Não, não é a hora do sono
Que estou desconsolada
Não é a hora do reparo
Ou do preparo para o nada
É que sofro e me espedaço
Sofro como se fosse um lume
Dum viver mais exangue e mais incandescente
Sofro com a agitação duma gazela
A mais lépida gazela
Assalta-me como dilúvio o alciônico
Invadem-me todos os campos de lilases
Todos os brocados do mais ruge corpete
E os trigais num suave abandono
Entontece o odor de maçãs em minha pele
E meus olhos são os mais vivos mirtilos
Compungidos pela dolência dos lírios
E sob este louco fanar sobre a cama
Há um sol que a tudo abrilhanta
Desejo um dia ardido e amarelo....
E que minha boca vibre como um rubi eterno
Não, não é a hora do vero desfalecimento
Que há aves em meus dedos
Trila o meu peito
Como se almejasse a dança de todos os anjos
Perfeitos e descarnados
Os anjos que se despem de si
Em balanço
Que ósculos eu daria em seu vago
Em seu desfazimento
Na noite não se dorme
quando indomitamente
O corpo quer se desfazer
E dançar
Ungido de vago
Deixar de ser
Evaporar numa dança
Em que se derrame em jorros
O não sentir
Esvair-se, aquiescer
Apenas exalar, como um cheiro
Quiçá o que me impele
Seja esse desejo de ser novilho
Num leve balir de sinos
Oh, brandamente descansados
Rumo a um grão-caminho
às montanhas
à sangria dos deuses
Sendo o já perdoado sacrifício
Não a culpa
Ou talvez seja o céu o meu tormento
Com seu silêncio gotejante
Assim, alehio
Assim, imenso
Dum tanto que não se caiba
Não se possa
E a fomentar desejo
desejo de mil rabços
O céu a nos fazer donos de mil braços
Contudo
o céu jamais será abraço
Mas talvez seja o outro
Ou o seu espectro
o que me desnorteie
e me vexe
O outro
com suas mãos de uvas
com boca de vinho
o êxtase no outro
Dele pertencer!
Pertencer!
Não para apascentar
Mas para desfalecer
Inteiramente
Ser inteiro no outro
Não é essa permanência
Esse fogo fátuo
Que na noite
Nos perde?