pela Terra contigo, o céu que vejo perto!

Elizabeth Barrett Browning

Mui diferente da comum poesia de catequese moral de sua época, Elizabeth preferiu morrer d'amor pelo marido, o também poeta Robert Browning, e se livrar de tais escolhos.

A vida dos dois, enfim, é uma coisinha bonita que mais lembra "Love story". Moça de frágil saúde que por amor a um jovem tudo deixa(e ele também) e vai com ele morar na Itália, contra o pai e bla bla bla...E lá vivem um idílio amoroso que resultou em seus belos "sonnets from the portuguese", do qual retirei o que cá postei. Mais precisamente o soneto XXIII, traduzido por Bandeira que também se dispôs a traduzir a outra "innamorata", Christina Rossetti.

Morreu antes dele, infelizmente, depois de uma vida acusada de extrema beleza e paixão...Não mui longa, mas valiosa.

Em sua lápide está escrito "Qui scrisse e mori Elizabetta Barrett Browning, che in cuore di donna conciliava scienza di dotto e spiritto di poeta, e fece del suo verso aureo anello fra italia e inghilterra"

Escrito por A menina do lado às 16h37
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Sobre Edgar A. Poe

Ando relendo as "Histórias extraordinárias" de Poe. Primeira figura de relevo da literatura americana, virulência mórbida e algo histriônica contra o puritanismo que deixava bem coxa a inteligência da "New England".

Ler-lhe é constatar que, felizmente, o tempo não lhe surrou. Nada maçante. Sem clima de terrir. Digno de menção, de celebridade e por mais que enobrecesse os gritos histéricos de sua época, constrói essa histeria belamente.

Mas deve de ter sido duro, bem duro ser um geniozinho entre  os medianos coetâneos.

Ele é de uma engenhosidade prosódica mui amável. Gosto de ler seus contos em voz alta. Si, adorável prosódia. Já seus poemas costumam ser ora bons, ora assaz infelizes. O mocetão tinha lá seus grãos defeitos. Mas era, procede dizer, um mestre de rimas. Não à toa foi venerado pelos simbolistas franceses. E Mallarmé não imita sua prosódia em seus contos, a despeito de sua prosa comumente fixada em temas mitológicos? E muito lhe deve todo belo verso sonoro simbolista....

Quanto ao estilo, posso dizer que Poe deu dignidade à toda aquela corja de novelas góticas. Tirou-as do critério de ridículo. Fez das novelas góticas contos com distinção, erudição e metafísica. Fez a arte do macabro de modo engenhoso e prosódico. Dá esse sabor de ataúde a tudo o que toca,e nos atordoa lindamente com o pesadelo metafísico. Sim, é ele que clama nos corpos emparedados, numa terrível lucidez. Vem nos falar da calamidade que é inata e que não pode ser acidental, já que não pode ser, por fim, evitada.

Poe, esse histriônico meditabundo que destrói seus heróis vem nos falar da beleza da morte através de suas amantes enlutadas. Nada pode ser mais melancólico que a morte. Nada é mais melancólico que uma amante enlutada. Só Henry James deu tanta beleza à morte como ele. Aliás, aconselho-vos a ler "As asas das pomba", de James. E ver lá as alabastrinas damas, pálidas de morte, num agudo sofrimento em sua carnação tão ebórea e tão abandonada....

Mas, enfim...Poe traz além da beleza a histeria da morte, e também nos fala desse agudo desespero. Porque sequer a morte traz paz. Poucas são as personas que abandonam a vida abraçando aos vivos. Também os mortos querem viver.

Bom vê-lo muito, muito além dos seus leitores chinfrins, como os jovenzinhos perdidos sanguinários loucos por goticismo de quinquilharia e vampirismo. Muito além do vampirismo amente aborrecente que exibe em sua devoção à morte  uma patética compaixão a si mesmo bem "da hora".

Ah não, não...Prefiro cair em sua vertigem negra sem amar tanto o horror de Sexta Feira 13 que insistem em lhe dar, tão-somente. Prefiro me comover ao lê-lo se demorar nas vários formas de sofrimento carregadas de seus temores infantis que  o cobertor não lhe libertará.

Sim, eu visito seu exibicionismo, sua ingenuidade ostentada em seu mundo de vítimas emparedadas, claustrofobia, machadadas e redemoinhos.

E que nos tragam vertigem suas frágeis luzes. Vertigem ao paroxismo!

Escrito por A menina do lado às 04h40
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