Vexando-me


04/05/2007


Para essa mansidão
Feita de indolência
Que peço piedade
Aos rios que correm
E aos seus secos leitos
à correria desesperada de todas as coisas
Que peço piedade
às montanhas solitárias
Feito amantes indóceis
E a todas às ruínas
A tudo o que já foi destruído
Piedade, piedade
Alento de velas sob lápides
De castiçais
De mãos de ternura e recato
Mãos de mãe
Minha imprecação:Piedade!
Piedade, oh amantes confinados

Oh abortos!
Piedade à leveza das caravelas
Ah, jardins!
Retenham
E abençoem
Com o coito irrefreável dos gineceus
Pólen das margaridas,
Piedade!
Apieda-te, hostilidade de todos os homens
Aos velhos vergados de impotência
Ao leão nos olhos da criança!
Piedade!

Escrito por A menina do lado às 19h45
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Falas
Com ternura
E oiço-te
Com afã e penúria
Aprendiz de tua boca
Maculando-me
Com cada palavra tua
Falo-te
Com meu silêncio
E bebo-te
Em cada palavra
Um éter distante
Estrangeiro
Diz-me o que desejo
E molha meus olhos
Tam consolados
Num delírio
Encerra-me com teu discurso brando
Faz-me tua
Guiando-me ao céu do abandono
Em cada gota de sangue
Da tua plavra
Há uma nuvem
Há um mar
Há um beijo
Ondulas-me
Conforme o meu desejo
E não sei donde
Irei desaguar
Decifra-me
Enquanto não trocas meu nome
E não deito no teu esquecimento
Mas, eu te adoro
A cada golpe dado
Com tua boca
Que me causa mil gozos
E mil feridas
Assim tua boca
Tão de outras bocas
De bocas quaisquer
Embriaga-me
Porque quero me embriagar
Quiçá eu ache em tia a tua amargura
Quiçá te visite
Nas tuas mais recônditas alamedas
E te afague
Como uma Pietá
E beije a tua criança
E o fosco brilho do teu luar
Dalgum modo
Assim,
Te alcançr
Enquanto me desdenhas
à cada vez que tua boca
me saúda
E me faz rendida
Ao pé do teu altar

Escrito por A menina do lado às 19h29
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Não, não é a hora do sono

Que estou desconsolada

Não é a hora do reparo

Ou do preparo para o nada

É que sofro e me espedaço

Sofro como se fosse um lume

Dum viver mais exangue e mais incandescente

Sofro com a agitação duma gazela

A mais lépida gazela

Assalta-me como dilúvio o alciônico

Invadem-me todos os campos de lilases

Todos os brocados do mais ruge corpete

E os trigais num suave abandono

Entontece o odor de maçãs em minha pele

E meus olhos são os mais vivos mirtilos

Compungidos pela dolência dos lírios

E sob este louco fanar sobre a cama

Há um sol que a tudo abrilhanta

Desejo um dia ardido e amarelo....

E que minha boca vibre como um rubi eterno

Não, não é a hora do vero desfalecimento

Que há aves em meus dedos

Trila o meu peito

Como se almejasse a dança de todos os anjos

Perfeitos e descarnados

Os anjos que se despem de si

Em balanço

Que ósculos eu daria em seu vago

Em seu desfazimento

Na noite não se dorme

quando indomitamente

O corpo quer se desfazer

E dançar

Ungido de vago

Deixar de ser

Evaporar numa dança

Em que se derrame em jorros

O não sentir

Esvair-se, aquiescer

Apenas exalar, como um cheiro

Quiçá o que me impele

Seja esse desejo de ser novilho

Num leve balir de sinos

Oh, brandamente descansados

Rumo a um grão-caminho

às montanhas

à sangria dos deuses

Sendo o já perdoado sacrifício

Não a culpa

Ou talvez seja o céu o meu tormento

Com seu silêncio gotejante

Assim, alehio

Assim, imenso

Dum tanto que não se caiba

Não se possa

E a fomentar desejo

desejo de mil rabços

O céu a nos fazer donos de mil braços

Contudo

o céu jamais será abraço

Mas talvez seja o outro

Ou o seu espectro

o que me desnorteie

e me vexe

O outro

com suas mãos de uvas

com boca de vinho

o êxtase no outro

Dele pertencer!

Pertencer!

Não para apascentar

Mas para desfalecer

Inteiramente

Ser inteiro no outro

Não é essa permanência

Esse fogo fátuo

Que na noite

Nos perde?

Escrito por A menina do lado às 18h11
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