Em momentos tão periclitantes fico cá a cavoucar forças não sei bem donde. Das chuvas, das chamas dançantes, do afago dos leitos, de meus quadris se sustendo no meu mundo de pequeneza. Tentando me dizer que dessas lágrimas tamanhas tirarei jóias preciosas, que do aprendizado agônico dessas lágrimas jamais esquecerei.
Sabedorias parecem leis eternas. Só nesse que se alimenta dos próprios filhos hei-de confiar. Ele me dirá “confia”, e confiarei. Só o tempo é meu berço de plumas, de jasmim, e minha mais aguda pedra.
Desses choros tão altos vou tirar a força mais silenciosa, sem frieza estóica. Aprendi que maquiamos o rosto depois de choros tão convulsos. Um batom contra todos os ressabiados.
Vou me suster acima de tudo isso que me devasta, mesmo que pelo tal instinto “besta besta” de viver, como tenho sempre dito. Flutuando, talvez.
Como disse ao meu mui querido, as coisas sempre estão a bailar, sempre quase em angústia de desmaio, mas sempre em valsas. Por isso o meu amor imenso às valsas, especialmente a certa valsa triste. Além de tudo aquilo que me desola, as coisas valsam, e trinam, enquanto não desmaiam.
É como a espera de um parto. Enquanto isso fico nessa intimidade absoluta com meu ser, com minha solidão, com meus infernos. Mesmo assim sentindo que a vida é uma dádiva, que a terra é amável, que as coisas bailam, que há esse gosto de nuvens, de eterno.
É assim, este estado de espera de colheita. Como fruir nos tempos de bonança, como se conservar decentemente em tempos de miséria. Aprender a perseverar no mais alto caos da terra.
E a jovem Core não brincava com sua guirlanda de margaridas, quando, atraída por perfume de narcisos, não se deixou cair em um penhasco? Não se abriu a terra, não a levou ao seu âmago? E dessa fenda de terra tudo o que o grito de Core consegue alcançar não são os ouvidos ternos de Hécate, deusa dos sombras e das tênues luzes lunares? E sua mãe, Deméter, não a procura em todos os cantos, por que não deseja sobretudo voltar a por seus grãos e flores sobre a terra? Por uns tempos, uma grita suas dores num inferno desconhecido, mas amparada pela ternura das sombras e da lua, e a outra vaga com andrajos, desfigurada de dor, em busca desesperada pelo seu ventre. Crispada de ódio às vezes, em tempos estéreis de amargura e procura.
E as duas não aprendem a usar de mantos negros, e a ver bênção no fogo, e mesmo do inferno de repente não há um sabor suave de romã compartilhado entre Core e seu temido esposo que passará a ser em parte amado?
E Core não aprende a ver ternura em seus infernos e a reinar sobre ele, tornando-se Perséfone, e no reencontro de sua maturidade não ensina a mãe sobre as estações, e sobre sobrevivências, e que há os tempos de colheita e tempos de espera?
Enquanto a espera, Deméter gera. E quanto a encontra, tudo brota. Volta a primavera.
E a coroa de flores volta a estar na cabeça de Perséfone, agora rainha de seu inferno, consoladora da mãe que sem saber sobre perdas não queria mais brotar.
Mesmo nos infernos uma coroa pode brotar, mesmo no inferno há romãs...