Vexando-me


13/07/2007


Do sorriso

Sorrir, marcar-me a face dum animalesco lépido, rir dos ventos tam sozinhos, das sombras dos que foram homens, dos olhos morrendo de tempono pastoreio dos meninos. Sorrir a despeito das pedras de Deus, essas pedras doídas em que também nos calejamos. Sorrir, sorrir bestialmente ao que recende à vida. Sorrir pedindo vida com devoção. Saber porque os seres se ajoelham no amor, porque procuram Deus nas pedras doídas.

Sorrir, sorrir regiamente, a vida sendo ditada por nossas bocas.

Ah, o que nos faz sorrir... Sorrir, não importa o frágil infeliz de nosso esboço, a realeza fajuta, o mofino grave.

Sorrio porque desejo, porque é-me possível, é-me imperioso. Mesmo que, oh dor famélica da vida, os homens morram. Sorrir porque banqueteamos o nosso desejo(esse único possível), á farta, espotejado. Porque ele nos rege, numa fome contra a morte. Porque somos esfaimados de infinito. Porque o desejo está à mesa, e nos embriaga como um vinho. Pois tanto mais comemos quanto mais nos falta. E eis o momento de sorrir de desatino: nessa lepidez amável, nessa lepidez possível.

Se não há fome, não há banquete. Sorrir de prazer, matando meu desejo. Na ânsia vã de no sorrir, retê-lo.

Escrito por A menina do lado às 19h17
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11/07/2007


Da maternidade

 

 

Minha mãe. Nossos olhos tam iguais. Creio que já encobertos por uma mesma névoa de tristeza. Acho que essa dor ela me passou no líquido amniótico. Lá, eu a bebi, a sorvi. Lá, flutuei no mais íntimo de seu ser. Pedúnculo de seu corpo. Sua vaga semente. Eu a transformei, ela me fez, enquanto eu morava em seu segredo, enquanto ela carregava em seu ventre a conseqüência de sua noite, enquanto fui a dor de sua noite, a dor do seu amor. Tam catexiadas, tam silenciosas, tam iguais.

Creio que seu espasmo uterino ainda esteja no meu. Ainda sou pungida pela sua noite, eu a carrego. Dalgum modo, sou a continuação de sua noite. Somos um grão de eterno, assi como qualquer semente, qualquer gineceu.

Somos sementeiras à mercê do tempo. Trazemos a dor das colheitas, o peso das estações. Essa arte de germinar, devastando, continuamente. Sempre o acto, sempre o seu prolongamento.

Minha mãe. Não só o tempo lhe faz dolente. Também o amor a tocou. Traz marcas desua volúpia, de seu ardor. Quando o amor toca o corpo de uma mulher, ela já se refaz. Core vira perséfone.  Não só o tempo a ceifa, também o amor a macula...Também o amor a deforma...A noite já a deforma...O amor lhe traz mesmo o abandono de si. Pq ela germinará.

Sou essa sua cisão. Sou a sua espera mais dolorosa. Sou o que ela tem de ser, em mim.

Que sabe um homem sobre isso, sobre gerar? Só o tempo o toca, até seu declínio. Na mulher, a própria vida a toca. Ela se desfaz ao primeiro toque do amor.

A morte é-lhe uma coisa mais dolorosa. A morte germina, frutifica.

Eu fui o que ficou depois de que seu homem se foi. O homem pode ir-se. Só a mulher tem de ficar , a guardar um pedaço seu. E que depois se destacará, cruelmente, e a sugará o que tem de mais precioso em seu seio, perto de seu coração.

Ali suguei todo seu ser. É por isso esse gosto agridoce em minha boca, é por isso esse vitimismo amante dos meus seios.

Por isso entendo os olhos terríveis de minha mãe. Fui o sangue consumado de sua noite, fui o que restou. Sou tudo o que lhe restou.

Que sabem os homens desse gosto de morte e de eterno no corpo antes e depois do amor?

Por isso sou assim, como minha mãe. Esse mesmo vazio, essa mesma fenda de morte, essa capacidade de meu sangue verter em jacintos. Assim, essa arte de ser terra fendida, semeada, tocada de morte e de algum modo demasiado cruel, cindida e ressuscitada.

Escrito por A menina do lado às 11h22
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