Vexando-me


08/09/2008


Dizem que a vida é tecelã imprevisível.

Toda hora é ponto de partida. Não importa o quanto eu não suporte o verão.

Toda hora é abandono. Cinicamente. Não importa a temeridade do frio.

As nuvens se encontram, se desencontram. Causam relâmpagos de efeitos vários. E todo choque não dura.

Não importa. Mudam as catedrais e os heróis. Onde estão os heróis e os monumentos dos meus 11 anos?

A Deus ou a Satã ou à nulidade de todas coisas, perde-se um tanto da carne, da alma. Mesmo assim continuam imperiosas e belas de se fazer medo.

E a viagem continua, sem piedade. E sofremos como os danados, pois é o preço de tanto procissão. E a fome permanecerá, sem remédio, em remissão.

Para horas como essa, nada me parece mais válido do que sabedoria canhestra de gente que foi, e de algum modo, permaneceu. Devo seguir a mesma trilha. Sentir a mesma ausência de coisa inominada.

E olhando sempre as vitrinas e as janelas, por que não?

Tão simples, tão abertas. Cheias de promessa e repetição.

Eis o preço irreparável de toda permanência e de toda condição.

E é tão habitual, que não deve doer. Mas sempre dói, e em segredo.

 

Escrito por A menina do lado às 20h28
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Esta noite não dormi mais contigo. A vida foi feroz como a borboleta matinal que veio ruflar e nos acordou.

 Os ventos foram ledos, e tantos eram seus beijos, os seus alentos. Tantas mãos de mãe têm o vento. E como revolveram a terra, a terra de vinhas e sofrimentos que cuidamos com beijos. Como foi embora o sabor, o pomar, e as raízes que se tocavam em conhecimento.

Bem cedo veio o norte. E a terra abriu seu ventre enorme, e te amparou. E o mar cantou o seu verbo, com pérolas tão fundas, nas mais duras conchas em que quiseste sangrar, apear com a mão, provar da salmoura.

E nem sei nadar. E senti ao lado da cama toda aquela liquidez. Todo o repasto do mundo e sua fome e seu fogo que eu não poderia suster sem queimar.

Não estavas na cama, e vi-te ir embora. Cheio de águas, e em chamas.

Tinhas um colar de pérolas em teu pescoço. E reluzias. E o clarão me cegou.

E não dormi mais contigo. Nem as ondas te devolveram. Ou pude te guardar num candeeiro qualquer.

A cama está desguarnecida, descarnada da tua subterrânea turgidez q aprendo a desentranhar quando agora ouço as tempestades

E sei que longe relampejas, em outros céus.

E este céu de sono agora é uma água salobra. Um céu de lividez

Mas permanecem todos os céus. Como a mesma fome e o mesmo Deus

E da insônia faz-se a urdidura do sono de adeus

 

 

Escrito por A menina do lado às 20h13
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Fortaleza, agora eu não vou te deixar.

O rio ceará se tornou tão profundo

E aquelas montanhas tristes de quixadá

 São redondos mundos

Redondos como meus seios

Voltaste a ser o flácido berço

O sol terá de ser o esto e o fanar

Tantas manchas, tantos veios

Somos cada vez mais parecidas

Na sede, nas chuvas cada vez mais parcas

Percebe como nos dói a terra quando chove?

Estamos cada vez mais retorcidas

Nossas escassas naturezas

Tão irmanadas

Escrito por A menina do lado às 08h25
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Quando se perdem as palavras

De novo o encontro do silêncio. A falta de proteção das asas do pássaro. É hora de ficar.

De volta a velha casa.Nela me afundo. De volta após os ventos de presságio, das viagens das estranhas alarmadas. Das viagens em conluio.

Depois voltamos ao silêncio de nossas casas. Elas nos aguardam, com a rija verdade de suas cepas e juncos.

No silêncio de minha casa.Minha casa é maior que o mundo.

A intimidade da minha janela. A única ponte. A única construção. Minha casa, meu único senhor.

A casa que agora toco sem aflição. As entranhas agora suaves como velhos, conhecidos porões depois de revoadas.

Só em minha casa o silêncio é o alento das palavras.

 

 

 

Escrito por A menina do lado às 08h18
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Eu sou quase assim

Eu era assim

Um Douro lavrado, estriado. Inequivocamente verde. Imenso. A perder de vista.

 

Eu queria ser assim

A carne como palavra. A senhora do escuro.Vê a palidez que funde com a noite sem embotar? Vê cada parte do quase de mim?Vê como permaneci ante o negro mistério? Quem estava a se confundir na noite comigo?

 

Eu agora sou assim:

Agora eu sou um olhar para o Douro.

Costumam rimar os poetas as águas do Douro com "a força de um touro". Nas amenas tardes de xisto, donde se extraiu tanto tesouro. A água lavou o sangue de tantos mouros que nelas sangrararam. O sangue se transformou nas videiras que por elas se abeiram. O sangue se tornou vinho. E todos se embriagaram. A água consolou os calos, e o corpo amou as podas. De socalco em socalco

Eu só acho que em tais águas muitas coisas foram levadas. E as águas continuam a levar tudo. A lavar tudo.

Eu quero olhar as águas do Douro. Seus vivos, suas almas penadas.

Está tão claro. E o Douro tão perene. E ao mesmo tempo tão pequenino.

Não importa. O Douro continua a reinar.

"Oh Douro, meu tesouro"

Escrito por A menina do lado às 08h02
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