Vexando-me


29/06/2007


Ainda sobre o sono reparador

 

 

Do que me dá sono...Do que amo...Da alegria doirada de adormecer...De cantilena de voz de oiro...De lírios recostados de torpor.

Escrito por A menina do lado às 08h54
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Oh Sono

Reparador

Melhor amante

O guardião da dispersão do rebanho

Pai do branco

Ninho

Alento do escuro

Beijo do que ainda

Não pode morrer

Eterno

À mão

Tempo pequeno

Como uma criança terna

Amena lanterna

No deus do olho

Que me governa

 

Escrito por A menina do lado às 08h51
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Da cozinha

A cozinha é ainda meu coração. Meu cais de atracar.  Onde deixo de lado as ervas daninhas, as urtigas e me encontro com as ervas aromáticas.

Onde lembro que também coisas dilaceradas se refazem, transformam-se.

Escrito por A menina do lado às 08h41
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Rosa de Saron

 

 

 

 

Mais uma flor de terras pantanosas, nascida de detritos. Mais uma glosa de mesmo mote, enfim. Mas, falarei.

Bela como princesa perseguida, como nau proscrita, inspiradora feito camponesa que conjura forças para cantar, não aquela que apenas tolazmente canta. Rosa fatalista, encouraçada...Rainha das flores...Todos a querem possuir e, engraçado, só pra a despetalar.

Parecem feitas de amor, parecem querer estar ao coração, ser flor de lapela. Parecem que nos procuram mais com os olhos do que nós a procuramos.

 

Mas, que bela...Constructo doido de seda e perfume, resistindo com tanta cortesia... não nos parece que é um deus benfazejo que no-la segreda? Por isso está tão presente no “chantes des chantes” bíblico...

Para quê ela resiste? O que ela segreda aos ventos feos que a cercam?

Penso nessas belezas que se doem. Mais parece que elas são braços de ninho, bocas de espera, vão de ventre. Tanta beleza assim é uma precipitação. Colhidas por ventos quentes, por desertos. Tão pobres de espinhos...De beleza tão breve que cada dia mais parece emoção de véspera. Que beleza súplice. Que promessa árida em sua espera. Que marcialidade doce enchendo de perfume os estercos. Que nulidade,  e que rufo doce fazem ao se despetalar ao vento. Tanta beleza assim, só pode ser amor, só pode ser receio. Tanto amor de gratuidade, de brevidade. Tudo o que ganha é ser mera partícipe do amor.

Por isso agora, eu a sinto ao espelho. Eu a colocaria em meus cabelos, como gosto. Eu a colocaria entre os seios, perto do coração. Meus olhos cresceriam só para olhá-la. Eu a amaria em um ritual, e marcaria com suas pétalas q logo se iriam as mais belas páginas de amor que já li.

Eis o meu o relicário, o meu ritual para essa rosa de Saron ao espelho.

Escrito por A menina do lado às 08h38
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De não ser amarga

 

 

Non credo em erros veniais. Eles nos poluem. Ficam as sombras, as depressões, os vincos, os talhos que nos modelam.  Talvez por isso eu ame tanto ruínas. Creio que sejam a mais perfeita construção, modeladas pelas intempéries, pelo tempo que não perdoa. De tão poluídas, são já impolutas.

Sou assim, gasta, devastada. Gasta por motivos. E motivos são sempre sagrados, e sangrados.

Por isso o amor franco por ruínas, por cousas quebradas.

Vejo certas paisagens tocadas de abandono, coisas antigas, envoltas em brumas. Quadros de Caspar D. Friedrich. Chiaroscuros barrocos. Ruínas banhadas de graça lunar. Nisso está a beleza das ruínas, das coisas destruídas: quando são olhadas é como se derramássemos nela grandes olhos de graça lunar. Lume augusto nas cousas fenecidas, beijos nos vestígios, luz mortiça à escuridão enfermiça dos quartos cheios de bolor(Por isso tanto me comovem fracos lumes de castiçal, que iluminam de belo toda a dor e toda ruína). Castiçais são de um evo ingente e pais de toda sombra. A sombra é nosso reflexo de compreensão.

Sou um tanto assim...Meus erros não são veniais. Minha beleza é de Madalena, sequiosa de lumes amortecedores. Também agradada de luzes mortiças, ruína esperando lume, querendo projetar-se com ternura, com beleza, com aceitação.

Assim se morre e ressuscita todos os dias.

Assim, feito sândalo que perfuma o machado que o fere. Assim, como um trigal debilmente estendido sob o sol ceifador, esperando dele o seu perdão.

Assim, não sou amarga, assim, como me disseram, minha voz tem um quê de açúcar que adoça. E entendo então porque toda ruína me consola, todo deserto, não só campos de flores ardendo de vigor. Também as belezas convulsas me comovem.Afinal, a terra, açoitada, sempre gesta flores.

Escrito por A menina do lado às 08h12
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28/06/2007


Morre o sol

Mornamente

Molemente

Pérola em sua concha se fechando

O céu é uma cama de ouro

Ungida de sangue

A dormitar depois num gris veemente

É tão solene

É tão breve

Entre as cortinas

E triste

Como um ser ferido

Que se abandona

Do luminoso

Ao opaco

O sol morrendo de amor

No outro lado do mundo

Escrito por A menina do lado às 11h08
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Morra meu bem

Levemente

Torna-te uma água dolorida

Mas que se move  tão plácida

Que mais parece feita de indulgência

Caminhe ao desaguar

Tenha a paz qualquer

Duns peixes frios

Desses que já cansaram de arquejar

Vás embora

Ternamente

No rítmico abandonar

De todas as coisas

Vai-te embora

Numa melodia

E com a inocência dos selvagens

Vás embora assim

Inclinada no meu peito

Bem devagar

Sossega teu coração

Deixe que ele acabe sua dança

Desenfreada de dor

Vás com a vertigem

Sem loucura

Vás como os últimos respingos de uma chuva

Morras assim

Apartada de teu ventre

Deixa a beleza dos teus cabelos

Amolece tua boca dantes tão fremente

Vás como um dia todo branco

Descorado

Vai-te sem medo das trevas

Não tateie a noite

Que te espera

Apenas durma

Quieta

Descansando sob a constelação

Vai-te

Ensinando-me também

A morrer

Escrito por A menina do lado às 11h07
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