Vexando-me


21/09/2008


Quero ver, ter novamente entre os dedos

A sarça dançante dos teus cabelos

Os olhos de pouso

Os olhos abertos, contando do que vem de muito longe

As mãos, cansadas mãos de Midas

Pelo calor vencidas

Pobres asas penadas, procurando as minhas

Tuas dores já tão anoitecidas

De tanto contemplar os dias, sem os entender

O gosto do vinho da tua boca

Réstia do veneno de que se não morreu

E sobretudo, a tua vontade acho que já velha de dançar

Imitar as chamas, tão imperfeitas

Queimar

Aquela tua velha arte de quem rocia

A minha noite que te espera

Recendendo a tua mirra

Tua face, ao vento

Branqueja minha vida

Parece que Deus pousou em teus cabelos

Escrito por A menina do lado às 10h44
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O dia esteve tão claro

De tal abrilhantada verdura

Dum tão cortante fervor

Que se ofendeu meu coração

Hoje, obsequioso da carestia

Desdenhando os polens, amando as latrinas

Uma fome de noite, de nela ser rainha

De pintar o sol de azeviche

Rebaixar a face, ao entardecer

Enfureci

Há coisas, coisas de morte, que pulsam

Coisas que o sol ainda não aquiesceu

Que só à noite pertencem

Que só ao breu se sustém, e se mostram

Coisas da carne, sublime verdade

Que o sol, cego manto do lume

Com seu branco olhar  ainda não pereceu

Escrito por A menina do lado às 10h43
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Pousei no teu rosto

Vinquei tua testa

E nos teus olhos me fiz um desespero tão úmido

Que choveram também os meus

Numa agonia tão lenta

Falamo-nos e as palavras tiveram um quê de brisa

E se renderam a um mar

Ao mar, nos deixamos talvez levar

Ao amor do viço das folhas

Tentamos talvez rouba-lo, ao apanha-las

E ao menos ela, a natureza, estava nua

Nua e tão amável

Que por uns instantes, não se dói

 E nossas mãos, já não sei o que procuram

Ao que obedecem

Talvez se estendam, vãs

Talvez se juntem

No fogo arrefecido que nos estremece

Escrito por A menina do lado às 10h43
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Se pudesse

Tomaria o tempo pelos cabelos

Deixa-lo ao pó em que nasce

E se quebranta

Faze-lo alinhado ao chão

Aos musgos, às réstias

Na contemplação ferida de suas setas

Do seu norte nenhum

Só a morte de certeza severa

Fazer o tempo

Ter amor ao cabresto

A prisão de ter tão perto

O alhures

Das alvíssaras do lugar algum

Dar ao tempo

As quatro folhas

Do trevo rasgado

Abrir-lhe o ventre

Em que se revolvem ventos

Traze-lo a minha cabana

Erguida em braçadas

Minhas braçadas

À cabana que amo

Ao topázio que luta contra o amarelado

Atirar-lhe a face

As palavras que não terão valor nenhum

O possuiria com toda ânsia das virilhas

E lhe mostraria o gerânio à janela, em agonia

Levá-lo-ia às  ruas em que se perdeu a memória

O feriria com o punhal

Que lhe faria derramar

Tão-só o nosso sangue comum

Escrito por A menina do lado às 10h41
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Não canso de olhar pra trás

São mesmas, as figueiras

Os mesmos, os quadros de santa ceia

A língua cansou-se nalgum porto em que não se foi bem ancorado

Não foi pródiga a partida

Ficou o amor por cartas(especialmente as seladas)

A comoção das plantas que soçobram ao calor das janelas

E suas tímidas, mas tão amáveis raízes

Ficou o gosto de tocar a areia que trouxe ao calcanhar

Além da procura, amiúde, por canários engaiolados

E sua triste arte de poisar

A saudade das mãos que regaram e as que me ataram com algum nó que me vexa

Sinto na cabeça a mágoa do cabelo que enbranqueceu

De tanto que quis a paz que não veio

Talvez por isso essa ânsia de água, todos o dias

A eleição do lavor por amado

O lavor que leva embora uma coisa, e traz outra de ocaso irreparável.

E deito com o escuro dos quartos, e lhes aguardo os soluços

Da velha estada da memória

Que não consola

Que este frio que não traz sequer agoiro não era melhor que aquele sol que enfastiava

Ao calor, eu me volvo

Não canso de olhar pra trás

 

Escrito por A menina do lado às 10h41
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E agora

Só a boca está um pouco mais gasta

Um pouco mais

Um quinhão de beijos

Pouco pagos

Beijos que custaram talvez a alma

E o branco dos cabelos

Talvez agora um tanto mais disforme

Um tanto mais amarga

Que toca o amor ao ventre

Com mão nefasta

Pousaram as horas

De repente

Sobre o olho que envelheceu

Talvez agora um pouco mais do sensabor

Do céu agora tão escuro

Um pouco mais da pujança do vil

Um pouco mais de praga na raiz

Da árvore que não fincou

Não há mais o corpo

Talvez um pouco de pó meu ficou em teu peito

Ali, pela blusa

Que tu expulsaste num gesto

Um pó abjeto

Cobrindo o livro que não se leu

 

Escrito por A menina do lado às 10h39
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O Universo e seu contemplador, em “Sonetos de beira-mar e elegias do espaço imaginário”.

 

 

Em admiranda tessitura, sentimos o universal ser apalpado em “Sonetos de beira-mar e elegias do espaço imaginário”, de Arthur Eduardo Benevides. Ao ler o livro, parece-nos que o mar se abeira, e estamos submetidos ao seu infinito, ao marulho que ecoa, ao abismo de seu fundo que entontece. O coração se torna ora pequenino, fincando a areia, ora marinheiro. O mar é o espelho do universo. O universo é nosso espelho. E o homem, à beira-mar, é o contemplador.

Fluem, abundam as palavras. São solenes, quase palacianas. São eufônicas, e se agrupam elegiacamente, ou em sonetos que conseguem ser maiores que o cerceio da forma.  A fórmula prototípica, singelamente alça certa liberdade graciosa, através de epítetos cromáticos e cheios de significação metafísica. O livro todo se sente como um brado ao eterno, ciente do antitético, do absurdo, despertando sensações acima das explicações, que só poderíamos nominar musicais, acompanhando experimentações que antanho Hölderlin e Rilke fizeram. Faz-se, destarte, uma poesia sensível e estética, cheia de ecos, com fundura de visionário, que perpassa os temas universais, humanamente escutados e cantados, num grácil transbordamento dos excessos. 

É sobremodo o universal que o poeta abrange, é a busca do éter, da aceitação da substância. É a convivência do chão desolado e dos cumes. Do tédio terrestre e do mar que convida, muita vez, às vãs navegações. O poeta está condenado a cantar. E Benevides o faz, e com requinte.  Sobretudo, no livro escutamos o mundo que ressoa. O poeta está lá, para auscultar que tudo canta, em melopéia redentora, e ao verso, com o aprumo do cinzel, cabe a escravidão de comunicar. As mãos do verso podem ser plumas que voam e assim alcançam o eterno, até tombar. Mas voam. E nos aquecem como o candelabro, e nos alimentam como as côdeas de pão. Solfejam os seus poemas, abertos ao lied e ao réquiem.

O livro inteiro é sobremodo precipitação. Como espectador, o homem se talha, sofre e se embevece. A poesia, parte adâmica, no que tange à inspiração, parte repetição, ante as influências anteriores, tem a função de consolo, de ponte, de entendimento. Ora extasiado, ora ressabiado com a vida, Benevides porta o elemento dramático contra o insólito e a violência da natureza. É essa a tarefa do artista (ou quiçá maldição): escravizar-se de sua sensibilidade, transportá-la. A natureza sugere e ele transpõe do modo extremo como lhe chega. Modela-se a dor, nesse caso em versos portentosos, de eloqüência febril e arguta, num nítido pendor para o belo.

Dá-se a leitura com prazer. A morte vem como abre-alas, diáfana e assustadiça. São eles, os mortos, que soluçam gemebundos, e nos trazem sua luz mortiça, com súplices mãos. A morte circunda o poeta. Essa certeza da imolação da vida se verte no verso, em profuso élan. O tom é lúgubre, adrede costurado, cheio de ritmo, com hialinas imagens. Os mortos, e sua inevitável morte, nos sondam sempre com sua vaga presença, numa consubstanciação da dor, diluídos na versificação castiça do autor. Mais que a temeridade, Benevides os escuta, talvez já vexado pelas suas cãs, e os sente na sua elevação triste, famélicos de luz. Os poemas são os retratos dos quais jamais debandaram. E os mortos cantam, mormente, o seu desejo de vida. O artífice trabalha o ouvido atencioso, e traz a luz o fato de que a vida é tamanha que até os mortos querem viver. Mas tudo morre. O tempo devora seus filhos.

Sobretudo, canta-se o tempo. É dele o maior poder de ressonância. Pesam as estações, o homem é vergastado pelas passagens, pela idéia de finito. Volve-se o olhar do autor para o porvir, para a morte que espreita irrequieta. Segundo o poeta, “tudo termina. É o dia escurecendo”. Ao homem que espia o mar, por vezes, o eterno se faz breve. O tempo, para os mortos de Benevides, é maior que a própria morte, e se cadencia nos seres vaporosos como um tempo interior. É mister deixar que ressoe, o tempo, e que a alquimia da palavra o transpareça, como diz o autor, no poema metalingüístico: “Mas se faço do amor meu guitarreio. É das dores do tempo, nunca alheio que crio a voz do verso sua essência”. Sentimentos e metáforas se jungem para mostrar que tudo se matiza com o poente, e que desde o nascedouro somos peregrinos imersos no tempo aprendendo sobre um outono que há de nos ceifar. A vida é uma travessia. O poema é a sua ponte, é o entendimento, é a premência do confessar. O poema é o que se cala no homem ao mar, é o canto que ecoa na ânsia de nele se precipitar. O poema é a irmanação com seus marulhos e abismos. E diante da metáfora do mar, Benevides em versos de inefável beleza se precipita em seu mistério, desde a esperança do barco ao seu naufrágio. E chora o coração marinheiro.

Mas também no mar há o desejo. Somos feitos dele, do desejo, e também ele em sua potestade é a parte mais doce da cantilena. Tudo nos impele à travessia. Lança-se a sorte, e o amor pelo vicejar que acompanha todo o desejo é a lufada de ar fresco. Eros e Thanatos se abraçam e se debatem. A vida clama, malgrado todas suas dolências. E a memória do autor trabalha loquaz, nas ânsias que os versos sonoros lhe tragam o bom augúrio. Empossado da lira, ele deixe que a vida ecoe e resplandeça mesmo na cantata dos mortos, que tanto ainda querem viver.  E enquanto a palavra sangra e palpita, a poesia alcança o divino, na indulgência do coração amoroso que nos faz lembrar que a primavera sempre nos salva, não importa o quanto morramos. E na dolente compreensão que seus versos apontam, Benevides se expurga, fazendo reverberar no seu poema também a salvação, através de uma alva, de uma tâmara, de um colo fêmeo em que se busca a resignação. Os poemas de Benevides, apesar do torrencial desespero, fazem as pazes com o mundo, como se pode demonstrar na última estrofe de seu Soneto Triste “Entretanto o amor prossegue. É como um rio caudaloso a correr em pleno estio”.

E eis a experiência estética universal do autor, que em suas deambulações, portando seu cello, contempla o universo, amparado pelas palavras nascidas do entendimento que o ilumina, e que não deixa de ser dolente, que todo conhecimento é um doer.

 (fiz em maio de 2008)

Escrito por A menina do lado às 10h31
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