Do que me dá sono...Do que amo...Da alegria doirada de adormecer...De cantilena de voz de oiro...De lírios recostados de torpor.
Do que me dá sono...Do que amo...Da alegria doirada de adormecer...De cantilena de voz de oiro...De lírios recostados de torpor.
Oh Sono
Reparador
Melhor amante
O guardião da dispersão do rebanho
Pai do branco
Ninho
Alento do escuro
Beijo do que ainda
Não pode morrer
Eterno
À mão
Tempo pequeno
Como uma criança terna
Amena lanterna
No deus do olho
Que me governa
A cozinha é ainda meu coração. Meu cais de atracar. Onde deixo de lado as ervas daninhas, as urtigas e me encontro com as ervas aromáticas.
Onde lembro que também coisas dilaceradas se refazem, transformam-se.

Mais uma flor de terras pantanosas, nascida de detritos. Mais uma glosa de mesmo mote, enfim. Mas, falarei.
Bela como princesa perseguida, como nau proscrita, inspiradora feito camponesa que conjura forças para cantar, não aquela que apenas tolazmente canta. Rosa fatalista, encouraçada...Rainha das flores...Todos a querem possuir e, engraçado, só pra a despetalar.
Parecem feitas de amor, parecem querer estar ao coração, ser flor de lapela. Parecem que nos procuram mais com os olhos do que nós a procuramos.
Mas, que bela...Constructo doido de seda e perfume, resistindo com tanta cortesia... não nos parece que é um deus benfazejo que no-la segreda? Por isso está tão presente no “chantes des chantes” bíblico...
Para quê ela resiste? O que ela segreda aos ventos feos que a cercam?
Penso nessas belezas que se doem. Mais parece que elas são braços de ninho, bocas de espera, vão de ventre. Tanta beleza assim é uma precipitação. Colhidas por ventos quentes, por desertos. Tão pobres de espinhos...De beleza tão breve que cada dia mais parece emoção de véspera. Que beleza súplice. Que promessa árida em sua espera. Que marcialidade doce enchendo de perfume os estercos. Que nulidade, e que rufo doce fazem ao se despetalar ao vento. Tanta beleza assim, só pode ser amor, só pode ser receio. Tanto amor de gratuidade, de brevidade. Tudo o que ganha é ser mera partícipe do amor.
Por isso agora, eu a sinto ao espelho. Eu a colocaria em meus cabelos, como gosto. Eu a colocaria entre os seios, perto do coração. Meus olhos cresceriam só para olhá-la. Eu a amaria em um ritual, e marcaria com suas pétalas q logo se iriam as mais belas páginas de amor que já li.
Eis o meu o relicário, o meu ritual para essa rosa de Saron ao espelho.
Non credo em erros veniais. Eles nos poluem. Ficam as sombras, as depressões, os vincos, os talhos que nos modelam. Talvez por isso eu ame tanto ruínas. Creio que sejam a mais perfeita construção, modeladas pelas intempéries, pelo tempo que não perdoa. De tão poluídas, são já impolutas.
Sou assim, gasta, devastada. Gasta por motivos. E motivos são sempre sagrados, e sangrados.
Por isso o amor franco por ruínas, por cousas quebradas.
Vejo certas paisagens tocadas de abandono, coisas antigas, envoltas
Sou um tanto assim...Meus erros não são veniais. Minha beleza é de Madalena, sequiosa de lumes amortecedores. Também agradada de luzes mortiças, ruína esperando lume, querendo projetar-se com ternura, com beleza, com aceitação.
Assim se morre e ressuscita todos os dias.
Assim, feito sândalo que perfuma o machado que o fere. Assim, como um trigal debilmente estendido sob o sol ceifador, esperando dele o seu perdão.
Assim, não sou amarga, assim, como me disseram, minha voz tem um quê de açúcar que adoça. E entendo então porque toda ruína me consola, todo deserto, não só campos de flores ardendo de vigor. Também as belezas convulsas me comovem.Afinal, a terra, açoitada, sempre gesta flores.
Morre o sol
Mornamente
Molemente
Pérola em sua concha se fechando
O céu é uma cama de ouro
Ungida de sangue
A dormitar depois num gris veemente
É tão solene
É tão breve
Entre as cortinas
E triste
Como um ser ferido
Que se abandona
Do luminoso
Ao opaco
O sol morrendo de amor
No outro lado do mundo
Morra meu bem
Levemente
Torna-te uma água dolorida
Mas que se move tão plácida
Que mais parece feita de indulgência
Caminhe ao desaguar
Tenha a paz qualquer
Duns peixes frios
Desses que já cansaram de arquejar
Vás embora
Ternamente
No rítmico abandonar
De todas as coisas
Vai-te embora
Numa melodia
E com a inocência dos selvagens
Vás embora assim
Inclinada no meu peito
Bem devagar
Sossega teu coração
Deixe que ele acabe sua dança
Desenfreada de dor
Vás com a vertigem
Sem loucura
Vás como os últimos respingos de uma chuva
Morras assim
Apartada de teu ventre
Deixa a beleza dos teus cabelos
Amolece tua boca dantes tão fremente
Vás como um dia todo branco
Descorado
Vai-te sem medo das trevas
Não tateie a noite
Que te espera
Apenas durma
Quieta
Descansando sob a constelação
Vai-te
Ensinando-me também
A morrer