Eu vim dum mundo de morosidades. De lentidão de calçadas, da urdidura das rugas de sol. Vim dum mundo cadenciado por baloiços de rede. E de espera por frutas maduras, olhando o tempo confiadamente. Vim dum mundo que pouco queria mudar, e que se alentava com banhos de cuia. Águas frias de pote. Aprendi nele que as mulheres se cicatrizam de seus filhos e de seus homens com arruda. Que as febres passam com rezadeiras. Que as chuvas são tão raras que são como curas, como festas esparsas.
Vim dum mundo onde se bebem os mortos, quando o coração já endurecido demais pra comportar tantas tristezas. Vim dum mundo em que se gargalha em cada esquina, um riso do tamanho de uma aflição. Sou de onde não se foge do sol, e o sol de nenhum se amerceia. E somos todos um sol de solidão, que se agiganta.
Não sei quando o meu mundo se chocou com o teu. Se numa tarde qualquer os ventos se cruzaram, ao relento. E eu senti o teu mundo em que se quer demais, e não se tem. Onde há tantos montes tão sós. Sólidos desamparos, como mãos aos céus. Desatadas. Esse mundo que te embalou. Deu essa sombra, essa ruga em tua testa, essa envergadura e o temor de te-la. Nesse mundo em que há tanta pressa. A pressa nos teus sapatos furados, nos teus bolsos sem vinténs, nos teus óculos quebrados em que a vida também se quebrou. E tu tremias nos banhos de frialdade, esses banhos que te gelaram o coração. Viestes dum mundo em que o alimento enfastia, de fartura de repetição. Eu vim dum mundo de carestia, de contentamento. E não sei o que é pior. Se o desejo do mar, ou o fato de já ter afogado nele.
Viestes dum mundo triste de putas de calçada, onde tu pagas por um pouco de amor. Trazes o desdém do teu mundo nos teus olhos. Eu trago a crença no mundo nos meus.
Nada sabemos sobre nossos mundos. Só sabemos que neles permanecemos, sós.


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