Sorrir, marcar-me a face dum animalesco lépido, rir dos ventos tam sozinhos, das sombras dos que foram homens, dos olhos morrendo de tempono pastoreio dos meninos. Sorrir a despeito das pedras de Deus, essas pedras doídas em que também nos calejamos. Sorrir, sorrir bestialmente ao que recende à vida. Sorrir pedindo vida com devoção. Saber porque os seres se ajoelham no amor, porque procuram Deus nas pedras doídas.
Sorrir, sorrir regiamente, a vida sendo ditada por nossas bocas.
Ah, o que nos faz sorrir... Sorrir, não importa o frágil infeliz de nosso esboço, a realeza fajuta, o mofino grave.
Sorrio porque desejo, porque é-me possível, é-me imperioso. Mesmo que, oh dor famélica da vida, os homens morram. Sorrir porque banqueteamos o nosso desejo(esse único possível), á farta, espotejado. Porque ele nos rege, numa fome contra a morte. Porque somos esfaimados de infinito. Porque o desejo está à mesa, e nos embriaga como um vinho. Pois tanto mais comemos quanto mais nos falta. E eis o momento de sorrir de desatino: nessa lepidez amável, nessa lepidez possível.
Se não há fome, não há banquete. Sorrir de prazer, matando meu desejo. Na ânsia vã de no sorrir, retê-lo.


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