
Estes xailes...Estes mantos de varinas, estes xailes de fadistas ébrias, de damas da noite, de mães que se arrulham aos filhos, esse xailes de esperas de Penélope, feitos com agulhas de flor e de espinhos. Esses xailes que são como amantes, que são como ninho, que são como o regresso.E que são o único abraço que espero, com que cubro minha cabeça e meu corpo para suportar um sol mui ardente, um sal mui amaro.
Xaile, minha malga de amor. Tessitura de brancas, brancas tormentas, de vermelhos sangues exangues, de azuis de céu de longe. Que trazem em seu tecido o sono das colheitas, as esperas mais amargas. Trazem a sombra de amantes abraços nas esquinas. Traz baloiço de berços. Traz beijos. E dores de terços. E barcos rumando sem endereço.
Esse xaile, minha defesa...Minha capa, minha espada, minha sombra parda, tão parda, minha rosa brava. Meu vulto e meu relento. Um xaile de silêncio. Um xaile de adeus.
Vejo a estes belos xaile...Dum vermelho garrido, dum azul de sonho,coloridos de grous, de veludo e de seda...Feito para acariciar, com matizes d'amor. Mas que são minha luz mortiça.
"Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Ja me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de querer tanto
Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim o castigo
Eu nao te quero
Eu digo que nao te quero
E de noite
De noite sonho contigo
Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te nao ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chao
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Por uma lagrima
Por uma lagrima tua
Que alegria
Me deixaria matar"
(Amália Rodrigues)


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