Vexando-me


02/08/2007


Das esperas de agonia

Lembrando de ontem, da chuva. Dos cabelos mui longos,molhados, das névoas de cigarro, dos 23 anos, dos pés descalços.Do dia de Sei Shonagon, de esperar o amante vindo de um dia de chuva, cortando a noite e meu coração.

Dia de ter namorado com calma, com baloiços de ciprestes. Essa tontura agora de dia derramado, de negra hemorragia da noite tocando assim com delícia meus cabelos.

O estado do amante é aquele que espera. A espera é a insalubridade do dia, a insalubirdade harmoniosa dos que emergem e morrem.

Essa espera é como um gozo também. É meio que uma pequena morte a fruição, por isso é tão harmoniosa. É um estágio em que a vida é tão sentida que morremos um pouco.

Talvez por isso matamos o que amamos. Talvez por isso queiramos tanto de nos nutrir de coisas mortas. É que há tanta vida nas mortes frescas.

Mais ou menos esse gosto de morte vívida,  de paz de cipreste poisado, tocado de vento, de umidade de cabelos, de insalubridade harmoniosa do dia tem a minha espera.

E gozo a vida como a mulher que ama.

Que prazer, que agonia.

Volta, homem inesperado, antes que se desfaça a paz do dia. O gozo não dura, depois do prazer da morte se quer vida. Depois da chuva quer-se sol.

Volta.

Escrito por A menina do lado às 18h15
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"Goza a vida como a mulher que ama"

Fiquei a pensar no tal conselho bíblico e sobre la "jouissance"(gozo) feminil. As mulheres são muito próximas das coisas, são fascinadas pelo belo. Os prados só são tão belos por causa de seus olhos. Parece que querem trazer os prados todos em seu corpo. Valem-se da natureza com volúpia, o sol "chaud" lhes doira a pele, as prepara para o amor. Vêem nos braços dos homens manjedouras, estão como que sempre prontas a conceber. Parece que a vida lhes é feita pra escoar de seu ventre, e há sempre flores em seu ventre.

Há prazer em sua carne, em sua pele, em seu sangue...Há dor, há vida em sua fenda. Há qualquer coisa de vento fresco em seus cabelos, de calor em suas bocas, quelque chose de chair satinée.

É muito triste a privação de opulência e gozo numa mulher, quando ela foi feita tão-somente para isso. Todas as mulheres devem chegar ao "parvenir de la jouissance"(bela expressão para orgasmo).

 

Por isso são tão belas...La jouissance é própria das mulheres. E quanto mais lhe é própria, mais silenciosa, mais inefável ela é. Por isso são tão belas, o fruir vem de seus corpo. O prazer, a volúpia, a concepção lhe é própria e isso é tão belo que nos cala como nos cala um amanhecer.

O ventre da mulher é o gozo de um jardim. E o escoar de vida dela é uma dor tamanha que também nos cala.

Mulheres são o belo e elas não sabem contar. Talvez os homens, então, emudecidos, tentem, vacilantes, as relatar. As delatar.

Mulheres não sabem dizer, só sabem se couper en deux, partager, só sabem doer, só sabem seres indizíveis. Quanto mais gozam, mais calam. Por isso nasceram para o amor.

Toda vez q falam é imitando os homens. É do homem tentar dizer, tentar cantar aquilo que o cala, aquilo que detsroça.

Escrito por A menina do lado às 07h59
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Sobre o Inefável

Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve
-- Ardes, sangras, pregada à tua cruz e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo
Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho e o céu que foge à mão que se levanta

E a ira muda e o asco mudo e o desespero mudo
E as palavras de fé que nunca foram ditas
E as confissões de amor que morrem na garganta

(Olavo Bilac)

 

A manhã está tão bonita. Que confissão de desgosto, que coisa mais sem consolo não poder dizer sobre uma tal majestade. Como nos corrói e emudece o inefável. Voilà mes pense-bêtes.

O impulso que tenho é deixar tudo intocado. Que a manhã não seja maculada pela "inania verba".

Só posso buscar talvez palavras no sol, nas folhas de mamoeiro aqui da paisagem, nos cantos dos galos.

Como dizer o amanhecer?

Deixo talvez Heráclito, muito mais feliz que eu:

 "Pensar é esgueirar-se entre as palavras e as coisas. Dizer é trair as coisas. Para não dizer traindo, tenho que trair o meu dizer. Tenho que dizer não dizendo. Digo-não-digo: ‘O deus é dia noite; inverno verão; guerra paz; saciedade fome.’"

Escrito por A menina do lado às 07h41
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De Core se tornando Perséfone

Em momentos tão periclitantes fico cá a cavoucar forças não sei bem donde. Das chuvas, das chamas dançantes, do afago dos leitos, de meus quadris se sustendo no meu mundo de pequeneza.  Tentando me dizer que dessas lágrimas tamanhas tirarei jóias preciosas, que do aprendizado agônico dessas lágrimas jamais esquecerei.

Sabedorias parecem leis eternas. Só nesse que se alimenta dos próprios filhos hei-de confiar. Ele me dirá “confia”, e confiarei. Só o tempo é meu berço de plumas, de jasmim, e minha mais aguda pedra.

Desses choros tão altos vou tirar a força mais silenciosa, sem frieza estóica. Aprendi que maquiamos o rosto depois de choros tão convulsos. Um batom contra todos os ressabiados.

Vou me suster acima de tudo isso que me devasta, mesmo que pelo tal instinto “besta besta” de viver, como tenho sempre dito. Flutuando, talvez.

Como disse ao meu mui querido, as coisas sempre estão a bailar, sempre quase em angústia de desmaio, mas sempre em valsas. Por isso o meu amor imenso às valsas, especialmente a certa valsa triste. Além de tudo aquilo que me desola, as coisas valsam, e trinam, enquanto não desmaiam.

É como a espera de um parto. Enquanto isso fico nessa intimidade absoluta com meu ser, com minha solidão, com meus infernos. Mesmo assim sentindo que a vida é uma dádiva, que a terra é amável, que as coisas bailam, que há esse gosto de nuvens, de eterno.

É assim, este estado de espera de colheita. Como fruir nos tempos de bonança, como se conservar decentemente em tempos de miséria. Aprender a perseverar no mais alto caos da terra.

E a jovem Core não brincava com sua guirlanda de margaridas, quando, atraída por perfume de narcisos, não se deixou cair em um penhasco? Não se abriu a terra, não a levou ao seu âmago? E dessa fenda de terra tudo o que o grito de Core consegue alcançar não são os ouvidos ternos de Hécate, deusa dos sombras e das tênues luzes lunares? E sua mãe, Deméter, não a procura em todos os cantos, por que não deseja sobretudo voltar a por seus grãos e flores sobre a terra? Por uns tempos, uma grita suas dores num inferno desconhecido, mas amparada pela ternura das sombras e da lua, e a outra vaga com andrajos, desfigurada de dor, em busca desesperada pelo seu ventre. Crispada de ódio às vezes, em tempos estéreis de amargura e procura.

E as duas não aprendem a usar de mantos negros, e a ver bênção no fogo, e mesmo do inferno de repente não há um sabor suave de romã compartilhado entre Core e seu temido esposo que passará a ser em parte amado?

E Core não aprende a ver ternura em seus infernos e a reinar sobre ele, tornando-se Perséfone,  e no reencontro de sua maturidade não ensina a mãe sobre as estações, e sobre sobrevivências, e que há os tempos de colheita e tempos de espera?

Enquanto a espera, Deméter gera. E quanto a encontra, tudo brota. Volta a primavera.

E a coroa de flores volta a estar na cabeça de Perséfone, agora rainha de seu inferno, consoladora da mãe que sem saber sobre perdas não queria mais brotar.

Mesmo nos infernos uma coroa pode brotar, mesmo no inferno há romãs...

Escrito por A menina do lado às 07h34
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29/07/2007


Ainda sobre o desdém

Ah, que haja sabor dos dias. Que haja riso em vez do colérico. E continuo a venerar o riso com a evidência de um axioma, numa paixão de devota recalcada aos seus singulares trajectos destruidores, absurdistas, superiores. Além do patético, o riso tem seu quê de mistério, de portentoso, de "savoir-vivre". Essa animada condição dos que já aprenderam a rir da vida e da morte. A vida, decerto, é-lhes menos fastidiosa. Nem sempre nos cabe a gravidade. Si, o grave pode ser de somenos importância. Rir das gravidades. Porque esbórnia é preciso, é mister abominar o sensaborrão.

Continuo rindo de minhas experiências acadêmicas. E continuo achando de muito mau-gosto, permita-me que lhos diga, as pugnas fanfarronas entre os parvulos e pestilentos "eruditos" acadêmicos que conheço. Mas acredito que seja igual em toda parte. Tipos são tipos, e me divertem à grande nestas pugnas fálicas ou frígidas com fervor clubístico.

Tipos são tipos. E me pergunto cá agora que tipo de estado "literário" estou a gestar. Ontem o meu mui querido disse "camiliano". Pode ser. E hei-de defender aquele necrofilismo brega com a mesma salvação e perdição? Si, si. Defender o malsão pode ser uma lépida acção para o dia. E hei-de rir e lamentar o vigor de meu pendor(Pra rimar cafonamente mesmo).

Lançar com isso argueiros no olho pra me livrar do anti-tesão do domingo. Lançar sempre à face.

Ah, o esporte ensaiado para amanhã para aborrecer os rabugentos da academia. Como sublimar os momentos trágicos e as sangrias uterinas? Como transformá-los em logorréia e gravidade?

Pugnas de academês retardado, com franqueza, é o clamor  dos abismos da miséria. E, ai! Céus! Aquela cólera impertinente, aquele lugar-comum, aquela logorréia repetida com obsessivo pormenor ! Ah, meus sais! Os pruridos dos acadêmicos doentinhos!

Com franqueza, eu prefiro as baixezas das solicitações da carne. Íncubos, donde estão?

Então, persoas. Para o tédio do dia, para os romeujulietismos, para as sequiosidades, para os vagos, para os complexos, para o "inefável", para o academês, sublimizem, rindo. Castiguem, rindo. Deformem, rindo. É divurtido. Riam mesmo da decadência do riso.

Bonjour.

 

 

Escrito por A menina do lado às 08h16
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Do mudo e do mórbido

Aqui calo os "dedos suaves de moçoila" em nome das mudas dores, dos silentes cansaços. E deixo um suspiro cansado e me rio dos tolos proscritos e seviciados, cheia de um desdém pacóvio.

 

E assim, ganhe-se a prenda do dia. E assim, o dia é lépido, suportável. Um afresco.

Escrito por A menina do lado às 08h00
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