Vexando-me


26/04/2008


“Tenhas a preferência, e terás o espírito”

A degustação é a elevação dos que vivem. Aquele que já não saboreia, já não vive. O apetite, a excelsa salivação, está para a umidade, o desejo e o untuoso de tudo o que vive. Sim, somos desejo(e o seu incansável e inalcançável).

O cuidado, o preparo para a degustação também creio que abençoe aqueles que querem viver. É como o ritual amoroso. Desde o perfume que nos entornamos na expectativa de fazer fremer a carne alheia.

Assim nos faz fremer o tilintar das baixelas, ou o que evola da pimenta rosa recém-moída.

Essa capacidade de percepção e recepção do alimento entende-se sobremodo como compreensão. A vida, enquanto se estabelece o sujeito, enquanto pode ele se afirmar deriva justamente dessa capacidade de compreensão, para que haja, posteriormente, a celebração.

E sim, faz-nos bem o retinir dos metais e nos alucina o fumoir do cozimento. Faz-nos bem as ceias como nos fazem bem os ritos de celebração. Amalgamamos-nos assim com qualquer coisa de vivaz. Tudo se junta, tudo se coze para mitigar e estimular.

Faz-me bem a minha ruidosa cozinha, e suas panelas que fumegam. Nada pode ser mais benéfico que a conversa inspirada após o alimento. Já nos dizia os marxistas que primeiramente, o pão. Só quem sabe do pão sabe do espírito. Alegra-se a alma e o corpo, na paz da digestão.

Reza a lenda que a criança que desde pequena incomoda-se ou com a ausência ou o excesso de sal, já tem lá da personalidade o seu quinhão.

O espírito e o gosto são irmãos.

Amarei, pois,  a lembrança do frigir dos peixes azeitados e os convivas. Que ali, havia vida. Naquela abundância, naquela mesa cheia.  O Honorável, inventivo festim.

Não está para a austeridade, o alimento. Mas para o regojizo. Aqueles que não se rendem a um licor de laranja, trocaram a paixão pelo solene. E o Deus e o demônio que se escondem nos alimentos que se amerceie deles. Que o alimento é a inocência, e também a devassidão.

E é assim que me vejo. Um pouco cansada, um pouco ruborizada pelos vapores. As saias um tanto levantadas. A cada gole de vinho louvo um tanto a terra. Os olhos umedecidos, a boca pronta pra se apaixonar. A cozinha enfumarada como uma noite de luar, e as chamas claras como um dia de verão. A preparar a transcendência daqueles que bem sabem se fartar.

Aloira-se o frango, besuntado de fresco tomilho. Namoro-o. Tão candidamente nos enobrecendo a vista. Faz nossas noites serem macias.

As uvas são tão calmas. Tão naturais, tão divinas. Adoçam-nos a boca, e tornam os olhos tão coruscantes. Lembramos que a vida nada mais é que uma negra fenda que temos de regar.

Amemo-as como mastigamos as rubras maçãs, como se fossem uma moça boca

 

Recendem os sulcos de tangerina. É tão suave o seu cheiro que nos enternece. É uma santidade, um lúbrico prazer a que nos convertemos. Não importa se vem do céu ou do inferno, é a carne cheia de alma que vence. É o alimento. Num cesto, a perfumar.

E o vinho! Há! Pode o sublime se engarrafar, e fazer suaves crostas nas taças?

A taça, deitemo-la bem à garganta, na velha arte de entoar. Com servilismo e honradez, no desdém ao salobro, contra a tortura da sede

E o café! Ah nobre elixir! Que nos arregalam os olhos e a mente para as heresias! Que fumeguem em nós como os infernais, e nos alimentem a inteligência como os músculos clamam pela côdea do branco pão!

Não somos nada, se não bebemos café. O mais eloqüente dos alimentos. Que os alimentos nos falam

E dizei-me do que comes, que te direi quem és

Escrito por A menina do lado às 23h17
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Histórico